Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

373.

Assim caminha a humanidade...

E a peste, sem controle, se espalha
por cada urbe da orbe,
completando seu turno segundo
a ceifar vidas com vigor renovado,
ampliando seus domínios
pelos extensos lotes infectados.
Se já não leva tantos com ela,
mais que nunca, revela-se forte,
tocando com seus longos dedos
os que, por descuido ou má sorte,
lhe deixam entreabertas as portas.
O miasma evolui magnífico,
a verter seus humores pestilentos
pelos poros destes tristes tempos.
Não deixa de ser espantoso
quanto um organismo tão pequeno
é capaz de cambiar a vida de todos.
A natureza segue seu rumo,
exuberante nos gestos e alheia a tudo,
pareça bom ou nefasto aos humanos,
que podem muito e tão pouco.
Esse é seu legado ao mundo,
movendo o que vai acima
quanto o que baixa ao fundo,
cioso como um catador de grãos:
para este lado o grão são,
para o outro, os que se vão
e, ao término da árdua jornada,
está pronto a recomeçar a função.
De nosso lado, o gênio humano
arma-se de razão e Ciência,
fazendo das vacinas a melhor aliada
de nossa conturbada existência.
Contra nós, pasmem, senhores!
Levanta-se a parte menor
e insana de nós mesmos.
Os que não só negam nossos acertos,
como também, com soberba,
rejeitam nossas conquistas,
como se fosse possível
um acordo por fora com a besta.
Mas não são mais que falsas razões
a reinar no reino da estupidez,
prestando sua odiosa reverência
ao medo e a insensatez.
E, põe-se em marcha a humanidade,
como foi sempre e mais uma vez,
dois passos à frente, um passo atrás
e melhor que seja de costas prá parede,
pois nem tudo é natural,
cabendo parte do mal a nós mesmos.

Eliseo Martinez
27.01.2022

domingo, 23 de janeiro de 2022

372.

Austral

Bem que poderia ser de toda parte
mas, ao consultar o calendário
de minha própria passagem,
não passa de um par de meses
o tempo que me sinto em casa,
longe do lugar em que
me embalaram o berço.
Sou daqui mesmo, do Rio Grande,
de instigantes mulheres, entrevero
e causos de viajantes;
de míticos heróis
e legítimos farsantes;
de gado bem tratado
e gente peleando por espaço
debaixo das elevadas...
Pertenço a estes pagos
mais ao sul do Sul do mundo,
que me acolheram ao nascer
nos rigores de junho.
Terra de belas paisagens,
onde planícies e planaltos
são cravejados por cidades
que, em seus contrastes,
muito me aprazem,
sem que tudo me agrade.
Onde, para o calor
que me racha o pelo no verão,
murmuram os rios deste chão
e uma extensa costa oceânica
de frente para a imensidão.
Sem deslembrar que, no inverno,
o mesmo frio que me encaranga,
regelando pés e entranhas,
é um convite aos braços quentes
de quem me ama,
acueirada entre as mantas
da minha cama.
Em uma rápida passagem,
te falo de uma das tantas paragens,
pois é nela que me vejo apeado
neste exato momento:
bem que os campos de cima da serra
poderiam servir a Homero
para descrever melhor e com mais vigor
os Campos de Asfódelos,
onde, uma última vez,
avistou-se Aquiles e Heitor,
proseando a chimarrear pelas coxilhas,
junto ao riacho que corre pelos regaços,
à sobra das araucárias
e ao som do canto dos pássaros.

Eliseo Martinez
15.01.2022

sábado, 22 de janeiro de 2022

371.

Naturando


A manhã irrompe clara e mansa
sob dedos de sol acariciando
as encostas da montanha,
colorida pela paleta de mil verdes,
revelando o que guarda
de tenro o planeta.
À linha do horizonte,
a brisa oscila o cimo dos pinheiros,
fazendo festa nos braços abertos
das araucárias centenárias
que, gentilmente, derramam sombras
sobre os manacás florescentes.
O céu é de um azul profundo,
como o que emoldura os baobás
do outro lado do mesmo mundo.
Lentamente, cúmulos de algodão,
alvos como alva é a cor da divagação,
assumem formas esculpidas
por graça e dom da imaginação.
A quietude do dia se completa
no coaxar rente às águas
e no canto alvissareiro das aves
voando em bandos ou aos pares,
fazendo do comum de seus dias
o que ambicionam os homens
que, sem entender, as vigiam.
Vidas feitas de ócio, paz e espaço
e, é claro, do sustento um pouco
menos árduo, um pouco mais fácil.
Motivos, pode ser que não faltem
e, havendo ocasião, quantos
não desejariam acordar pássaros,
lançar-se no vazio do alto dos rochedos,
habitar livre o elemento dos ares,
flanando em um arco-íris de penas?
Ser dos que vivem do presente,
ignorando conceitos,
que nada sabem
do emaranhado de ideias,
dos apertos do peito,
dos outros à espreita...

Eliseo Martinez
10.01.2022

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

370.

Do par ao ímpar

Como afirmar que se sabe das flores
sem saber das pragas
que lhe roem raízes e folhas?
Como dizer que se conhece o mundo
na recusa em considerar a maledicência,
os males da mente e o suco da maldade
que, lentamente, vão se depositando
no mais fundo de toda a gente?
E, das coisas do coração,
quem diz o quê e quem não?
Entre encontros e desencontros,
sem zelo ou mais cuidados,
os pares cozem-se ponto a ponto
com os que andam ao lado.
Do pouco do quase nada
que por ali se ia,
visto pelos olhos tortos
do alto das galerias,
pairava sobre um
os desenganos da fantasia,
sobre o outro, o gelo da alma fria.
De tanto passo em descompasso,
tanto acima tanto abaixo,
chegou-se ao que se previa
para júbilo do público que assistia.
O ferrão da traição não tardou
em penetrar fundo nas costas
desguarnecidas do primeiro,
fazendo sangrar até a morte
o que nele havia de jardineiro.
E, assim, cumulado de tristezas,
cansado de românticas piruetas,
o que era todo par
fez-se mais um ímpar por inteiro.

Eliseo Martinez
04.01.2022

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

369.

Sofistas

Partir do número para chegar ao ponto
e, a seu turno, transitar a reta,
antevendo o incompreensível infinito
no encontro das paralelas.
Cogitar sob o signo dos volumes,
fazer transcender a geometria
das pirâmides, prismas e esferas
para além das divindades e quimeras.
Contornar a curva, antes que o plano
das certezas nivele a todos, suprimindo
dimensões inteiras que, desde sempre,
viram armar tendas pelo espaço aberto,
nas montanhas, encostas e desertos,
desnecessitados de quem,
com olhos cegos, nos mantém crianças
ao recitar os versos ouvidos desde a infância.
Somos muitos e tão diversos uns dos outros,
vindos de toda a parte,
lugares que sequer se reconhece os nomes,
situados nas bordas do que adivinhos,
como Tirésias, chamarão Europa, África e Ásia.
Nos dirigimos à polis de Atenas,
onde se acenderam os archotes da humanidade,
iluminando as trevas espalhadas
pelos deuses sobre a Terra.
Ao fim, chegar, vencida a última colina
desta Hélade feita de pedra e abismo
ou atracar em Pireu que, mais que porto,
é o vértice de onde partem os comboios aqueus.
Ali ficar e ali morrer, não sem antes,
passar os dias à sombra da Acrópole,
perambulando pela ágora e estoas,
provando do sabor do vinho forte,
figos doces e azeitonas,
sempre atentos as palavras
desses construtores do conhecimento,
hábeis na lógica dos argumentos,
que fazem ofício disto que chamam Filosofia.
Provar que a verdade não é algo que se pegue,
mas veloz e incerta como o voo de Pégaso
e, principalmente, que nada vale para sempre,
tudo se prende a seu lugar e a seu tempo.
Ao cair da tarde, perscrutar o horizonte,
meditando sobre a Lua e as estrelas,
juntos dos que fazem cálculos
e marcam mapas sobre a mesa.
Já nos catres improvisados,
recolhidos ao privado,
pesar a rica colheita do dia,
da ética à política, da matemática à astronomia,
até dar em flor, bicho ou qualquer coisa
que ainda se torne outra,
só revelada no sono dos que se recusam
a aceitar o que já veio posto.
Acima de tudo, sermos felizes
pela ausência quer de dor quer de tristeza,
com o ganho pouco que dá conta
da única vida que se tem certeza.
Muitos que temem o novo
declaram-se nossos inimigos,
mas o inflexível Sócrates
reserva a alguns de nós alguma estima,
mesmo que os outros ainda o levem
a provar do gosto amargo da cicuta
e, assim, as custas da justiça,
por fim a disputa, abreviando-lhe a vida.
Sim! Chamam-nos sofistas!

Eliseo Martinez
02.01.2022