379.
Xadrez ucraniano
Arrastam-se as cadeiras
mais para junto da mesa,
há muito, posta no centro da cena.
No rastro de desajeitados trejeitos,
seguidos dos belicosos acenos,
movimentam-se as peças no tabuleiro,
tendo início os ritos da contenda.
Cavalos de batalha avançam casas,
por cima dos peões perfilados,
ainda paralisados.
Pelas oficinas, ruas, supermercados,
uma estranha música é escutada.
Soam bumbos pelas estradas e cidades.
Os astutos contendores tramam táticas,
sussurradas ao ouvido dos aliados,
de olhos postos no pulso frenético
do cronômetro recém disparado.
Sob o olhar atento dos espectadores,
abrem-se as apostas, sem limites ou pudores.
Regozija-se o mercado da guerra
e a corja de seus poderosos senhores.
O rigor das regras logo será posto à prova.
Ao final, quase tudo será permitido,
dentro de normas que não serão seguidas,
ante o olhar descuidado dos juízes.
Sem ação, um a um, tombam os peões,
de peitos estufados pela curta trajetória
que, juram, ficará nos anais da História.
De lado a lado, a estratégia é apenas uma:
a nós, os mais justos, só cabe a vitória!
As torres resguardam os flancos,
enquanto os bispos, como é sabido,
dedicam seus melhores serviços
aos vencedores, orando mais tarde,
é claro, pelos vencidos.
As rainhas vão às compras,
se movem entre as casas, desenvoltas;
os reis, guarnecidos, brincam de esconde-
esconde, como o rato faz com o gato,
depois de roer os restos do prato.
Ao final da partida, a Ucrânia foi dividida
entre heroicos gregos e valentes troianos,
sem muralhas, trirremes ou sarissas,
mas armados de tanques, caças e ogivas.
Do outro lado da linha,
sem óleo e gás do Kremlin,
faz o inverno mais gélido de Berlim.
Uma última vez, agitam-se nas campas
velhos cossacos, saudosos de Napoleão.
E, uns e outros, que já não sentem frio,
saciam-se da sede, com todo o sangue
e urina que escorrem pelo chão.
Eliseo Martinez
24.02.2022
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