456.
O som do silêncio
Saído das brumas sencientes,
transitou no escuro
até aclarar-lhe as ideias,
em noite de pouco sono
e sonhos turvos.
Refeito o pensamento,
percebeu-se imerso
na quietude do cômodo
para, logo, provar inquietudes
que, à luz do dia, se escondem.
É quando o silêncio,
enamorado da escuridão,
revela algo do muito
que sublima um coração.
De toda a tralha a equipar
a mente de um homem,
a razão é apenas uma
quando os sentidos inflamam.
Por breve momento,
a noite se fecha
na mansidão do silêncio...
Mas o silêncio, quando escutado,
nunca é aquele vácuo de som
evadido, sem rastro.
Antes, é um coaxar à beira do lago,
um chirriar de grilos,
um estrido de cigarras
vibrando na massa ruidosa
vindo de fora do tempo, que para.
Na solidão do recato, indiferente
a corpo aninhado ao lado,
ao encontro consigo mesmo,
agora, impedido de ser adiado,
somam-se as vozes dos que somos
e o espaço estala em sons adentro
e afora das paredes do quarto.
E o mundo em seu giro paciente
se manifesta no rumoroso silêncio.
O carro que passa na rua deserta,
o latido de um cão perdido,
o grito ecoando na madrugada,
para além das persianas baixadas.
Depois, lhe bateram aos ouvidos
os ruídos da casa.
O esforço de Sísifo da geladeira,
o tardio crepitar da lareira,
os fantasmas que fazem
ranger a escada...
Também desses habituado,
de tantas vezes que espiou
entre a cama e o rés do assoalho.
Quando as vozes se calam,
as máquinas silenciam
e os cães se recolhem,
o universo tende a reconciliar-se
até que a quietude perseguida
é rompida pelo entorno,
que se arma em armadilhas.
É quando o terrível som,
sempre presente,
pode ser, finalmente, escutado.
O alarido das cigarras do mundo
espessa o ruído de fundo.
Há que se cuidar do som do silêncio,
ele pode bem nos levar mais longe
que a paz que se pretende,
onde loucos se perdem facilmente
no abismo de suas mentes.
Nestas noites insones,
o ruminar das sereias desnorteia
velhos e novos argonautas
que, à deriva,
singram por entre os males da alma.
Assim foi desde o início, em dias
de caça ou de guerrear inimigos,
depois de celebras os ritos da tribo
entorno do fogo à boca das cavernas,
amedrontados sob o fedor e o peso
das peles de feras.
Enfim percebeu, que esse zumbido,
esse pandemônio de insetos
é o recurso final que lhe resta
para confrontar os seus medos
e, só então, pode escutar
o que gemia em seu peito.
Não há momento em que se fique
mais nu do que este,
obrigando o espírito a sobrepor-se
ao chilrear das cigarras,
libertando vozes em algazarra,
que habitam porões do inconsciente
de cada ente da raça.
E o silêncio explodiu
no frenesi infernal de sátiros,
ninfas, grifos e faunos,
que nos acompanham, invocando
perícia e coragem ao timoneiro,
na esperança de o levar
à enseada segura e, assim, o salvar
da inevitável loucura.
Eliseo Martinez
07.06.2023