371.
Naturando
A manhã irrompe clara e mansa
sob dedos de sol acariciando
as encostas da montanha,
colorida pela paleta de mil verdes,
revelando o que guarda
de tenro o planeta.
À linha do horizonte,
a brisa oscila o cimo dos pinheiros,
fazendo festa nos braços abertos
das araucárias centenárias
que, gentilmente, derramam sombras
sobre os manacás florescentes.
O céu é de um azul profundo,
como o que emoldura os baobás
do outro lado do mesmo mundo.
Lentamente, cúmulos de algodão,
alvos como alva é a cor da divagação,
assumem formas esculpidas
por graça e dom da imaginação.
A quietude do dia se completa
no coaxar rente às águas
e no canto alvissareiro das aves
voando em bandos ou aos pares,
fazendo do comum de seus dias
o que ambicionam os homens
que, sem entender, as vigiam.
Vidas feitas de ócio, paz e espaço
e, é claro, do sustento um pouco
menos árduo, um pouco mais fácil.
Motivos, pode ser que não faltem
e, havendo ocasião, quantos
não desejariam acordar pássaros,
lançar-se no vazio do alto dos rochedos,
habitar livre o elemento dos ares,
flanando em um arco-íris de penas?
Ser dos que vivem do presente,
ignorando conceitos,
que nada sabem
do emaranhado de ideias,
dos apertos do peito,
dos outros à espreita...
Eliseo Martinez
10.01.2022
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