429.
Mensagem a um futuro
não muito distante
Olá, minha querida!
Do muito que te reserva a vida,
começo pela parte mais difícil.
Vais sofrer, pequena!
Não, não leio o futuro,
nem sequer bruxo sou.
Tampouco prever-te as mágoas
me faz bem ao coração.
É que vivi e, se vivi, foi por amar
a vida, do contrário teria apenas
existido e nada em mim restaria
a ser dividido.
Sim, eu sei!
Vão pôr-se em fila para contar
das vezes em que me perdi
e dos erros que cometi.
Mas, te adianto eu que, também,
outras tantas me encontrei
e estou aqui, pensando em ti.
Não há jeito diferente
de passar por esta estrada,
nem bom seria se fosse ela
completamente asfaltada.
Ainda há pouco,
ao entregar teu estimado bico
ao velho de barbas brancas
vestido de vermelho, agarrada
a um ursinho de pelúcia,
li em teu rosto
o esboço de uma angústia.
Nunca permita que o medo
fique no comando, é coisa dele
estar sempre nos rondando,
e é bom que saibas, por vezes,
ele será nosso único aliado.
Se algo nos torna fortes,
não são as facilidades
que nos vêm de graça,
mas os obstáculos levantados
ante nossos passos.
Soa estranho, bem sei!
Mas vou tentar te explicar,
minha querida.
Pobre do que vive imune
ao sobressalto ou apenas
para contornar as pedras
que magoam seus pés descalços,
sem olhos na paisagem
e nos que passam,
sem tino de se deter
ante o céu estrelado,
a fúria do mar encapelado
e as noites enluaradas, sem jeito
de por o encanto no olhar
antes mesmo do que há
para ser olhado.
Além do mais, o tédio
é a erva daninha que cada um
decide ou não regar.
Tão menina, ainda!
Mal chegaste e já me encontro
de partida.
Assim mesmo é a vida.
Não vou te mentir que estarei
contigo onde fores,
não creio que haja outro lugar
para se estar senão este
em que nos vemos a caminhar.
Ai daquele que não aprendeu
a andar só, nem sempre
haverá alguém junto de nós.
Mas te digo, minha menina,
pensa em mim quando eu partir
como alguém que sempre
te aguardou e, antes mesmo
da tua semente ter brotado,
te amou.
Como tu, que não estavas,
também eu não estarei.
Isso pode te ajudar.
Se quiser apenas um motivo
para o que te digo, eu dou:
confia, tu és muito mais que tu,
semente semeada com amor.
És a soma de mulheres de valor,
algumas delas, preciosas
gotas agridoces com que
o destino me presenteou.
Sem elas, ainda mais difícil
seria saber quem sou.
Então?! Se te preveni,
não foi para te amuar.
Com estas poucas linhas
deixo-te a tarefa de escrever
a peça toda.
Anda, começa a rabiscar!
Te desejo uma escrita colorida,
tingida de genuínas alegrias;
que as nuances da beleza
te acompanhe pela vida inteira
e o amor seja coisa corriqueira.
E o mais importante é isto:
não te vislumbres com o que
flutua à superfície, sempre
experimenta tocar o fundo
do que for imprescindível.
Foge da preguiça,
ela entorpece a mente
e entumece as vísceras.
Escreve! A obra é toda tua.
Tem folha e tinta na gaveta
à esquerda da escrivaninha.
Na dúvida, é a gaveta
que sempre tens de abrir,
minha garotinha.
Vai! Vai, mas não te esquece,
cuida com o tempo,
ele é um amigo traiçoeiro.
Quando menos se espera,
ele nos faz ver o que há
no fundo do espelho.
É o que tenho a te dizer
neste 17 de dezembro,
ao soprar os quatro lumes
de teu bolo sem açúcar,
a primeira pedra do caminho
que, cheio de orgulho,
observo como pulas.
E, uma a uma, tu pulas,
brava menina de muitas luas.
Um tanto de Ana Terra,
outro tanto de Anita e outro,
ainda, de Blimunda...
Feliz aniversário, Izabel!
Eliseo Martinez
17.12.2022