Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 2 de novembro de 2021

355.

O hálito de Nietzsche

Nascemos e, logo, o que move
as hordas mundanas
faz com que nos percamos 
por caminhos já traçados
pelos pares humanos,
até que não sejamos
mais que clones de nós,
estranhos a nós mesmos.
Os sentidos que nos guiam
nos são servidos
em drágeas, dia a dia,
por vezes amenos,
por vezes amargos,
com requintes ou barbárie,
pela ação dos mercados
ou pelo frio entusiasmo
dos rebanhos domesticados,
todos e cada um deles
engrenagens do mesmo aparato,
o espaço-tempo da História,
palco das nossas derrotas
e das nossas vitórias.
O que pode haver
de mais vital e urgente
do que por em causa
as amarras que nos prendem
e sair a procurar-se
por onde quer que as pistas
se apresentem,
por onde quer que nos leve
a transvalorizar o presente?
Que mais dá sentido
à existência que paira mansa
sobre os dias em fúria
do que se apropriar
dos fundamentos
de nossas certezas e dúvidas
e, assim, nos sirvam
de legítimos guias
para pisarmos o próprio chão,
bem mais firme
que a areia movediça
que nos engolia?
Já que não existem sentidos
previamente definidos,
pobre do que não se lança
à tarefa de inventa-los
para a própria vida,
do contrário,
terá de engolir aos nacos,
sentidos por outros urdidos.
Içar a vontade como vela de proa
e sair à busca das verdades
que dormem em nós,
colhidas nas redes finas da crítica
de tudo o que se agita
no mar revolto de todas as vidas.
Quem mais propriamente
seria chamado de louco
pelos idos de 1900,
senão Nietzsche,
entre todos os outros?

Eliseo Martinez
02.11.2021

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