Realidades
Sem ânimo que se derrame,
retesam-se os músculos
sob o garrote dos nervos de arame.
A respiração aflita, trava, hesita,
pendurando o corpo à vida.
Na cabeça, bigornas repicam,
feito sinos.
Por trás dos olhos, martelos de aço
malham cravos saídos da forja,
projetando os globos injetados
para fora das órbitas.
No olhar, mil temores difusos,
sem o mapa das covas
onde foram cravados no fundo,
talhando vincos no rosto duro
dos que creem ter visto de tudo.
A vontade, que já teve viço,
é modesta, por conta
dos enguiços da lida adversa;
a perna fraqueja; o passo, incerto
e o suor lhe brota da testa.
Tomado de melancolias,
a náusea dá a cor do que resta.
O entorno se fecha a céu aberto,
confinando num quarto escuro
seu inquilino único,
acossado pelo desconforto contínuo
de punhais pontiagudos.
Tantos que somos e as realidades
que borbulham na solidão das mentes
se revelam tão divergentes,
invisíveis aos que passam indiferentes.
Alguém com sorriso de cera
acena do outro lado do passeio
e, mecanicamente, de pronto,
o homem acena do sítio oposto.
Em rasos pespontos,
fio acima, fio abaixo,
costura-se com luz e sombra
o todo e o nada que somos,
tecendo nosso normal cotidiano.
Debaixo de um sol escaldante,
atravessa a avenida,
teso e já desapercebido
como, de resto, tudo.
Se vai a comprar papaias
no mercadinho do fim da rua,
mal percebendo a caricata figura,
por meio salário, a soldo de outros.
O Papai Noel sem idade,
com sua triste felicidade,
metido em rubros veludos,
ensaia nova versão da realidade,
por trás da barba de algodão sujo,
manchada de nódoas do pouco uso.
Eliseo Martinez
18.11.2021
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