Próximos e incomunicáveis
Não! A ideia não é nova.
Já fomos comparados a ilhas
- por mim, prefiro, tripulantes
solitários de naus à deriva -,
o que foi apoiado por céticos diletantes
e refutado por românticos delirantes.
De fato, somos bichos
que dependem de um outro,
sendo mais um mistério
como o primeiro da espécie
vingou sem os cuidados
de que a raça carece.
Abandonando vestígios
e seduções da utopia,
resta o irrefutável do que vai
sendo escrito no livro dos dias.
Agrupados, damos mais tempo
ao tempo da própria existência,
necessário pele à fora,
deixando pele a dentro
à sorte e ao capricho dos ventos.
Ocultos sob camadas de máscaras,
há muito grudadas à face,
abrigados por disfarces,
saímos por ai, coxeando meio de lado,
a passos desencontrados,
nos movendo no círculo restrito
onde somos mais do mesmo
no eterno retorno dos recomeços,
carregados de medo e desejos,
a abreviar a vida de nossos apreços.
Embriagados dos ganhos
e pesados das perdas,
colamos imagens no imaginário,
recriando memórias
de duvidosas verdades,
como houvesse o que ecoar
de nós pelos umbrais da História.
Por vezes, cansados da caminhada,
sós ou em solidão acompanhada,
nos estiramos à margem da estrada
e, à falta do raro,
remexemos a bagagem,
tocando à caixa, até então, fechada.
Lá dentro conhecemos o tédio,
a ira, a inveja... e tudo o mais
que nos faz do tamanho que somos.
Calejados atores, desconversamos,
falando de coisas há muito deixadas
em alguma curva empoeirada,
como a fé, a arte ou o amor,
que é um jeito bem nosso
de nos enganar, alegrando a dor.
As circunstâncias que enredam
vidas como teias de aranhas,
com a calma das tempestades,
fazem por nós nossas escolhas.
E, cada um em seu íntimo,
presa da própria impotência,
segue mais estranho que o outro,
encerrado no bunker de um corpo.
Eliseo Martinez
10.02.2022
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