459.
O fim
Pelos abismos do fim do mundo
correm águas ácidas
de um rio profundo,
rasgando por toda a terra
caminhos de priscas eras.
No vasto oco subterrâneo
do que foi uma tranquila
e bela esfera anilada
deste quadrante da galáxia,
junto dos pilares da, então,
chamada Terra, ainda ferve
o magma metalizado sob a cor
púrpura de suas névoas.
Seres de toda espécie,
inocentes habitantes
do extinto céu, agora,
eternizado inferno,
nem ao menos se deram conta
do estrago, da superfície ao núcleo,
levado a cabo por um ser
de nome homem.
Se algum dia, viajantes estelares
tangenciarem a esfera morta,
dirão aos seus que aqui verdejaram,
exuberantes, as florestas
e floriram os mais raros
jardins do universo,
chamando nossa casa azulada,
já sem azul, sem bicho,
sem humano, sem nada,
de terra arrasada.
Os pequenos desses povos
serão instruídos de como
o bem maior de uma
razão jovem e insipiente
não foi capaz de vencer
a velha ambição de sua gente.
E, em algum tempo, quiçá distante,
inumanos povoarão os arredores
devastados deste desmundo,
inaugurando um mundo novo,
tendo a chance de serem
mais sábios do que fomos.
Eliseo Martinez
27.06.2023
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