Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

369.

Sofistas

Partir do número para chegar ao ponto
e, a seu turno, transitar a reta,
antevendo o incompreensível infinito
no encontro das paralelas.
Cogitar sob o signo dos volumes,
fazer transcender a geometria
das pirâmides, prismas e esferas
para além das divindades e quimeras.
Contornar a curva, antes que o plano
das certezas nivele a todos, suprimindo
dimensões inteiras que, desde sempre,
viram armar tendas pelo espaço aberto,
nas montanhas, encostas e desertos,
desnecessitados de quem,
com olhos cegos, nos mantém crianças
ao recitar os versos ouvidos desde a infância.
Somos muitos e tão diversos uns dos outros,
vindos de toda a parte,
lugares que sequer se reconhece os nomes,
situados nas bordas do que adivinhos,
como Tirésias, chamarão Europa, África e Ásia.
Nos dirigimos à polis de Atenas,
onde se acenderam os archotes da humanidade,
iluminando as trevas espalhadas
pelos deuses sobre a Terra.
Ao fim, chegar, vencida a última colina
desta Hélade feita de pedra e abismo
ou atracar em Pireu que, mais que porto,
é o vértice de onde partem os comboios aqueus.
Ali ficar e ali morrer, não sem antes,
passar os dias à sombra da Acrópole,
perambulando pela ágora e estoas,
provando do sabor do vinho forte,
figos doces e azeitonas,
sempre atentos as palavras
desses construtores do conhecimento,
hábeis na lógica dos argumentos,
que fazem ofício disto que chamam Filosofia.
Provar que a verdade não é algo que se pegue,
mas veloz e incerta como o voo de Pégaso
e, principalmente, que nada vale para sempre,
tudo se prende a seu lugar e a seu tempo.
Ao cair da tarde, perscrutar o horizonte,
meditando sobre a Lua e as estrelas,
juntos dos que fazem cálculos
e marcam mapas sobre a mesa.
Já nos catres improvisados,
recolhidos ao privado,
pesar a rica colheita do dia,
da ética à política, da matemática à astronomia,
até dar em flor, bicho ou qualquer coisa
que ainda se torne outra,
só revelada no sono dos que se recusam
a aceitar o que já veio posto.
Acima de tudo, sermos felizes
pela ausência quer de dor quer de tristeza,
com o ganho pouco que dá conta
da única vida que se tem certeza.
Muitos que temem o novo
declaram-se nossos inimigos,
mas o inflexível Sócrates
reserva a alguns de nós alguma estima,
mesmo que os outros ainda o levem
a provar do gosto amargo da cicuta
e, assim, as custas da justiça,
por fim a disputa, abreviando-lhe a vida.
Sim! Chamam-nos sofistas!

Eliseo Martinez
02.01.2022

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