Ucrânia
À sombra dos bastidores, articulam-se
podres poderes para, mais tarde,
com punhos de ferro e hálito de enxofre,
se abaterem sobre os que tombam nas guerras,
searas de toda a miséria.
Nas cidades, alvos da artilharia pesada,
manifesta-se o horror das vidas canceladas.
No teatro de operações, ardem escombros,
onde filhos procuram pelos pais,
e os pais, pelos corpos de seus meninos.
Gente que, ainda ontem, fazia amor entre paredes,
passeava pelas ruas de Kiev, Odessa ou Kharkov,
ia e vinha das escolas, lia jornais pelos cafés
e saia dos mercados carregando sacolas.
No jogo de cena dos operadores da ofensa,
o malogro dos diálogos desfaz-se
em monólogos de meias verdades,
primeiras a serem mutiladas pelos embates,
enquanto contam-se vidas perdidas
e engrossam cordões de foragidos.
Demasiado sangue e lágrimas
ainda será derramado,
muito do brilho desaparecerá
do rosto das crianças enlutadas
até que o tecido roto das razões em conflito
seja cozido com retalhos de interesses oblíquos.
Antes mesmo do certo e do errado,
o raso julgamento do "nós" contra "eles",
na eterna luta de deus contra o diabo,
subjaz no relato dos noticiários
apenas o que interessa aos mercados
e ao poder de fogo do inimigo,
mancomunado com oportunos aliados.
Uma vez mais, decisões letais
valendo-se de políticos sequiosos
de ganhos eleitorais.
Um primeiro balanço
dos trágicos acontecimentos
que assolam as regiões em conflito,
aponta para um considerável recuo civilizatório,
despontando a barbárie no tempestuoso
horizonte premonitório.
Na arena geopolítica, Rússia e OTAN
ensaiam na Ucrânia seus novos velhos negócios
movidos a fornos crematórios.
Eliseo Martinez
03.03.2022
Nenhum comentário:
Postar um comentário