Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 25 de março de 2022

384.

Foi isso ?

Ainda nos abancamos
numa lua de Saturno
contemplando as belas pradarias
das cercanias do universo.
É tanta curva bem lançada
que só mesmo um niemayer
para dar vida ao projetá-las.
E o fascínio do caos organizado
girando nas raias do astro
que a luneta de Galileu
já havia antecipado?
Andamos por tão longe
e andamos tão pouco
ante paralelas que não se encontram,
sequer imaginando quão distante
é seu pondo de desencontro.
Com paus e pedras
enveredamos pela Técnica,
rascunhamos Ética e Arte.
Realizamos Civilização e Cultura.
Alguns longos passos adiante
e inventamos Ciência,
e os horizontes já não eram os mesmos
legados pelas velhas crenças.
A cada passo redescobrimos
que tudo é Um, tudo está ligado,
revelando-se o mesmo com mil faces,
disfarçado.
Vimos muito, e muito pouco veremos
de tudo o que vai sendo,
palmo a palmo, descortinado.
Às vezes, alçar voo nas asas da razão,
não basta prá nos manter longe do chão.
Cansados de tudo o que não vimos,
desassossegados com as respostas
que jamais teremos,
parece que estamos destinados
a destruir o que há de belo
sobre a rocha de magma e ferro
e fina pele d'água,
que chamamos Terra.
Talvez resulte algum bem
enviar sondas ao espaço,
levando mensagens gravadas
que relatem nossas conquistas,
mas não encubram nossos fracassos.
Quem sabe não seja útil
ao viajante desgarrado,
que passe por acaso por estes lados,
evitando em outros mundos,
novos desastres.
... mas, que não seja permitido à NASA
ou a Elon Musk e seu pirocão prateado,
dourar a pílula, por nós mesmos,
envenenada!

Eliseo Martinez
25.03.2022

quinta-feira, 24 de março de 2022

383.

Vadiando pensamento


Chove em Porto Alegre.
Pelas ruas da Azenha,
onde já não gira o moinho
que moeu a farinha
do trigal do Chico Silveira,
os automóveis deslizam
sobre a lâmina d'água.
Ao alto, paira o silêncio
nos cemitérios do bairro,
enquanto um homem,
mais para baixo,
sem guarda-chuva,
de calçado sujo
e terno escuro,
aperta o passo.
Não sei bem prá quê,
já que vai mais ensopado
que um pinto molhado.
Na velha avenida,
antes da pandemia,
tomada do grande alvoroço
dos pequenos negócios,
hoje, sem cuidados,
passeiam dois vira-latas
por suas desertas calçadas.
A chuva que cai lá fora,
me convida a sair prá dentro,
fazendo vadiar pela Azenha
meus vadios pensamentos,
brincar com as palavras
como, no outono, folha secas
brincam com o vento.

Eliseo Martinez
24.03.2022

domingo, 13 de março de 2022

382.

Tio Sam

No horizonte de eventos mais amplos,
operando efeitos pelo globo todo,
jogos de luz e sombras turvam olhares
habituados aos estreitos domínios
de dias não mais que vulgares.
Imersos em realidades 
previamente processadas,
disseminadas pelos que fazem
do poder razão da própria existência,
aninharam-se comodamente
às ilusões da aparência,
onde os nexos são cortados
e as pegadas habilmente apagadas
para que os autores sigam ocultos
sob véus de penumbra,
até que o encobrimento das evidências,
iniciado pelas mídias,
seja cauterizado nos livros de história,
soletrado nos bancos de escola,
certificando verdades ilusórias.
No teatro de mamulengos,
em que se colhe a usura
pela guerra antes semeada às escuras,
a mão invisível modula emoções,
manipulando os cordões com desenvoltura,
sempre empenhada em ampliar
as já vastas áreas de influência,
drenando os recursos que tornam possível
seu modo peculiar de existência.
Mais uma vez, hasteiam-se pelo mundo
panos pintados feito pijamas listrados,
branco e vermelho, retângulo estrelado,
e o incendiário se passa pelo gentil
e desinteressado bombeiro solidário.
                                                
Eliseo Martinez
13.03.2022

quinta-feira, 10 de março de 2022

381.

Hedonista

Engano teu!
Não estou aqui para traçar linhas
de algum futuro nosso,
estou pelas reticências
com que o presente dispensa apostas.
Sem plano ou rede de segurança,
sou apenas o arauto do desejo
no lúcido aconchego da desesperança.
Cocheiro dos sentidos,
dos deuses todos, o único
que reconheço atende por Dioniso.
Meu tempo está suspenso
num eterno agora,
momento a dentro,
pele a fora,
girando lento como giram
as rodas de uma carroça.
Não hesite!
Se aposse do que tenho,
só não peça mais que possa.
Se há depois,
que seja a paz do pouso,
que segue a queda vertiginosa,
fazendo soar os guizos do corpo,
te revelando ao porem-te a mostra
ante o jorro de teu gozo.
Do alto da colina,
cercado de sátiros
e entidades demoníacas,
Juan acena para Johannes,
sob o olhar de um kierkegaard
desconcertado com o resultado.

Eliseo Martinez
10.03.2022

quinta-feira, 3 de março de 2022

380.

Ucrânia

À sombra dos bastidores, articulam-se
podres poderes para, mais tarde,
com punhos de ferro e hálito de enxofre,
se abaterem sobre os que tombam nas guerras,
searas de toda a miséria.
Nas cidades, alvos da artilharia pesada,
manifesta-se o horror das vidas canceladas.
No teatro de operações, ardem escombros,
onde filhos procuram pelos pais,
e os pais, pelos corpos de seus meninos.
Gente que, ainda ontem, fazia amor entre paredes,
passeava pelas ruas de Kiev, Odessa ou Kharkov,
ia e vinha das escolas, lia jornais pelos cafés
e saia dos mercados carregando sacolas.
No jogo de cena dos operadores da ofensa,
o malogro dos diálogos desfaz-se 
em monólogos de meias verdades,
primeiras a serem mutiladas pelos embates,
enquanto contam-se vidas perdidas
e engrossam cordões de foragidos.
Demasiado sangue e lágrimas
ainda será derramado,
muito do brilho desaparecerá
do rosto das crianças enlutadas
até que o tecido roto das razões em conflito
seja cozido com retalhos de interesses oblíquos.
Antes mesmo do certo e do errado,
o raso julgamento do "nós" contra "eles",
na eterna luta de deus contra o diabo,
subjaz no relato dos noticiários
apenas o que interessa aos mercados
e ao poder de fogo do inimigo,
mancomunado com oportunos aliados.
Uma vez mais, decisões letais
são tomadas por ociosos generais
valendo-se de políticos sequiosos
de ganhos eleitorais.
Um primeiro balanço
dos trágicos acontecimentos
que assolam as regiões em conflito,
aponta para um considerável recuo civilizatório,
despontando a barbárie no tempestuoso
horizonte premonitório.
Na arena geopolítica, Rússia e OTAN
ensaiam na Ucrânia seus novos velhos negócios
movidos a fornos crematórios.

Eliseo Martinez
03.03.2022