Provocações: viajar
É espantoso como coisas
podem alterar os rumos
que se dá a própria vida.
Um fim de tarde, tinto de escarlate,
Um fim de tarde, tinto de escarlate,
pode rachar as cracas do espírito
e dar alternativas ao destino.
Basta dispor-se a afrouxar as amarras,
metendo olhos pelos buracos da alma
e, talvez, o já vivenciado
e alguma imaginação, é claro,
se encarreguem de dar curso ao inesperado.
E, provocando a nós mesmos,
jogam-se os dados à espera dos resultados...
Caso os caminhos se abram,
o primeiro passo foi dado
e, quem sabe, por esses outros nos vamos;
caso se desfaçam, por deitarmos raízes
fundo demais no lugar em que estamos,
abraçamos o mais do mesmo do cotidiano.
Ficar ou partir?
Ir ao mercado, andar pela orla do rio
ou cruzar o oceano?
Talvez, voltar a nos perder pela Espanha
ou, mesmo, redescobrir o Oriente
que, há muito, nos chama?
Por vezes, nos seduz reclinar na poltrona,
levados pelas trilhas de linhas e letras,
entregues ao ócio conquistado,
depois de uma vida de trabalho,
e o mundo gira lento no pensamento.
Outras vezes, nos vale mais ir a ele
e saímos à caça do acaso,
sem bilhete de volta ou prazo de chegada,
arrebatados pelo bulício do movimento.
Será que, sem darmos por isso,
é chagado o tempo de descuidar dos sentidos,
enrijecidos sob os mesmos estímulos?
Ou melhor seria que, mesmo a falta de viço,
os deixássemos livres, ávidos de paisagens,
cheiros, sons, sabores, olhares...?
Estar ou não estar, eis o cerne da indecisão,
por hora, objeto da fugaz provocação.
Talvez mais do que um indefinido "é preciso",
viajar seja um truque para nos manter vivos.
Eliseo Martinez
18.06.2023
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