Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 27 de junho de 2023

459.

O fim

Pelos abismos do fim do mundo
correm águas ácidas
de um rio profundo,
rasgando por toda a terra 
caminhos de priscas eras.
No vasto oco subterrâneo
do que foi uma tranquila
e bela esfera anilada
deste quadrante da galáxia,
junto dos pilares da, então,
chamada Terra, ainda ferve
o magma metalizado sob a cor
púrpura de suas névoas.
Seres de toda espécie,
inocentes habitantes
do extinto céu, agora,
eternizado inferno,
nem ao menos se deram conta
do estrago, da superfície ao núcleo,
levado a cabo por um ser
de nome homem.
Se algum dia, viajantes estelares
tangenciarem a esfera morta,
dirão aos seus que aqui verdejaram,
exuberantes, as florestas
e floriram os mais raros
jardins do universo,
chamando nossa casa azulada,
já sem azul, sem bicho,
sem humano, sem nada,
de terra arrasada.
Os pequenos desses povos
serão instruídos de como
o bem maior de uma
razão jovem e insipiente
não foi capaz de vencer
a velha ambição de sua gente.
E, em algum tempo, quiçá distante,
inumanos povoarão os arredores
devastados deste desmundo,
inaugurando um mundo novo,
tendo a chance de serem
mais sábios do que fomos.

Eliseo Martinez
27.06.2023

sábado, 24 de junho de 2023

458.

As distâncias

Às vezes, me enredo com a
grandeza das distâncias.
Me ocupo das maiores, as mais
dramáticas e irredutíveis,
as que em metros podem ser nada,
mas jamais serão vencidas.
Tão apartados estamos do
mais próximo corpo do espaço
quanto de qualquer um,
aqui mesmo, ao nosso lado.
Tantas e tão variadas
são as lonjuras que se criam
no percurso de uma vida:
- a distância entre os que ficaram
e os fantasmas dos que se foram,
sem retorno;
- as que nos apartam do eu menino,
que mirava seguro o vasto mundo,
alheio ao imensurável infinito;
- a dos que não compreendem
o que repousa inerte a sua frente;
- a dos que não se entregam ao amor
receosos da inevitável dor;
- a dos que paralisam de medo
ante o objeto do desejo;
- a dos que perderam a si mesmos,
sem jeito de reconhecer-se
no estranho emparedado no espelho;
- a imensa distância entre o sonhador
e os sonhos que sonhou;
- a distância minha e tua ao cruzarmos
nossas mágoas pelas ruas...
 como melhor sermos medidos
do que pela distância das ilusões
que na primavera plantamos
e os desencantos colhidos no outono?
Não! Acho que não!
Parte do que fomos
sempre será presente.
Melhor acreditar que transitar
pelas distâncias impossíveis
ainda faça das nossas misérias
algo que nos sirva e dê sentido.

Eliseo Martinez
24.06.2023

domingo, 18 de junho de 2023

457.

Provocações: viajar

É espantoso como coisas
que tendem a passar desapercebias,
podem alterar os rumos
que se dá a própria vida.
Um fim de tarde, tinto de escarlate,
pode rachar as cracas do espírito
e dar alternativas ao destino.
Basta dispor-se a afrouxar as amarras,
metendo olhos pelos buracos da alma
e, talvez, o já vivenciado
e alguma imaginação, é claro,
se encarreguem de dar curso ao inesperado.
E, provocando a nós mesmos,
jogam-se os dados à espera dos resultados...
Caso os caminhos se abram,
o primeiro passo foi dado
e, quem sabe, por esses outros nos vamos;
caso se desfaçam, por deitarmos raízes
fundo demais no lugar em que estamos,
abraçamos o mais do mesmo do cotidiano.
Ficar ou partir?
Ir ao mercado, andar pela orla do rio
ou cruzar o oceano?
Talvez, voltar a nos perder pela Espanha
ou, mesmo, redescobrir o Oriente
que, há muito, nos chama?
Por vezes, nos seduz reclinar na poltrona,
levados pelas trilhas de linhas e letras,
entregues ao ócio conquistado,
depois de uma vida de trabalho,
e o mundo gira lento no pensamento.
Outras vezes, nos vale mais ir a ele
e saímos à caça do acaso,
sem bilhete de volta ou prazo de chegada,
arrebatados pelo bulício do movimento.
Será que, sem darmos por isso,
é chagado o tempo de descuidar dos sentidos,
enrijecidos sob os mesmos estímulos?
Ou melhor seria que, mesmo a falta de viço,
os deixássemos livres, ávidos de paisagens,
cheiros, sons, sabores, olhares...?
Estar ou não estar, eis o cerne da indecisão,
por hora, objeto da fugaz provocação.
Talvez mais do que um indefinido "é preciso",
viajar seja um truque para nos manter vivos.

Eliseo Martinez
18.06.2023

quarta-feira, 7 de junho de 2023

456.

O som do silêncio

Saído das brumas sencientes,
transitou no escuro
até aclarar-lhe as ideias,
em noite de pouco sono
e sonhos turvos.
Refeito o pensamento,
percebeu-se imerso
na quietude do cômodo
para, logo, provar inquietudes
que, à luz do dia, se escondem.
É quando o silêncio,
enamorado da escuridão,
revela algo do muito
que sublima um coração.
De toda a tralha a equipar
a mente de um homem,
a razão é apenas uma
quando os sentidos inflamam.
Por breve momento,
a noite se fecha
na mansidão do silêncio...
Mas o silêncio, quando escutado,
nunca é aquele vácuo de som
evadido, sem rastro.
Antes, é um coaxar à beira do lago,
um chirriar de grilos,
um estrido de cigarras
vibrando na massa ruidosa
vindo de fora do tempo, que para.
Na solidão do recato, indiferente
a corpo aninhado ao lado,
ao encontro consigo mesmo,
agora, impedido de ser adiado,
somam-se as vozes dos que somos
e o espaço estala em sons adentro
e afora das paredes do quarto.
E o mundo em seu giro paciente
se manifesta no rumoroso silêncio.
O carro que passa na rua deserta,
o latido de um cão perdido,
o grito ecoando na madrugada,
para além das persianas baixadas.
Depois, lhe bateram aos ouvidos
os ruídos da casa.
O esforço de Sísifo da geladeira,
o tardio crepitar da lareira,
os fantasmas que fazem
ranger a escada...
Também desses habituado,
de tantas vezes que espiou
entre a cama e o rés do assoalho.
Quando as vozes se calam,
as máquinas silenciam
e os cães se recolhem,
o universo tende a reconciliar-se
até que a quietude perseguida
é rompida pelo entorno,
que se arma em armadilhas.
É quando o terrível som,
sempre presente,
pode ser, finalmente, escutado.
O alarido das cigarras do mundo
espessa o ruído de fundo.
Há que se cuidar do som do silêncio,
ele pode bem nos levar mais longe
que a paz que se pretende,
onde loucos se perdem facilmente
no abismo de suas mentes.
Nestas noites insones,
o ruminar das sereias desnorteia
velhos e novos argonautas
que, à deriva,
singram por entre os males da alma.
Assim foi desde o início, em dias
de caça ou de guerrear inimigos,
depois de celebras os ritos da tribo
entorno do fogo à boca das cavernas,
amedrontados sob o fedor e o peso
das peles de feras.
Enfim percebeu, que esse zumbido,
esse pandemônio de insetos
é o recurso final que lhe resta
para confrontar os seus medos
e, só então, pode escutar
o que gemia em seu peito.
Não há momento em que se fique
mais nu do que este,
obrigando o espírito a sobrepor-se
ao chilrear das cigarras,
libertando vozes em algazarra,
que habitam porões do inconsciente
de cada ente da raça.
E o silêncio explodiu
no frenesi infernal de sátiros,
ninfas, grifos e faunos,
que nos acompanham, invocando
perícia e coragem ao timoneiro,
na esperança de o levar
à enseada segura e, assim, o salvar
da inevitável loucura.

Eliseo Martinez
07.06.2023