372.
Austral
mas, ao consultar o calendário
de minha própria passagem,
não passa de um par de meses
o tempo que me sinto em casa,
longe do lugar em que
me embalaram o berço.
Sou daqui mesmo, do Rio Grande,
de instigantes mulheres, entrevero
e causos de viajantes;
de míticos heróis
e legítimos farsantes;
de gado bem tratado
e gente peleando por espaço
debaixo das elevadas...
Pertenço a estes pagos
mais ao sul do Sul do mundo,
que me acolheram ao nascer
nos rigores de junho.
Terra de belas paisagens,
onde planícies e planaltos
são cravejados por cidades
que, em seus contrastes,
muito me aprazem,
sem que tudo me agrade.
Onde, para o calor
que me racha o pelo no verão,
murmuram os rios deste chão
e uma extensa costa oceânica
de frente para a imensidão.
Sem deslembrar que, no inverno,
o mesmo frio que me encaranga,
regelando pés e entranhas,
é um convite aos braços quentes
de quem me ama,
acueirada entre as mantas
da minha cama.
Em uma rápida passagem,
te falo de uma das tantas paragens,
pois é nela que me vejo apeado
neste exato momento:
bem que os campos de cima da serra
poderiam servir a Homero
para descrever melhor e com mais vigor
os Campos de Asfódelos,
onde, uma última vez,
avistou-se Aquiles e Heitor,
proseando a chimarrear pelas coxilhas,
junto ao riacho que corre pelos regaços,
à sobra das araucárias
e ao som do canto dos pássaros.
Eliseo Martinez
15.01.2022
Poema, que segue o fio condutor das memórias consultadas no calendário do tempo, valoriza nossa história, traz um olhar atento para o que nos cerca, explora a potência das nossas raízes e instigam um olhar positivo e cuidadoso da nossa terra.
ResponderExcluirReflexos de quem somos, nós faz voltar para dentro e por instantes acessamos nossas memórias que nos fazem revisitar nossas mais autênticas referências que é o nosso chão.
Perfeito, Sônia! De tudo o que nos forma, a terra há de estar sempre presente.
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