Eliseo A. C. G. Martinez

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" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

426.

A invenção da esperança

O que sobrevive, em nós,
da criança que já fomos,
renasce nos festejos de dezembro,
este tempo meio fora de lugar,
animado pela crença popular
de deixar os males para trás.
Logo irromperá um ano novo,
prenuncia a matemática dos calendários,
colados à porta dos armários.
Que venha logo, diz o povo,
dando a todos fôlego novo.
Sim! Todo o mal será redimido
e o bem que há de vir,
enfim, jamais vencido.
Antes mesmo de pronunciada
a palavra esperança,
quem não guarda de algum dezembro
gratas lembranças,
senão do que se deu,
ao menos, do que ele prometeu,
tal qual encanto de bolhas de sabão
enquanto não se desfazem
ao tocar o chão?
Pelas frestas abertas nestes dias,
que se renovem as utopias
e não faltem ouvidos
para ouvir o canto da cotovia,
ensejando cada conviva a coar
da turva vida gotas cristalinas
da mais inocente alegria.
Assim, votos de bons auspícios,
se multiplicam por todo o lado,
saltam boca afora, pelos lábios,
replicam em sorrisos
e a âncora do justo é lançada ao infinito.
Sim, tudo se inventa, tudo se cria!
Que grande mal seria
se quem inventou o tijolo e o muro,
que aprisionam, esquecesse
de inventar, também, os sonhos,
por insensatos que forem?
A esperança, essa ilusionista,
logo ela, irônica e dúbia,
com seu sorriso cândido de medusa,
segue sendo o que sempre foi
desde que uma tão curiosa Pandora
a encontrou no fundo da caixa
que abrigou prendas
por demais assustadoras.

Eliseo Martinez
01.12.2022

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