Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 31 de dezembro de 2022

431.

Muros róseos

Tu, minha querida,
és cria das circunstâncias
e dos revezes de meus dias.
Afora isso, é a ponte
que me liga a vida e muito
do ar que alimenta o corpo,
já sem mesma serventia.
Despido o amor de toda a fantasia,
não se encontraria ele nu
na aridez destas poucas linhas?
O mal bem pode nascer
dessa obsessão em se pensar a vida,
querer descarnar o impossível,
além, é claro, de lhe dar
algum errático sentido,
depois de nos quebrar os ossos
contra os muros róseos do romantismo.
Talvez falte dessacralizar o amor
e simplesmente amar,
e mais que olhar, falte enxergar.
Talvez falte tudo com que
as fomes do mundo se saciaram,
com mãos nuas,
sem talheres ou guardanapos.
Mas, que fazer da imaginação
e das imagens que desde a semente
nos acompanham?,
fico a perguntar da fila ao tempo
que, no entanto, indiferente,
é tão surdo quanto o vento.

Eliseo Martinez
31.12.2022

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

430.

Boas histórias

Se Deus está morto,
a vida é coisa
do mundo dos homens.
Se Deus está morto,
o mais certo é que
por aqui mesmo
se dê conta das coisas.
Se Deus está morto,
nem mesmo ao Diabo
está garantido lugar ao trono.
Mas... Deus não está morto!
Assim como as belas mentiras
que a muitos encantam,
boas histórias não morrem
enquanto houver
alguém que as conte.
E quando já não houver
quem que o faça,
covardia, medo e ignorância
arranjarão outras,
que nos sussurrarão
ao ouvido, de graça,
em meio a escuridão
que preenche o vazio
dos espaços.

Eliseo Martinez
19.12.2022

sábado, 17 de dezembro de 2022

429.

Mensagem a um futuro
não muito distante

Olá, minha querida!
Do muito que te reserva a vida,
começo pela parte mais difícil.
Vais sofrer, pequena!
Não, não leio o futuro,
nem sequer bruxo sou.
Tampouco prever-te as mágoas
me faz bem ao coração.
É que vivi e, se vivi, foi por amar
a vida, do contrário teria apenas
existido e nada em mim restaria
a ser dividido.
Sim, eu sei!
Vão pôr-se em fila para contar
das vezes em que me perdi
e dos erros que cometi.
Mas, te adianto eu que, também,
outras tantas me encontrei
e estou aqui, pensando em ti.
Não há jeito diferente
de passar por esta estrada,
nem bom seria se fosse ela
completamente asfaltada.
Ainda há pouco,
ao entregar teu estimado bico
ao velho de barbas brancas
vestido de vermelho, agarrada
a um ursinho de pelúcia,
li em teu rosto
o esboço de uma angústia.
Nunca permita que o medo
fique no comando, é coisa dele
estar sempre nos rondando,
e é bom que saibas, por vezes,
ele será nosso único aliado.
Se algo nos torna fortes,
não são as facilidades
que nos vêm de graça,
mas os obstáculos levantados
ante nossos passos.
Soa estranho, bem sei!
Mas vou tentar te explicar,
minha querida.
Pobre do que vive imune
ao sobressalto ou apenas
para contornar as pedras
que magoam seus pés descalços,
sem olhos na paisagem
e nos que passam,
sem tino de se deter
ante o céu estrelado,
a fúria do mar encapelado
e as noites enluaradas, sem jeito
de por o encanto no olhar
antes mesmo do que há
para ser olhado.
Além do mais, o tédio
é a erva daninha que cada um
decide ou não regar.
Tão menina, ainda!
Mal chegaste e já me encontro
de partida.
Assim mesmo é a vida.
Não vou te mentir que estarei
contigo onde fores,
não creio que haja outro lugar
para se estar senão este
em que nos vemos a caminhar.
Ai daquele que não aprendeu
a andar só, nem sempre
haverá alguém junto de nós.
Mas te digo, minha menina,
pensa em mim quando eu partir
como alguém que sempre
te aguardou e, antes mesmo
da tua semente ter brotado,
te amou.
Como tu, que não estavas,
também eu não estarei.
Isso pode te ajudar.
Se quiser apenas um motivo
para o que te digo, eu dou:
confia, tu és muito mais que tu,
semente semeada com amor.
És a soma de mulheres de valor,
algumas delas, preciosas
gotas agridoces com que
o destino me presenteou.
Sem elas, ainda mais difícil
seria saber quem sou.
Então?! Se te preveni,
não foi para te amuar.
Com estas poucas linhas
deixo-te a tarefa de escrever
a peça toda.
Anda, começa a rabiscar!
Te desejo uma escrita colorida,
tingida de genuínas alegrias;
que as nuances da beleza
te acompanhe pela vida inteira
e o amor seja coisa corriqueira.
E o mais importante é isto:
não te vislumbres com o que
flutua à superfície, sempre
experimenta tocar o fundo
do que for imprescindível.
Foge da preguiça,
ela entorpece a mente
e entumece as vísceras.
Escreve! A obra é toda tua.
Tem folha e tinta na gaveta
à esquerda da escrivaninha.
Na dúvida, é a gaveta 
que sempre tens de abrir,
minha garotinha.
Vai! Vai, mas não te esquece,
cuida com o tempo,
ele é um amigo traiçoeiro.
Quando menos se espera,
ele nos faz ver o que há
no fundo do espelho.
É o que tenho a te dizer
neste 17 de dezembro,
ao soprar os quatro lumes
de teu bolo sem açúcar,
a primeira pedra do caminho
que, cheio de orgulho,
observo como pulas.
E, uma a uma, tu pulas,
brava menina de muitas luas.
Um tanto de Ana Terra,
outro tanto de Anita e outro,
ainda, de Blimunda...
Feliz aniversário, Izabel!

Eliseo Martinez
17.12.2022

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

428.

Em resumo, o que sou

Minha cabeça aprisiona
toda a poesia livre de rima
que meu coração, intestino,
testículos e fígado
já produziram.
Tal caleidoscópio de imagens
não está degrau acima,
degrau abaixo
que qualquer outro.
São as minhas imagens,
as que pude dar contornos,
inclusive as incongruentes
que perturbam meu sono.
Enfim, com uma dose
de estoicismo e duas de afinco,
somos tudo aquilo que
nos empenhamos em ser,
mais a fuligem produzida
por esse insano querer.
Ainda que não sejamos
mais fortes que a realidade,
por vezes, descuidada,
ela sai pra tomar uma cerveja.
É quando as brechas se abrem
ao acaso e, naturalmente,
articulam incertezas.

Eliseo Martinez
16.12.2022

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

427.

Cachoeiras

Com voz grave 
e convicta do que dizia,
uma velha e sábia mulher,
certa vez, me aconselhou:
"nunca confesse, meu filho,
nunca confesse!"
No entanto, te confesso eu:
dos conselhos sinceros
que aquela mulher me deu
foi o que quase nunca segui.
Não pelo imperativo moral,
pelo qual jamais me seduzi.
Mas, talvez, porque meu amor
seja como as águas turbulentas
que correm como podem,
pelo regaço dos vales,
entre as rochas,
recusando-se a empossar
por onde passam,
sempre prestes a lançarem-se
do alto do penhasco
no abismo que as abraça,
para surgirem outras,
em alguma outra parte.

Eliseo Martinez
13.12.2022

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

426.

A invenção da esperança

O que sobrevive, em nós,
da criança que já fomos,
renasce nos festejos de dezembro,
este tempo meio fora de lugar,
animado pela crença popular
de deixar os males para trás.
Logo irromperá um ano novo,
prenuncia a matemática dos calendários,
colados à porta dos armários.
Que venha logo, diz o povo,
dando a todos fôlego novo.
Sim! Todo o mal será redimido
e o bem que há de vir,
enfim, jamais vencido.
Antes mesmo de pronunciada
a palavra esperança,
quem não guarda de algum dezembro
gratas lembranças,
senão do que se deu,
ao menos, do que ele prometeu,
tal qual encanto de bolhas de sabão
enquanto não se desfazem
ao tocar o chão?
Pelas frestas abertas nestes dias,
que se renovem as utopias
e não faltem ouvidos
para ouvir o canto da cotovia,
ensejando cada conviva a coar
da turva vida gotas cristalinas
da mais inocente alegria.
Assim, votos de bons auspícios,
se multiplicam por todo o lado,
saltam boca afora, pelos lábios,
replicam em sorrisos
e a âncora do justo é lançada ao infinito.
Sim, tudo se inventa, tudo se cria!
Que grande mal seria
se quem inventou o tijolo e o muro,
que aprisionam, esquecesse
de inventar, também, os sonhos,
por insensatos que forem?
A esperança, essa ilusionista,
logo ela, irônica e dúbia,
com seu sorriso cândido de medusa,
segue sendo o que sempre foi
desde que uma tão curiosa Pandora
a encontrou no fundo da caixa
que abrigou prendas
por demais assustadoras.

Eliseo Martinez
01.12.2022