Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 27 de maio de 2015

10.




Traz-se vasta longa ira
das falésias dessas ilhas,
vento e tempo varrem sempre
ocas furnas dessa gente.

O barquinho em confusão
costa brava, turbilhão
dá na praia improvável,
quebra vela, fácil, fácil.

Ao timão, capitão Medo
leva a nau para o rochedo
sem rumo, sem direção,
enfuna delirante salvação.


Eliseo Martinez               12.05.2015                                                                                                                                                              

quinta-feira, 21 de maio de 2015

9.

INVENÇÕES HUMANAS


Há 200 mil anos, brotam os primeiros de nós na Terra.  Desde então, obramos arduamente.  Uma a uma, subjugamos todas as demais espécies.  Mais do que por algum imperativo de sobrevivência ditado pela luta por espaço e alimento, nos empenhamos no extermínio sistemático de um sem-número de formas de vida, nos tornando estranhos ao que éramos parte.  
Armados de uma inteligência aplicada, sentimentos peculiares e do raro dom de sonhar, tornamo-nos os senhores absolutos do vasto planeta.  E, como parte de nossa obra, o tornamos cada vez menor. Nós, animais humanamente diferentes, somos raça de engenhosas invenções.  Com a argila da ilusão inventamos ideias, que por sua vez nos reinventam.
Descobrimos o medo e a morte, e inventamos  deuses.
Tropeçamos na fealdade, e imaginamos o  "belo".
Sentimo-nos inseguros, e forjamos a  “verdade”.
Ao nos depararmos com o mal e a dor, idealizamos a  “felicidade”.
Sofremos a opressão, e criamos a  “liberdade.
Vimos o quanto somos ameaça a nós mesmos, e cunhamos a  “justiça.
Por fim, perplexos ante o paradoxo de tamanho poder e nossa condição de crescente solidão, arquitetamos o  “amor. 

Ideias, nada mais que ideias, mas que com o devir assumiram vida própria.  Andam por si, soltas por ai, apenas prestando contas ao  tempo  e ao  espaço, que as significam e ressignificam incansavelmente.

Nesta jornada civilizatória, misteriosos caminhos nos afastam do real de um mundo natural e nos conduzem velozmente à virtualidade de um hiper-real onde, desavisados, sinceramente simulamos... 
O  medo, assobia ao lado, e segue como nosso mais fiel companheiro de viagem.


Eliseo Martinez 20/05/2015                                                                                                                                                      

segunda-feira, 4 de maio de 2015

8.


CLARA CONFUSÃO



O que é falso?  O que é verdadeiro?
O que é raso e vazio?  O que é fundo e cheio?

Ao som chiado da voz de Caruso e inebriado por um copo de algum veneno, lateja e, aos poucos, irrompe por toda a pele, pústulas do subterrâneos estrangeiro de mim mesmo.
O sentir, agora, é ave desajeitada ensaiando voo incerto.
E o que sente essa sensibilidade? Uma agonizante reminiscência de ser. Mais que ser, simplesmente. Ser, essencialmente,
indivisível e uno. Tanto muda e tanto permanece...
Revejo-me convulsiva e laconicamente, o adolescente que fui.  Música no ar. Algo a mais, talvez. Madrugada de êxtase, só. Sorriso esboçado, o rastro seco do que a pouco verteu do olho, uma débil felicidade. Saudade do que ainda não havia vivido. A presença de uma beleza a ser decifrada adensando a atmosfera. Corpo e mente conectados. Sentidos aguçados. Frases sem sujeito, onde tudo é verbo. Imóvel, numa velha poltrona do pequeno cômodo às escuras, tudo é movimento e cor.
Imagens deste estado insólito coam no véu do esquecimento. Vultos cintilam cores fugidias em meio a neblina dos anos.
Tal qual encruzilhada de luz, invade esse tempo um outro tempo, preto e branco, a dar vida a voz do morto. De volta ao primeiro plano, o maneirismo seguro, desliza a voz de Caruso.
Nos tempos que se presentificam e coabitam é a mesma voz que ouço vazar da velha vitrola de meu pai, homem de inquietude vital e inteligência insana. Energias legadas à prole.
Silêncio...
No tempo do agora, aciono o play e, novamente, a voz. O copo esvaziado torna a ser copo cheio. Renova-se o sopro de vida numa alma que namora a morte. Desconexo, um fragmento de memória vem à tona, “a menina dança”, diriam convivas lusitanos. 
Num tempo para lá deste tempo, alguém juntará essas linhas sem devir, que lerá ou não. Se coisa do reino dos deuses – justo sê-lo por minha única filha. Não como chave, mas grampo, que nas mãos de um hábil assaltante abrisse uma portinha, dos muitos portões que se fecharam entre nós. Quem sabe, livrando o sentido das coisas do claustro contaminado no qual foram jogadas.
No entanto, na encruzilhada de todos os tempos surge o derradeiro tempo: o momento em que estas palavras sem qualquer valor seriam definitivamente, num átimo, presente para depois, livres, existirem no esquecimento do passado, garatujas delirantes em páginas rasgadas.
Mas o que há, mesmo, de belo – para além da harmonia e determinação – na voz gramofônica de Caruso?  Talvez, a permanência sobre o tempo disparado.
A ideia de beleza – coisa do reino dos homens – impõe-se como valor estético necessário e exigido por cada tempo que compõe os tempos, ou seria dos tempos que compõem o tempo? Sua essência é da natureza do que, ao se contrapor a realidade, 
torna o real possível, suportável. A beleza brota de uma obscura zona de nós mesmos, de todos nós, como antídoto.  Surge da necessidade de luzes para compensar o breu de nosso egoísmo profundo, esse verdadeiro pecado original, substância primordial, na vontade de sermos mais, mais que outros, mais que nós mesmos, deuses que somos.
Giram redemoinhos entrópicos de sentimentos soprados dos
confins da condição humana. Suamos uma vontade de ordem, alguma ordem, no umbigo do caos. A esse dever ser reduz-se toda nossa ética, para não mais que apaziguar a alma.
Na movediça superfície desse estado, mais livres e menos seguros, perambula inchada a angústia, graal existencialista.  Mas, como a nós, cabe caminhar, soa estridente o alarme: 
flertar com a tristeza, essa qualidade da morte, é cutucar a infelicidade imanente que reina absoluta no submundo de cada um e, portanto, não é demais acautelar-nos nesta ânsia de chegar ao fundo dos fundos, uma vez que lá podemos encontrar apenas um espaço de queda sem fim.

Não se engane, observe os sinais. Nestes tempos de aceleração da velocidade, partido, como toda a gente, o sorriso que enceno nos lábios é traído pelos olhos que trago à cara, esses arautos da verdade, perplexos pelo que veem entre o mal-estar arquétipo da espécie e a condição de absoluta solidão que nos abraça.



Eliseo Martinez
10.07.2013

7.


ESTRANHOS




Estranhos somos nós, raça de pares tornados ímpares.

Com o galope dos cavalos loucos saímos pelo mundo.  De patas ágeis, nos tendões e músculos tanta força concentramos, que julgamos pisar com cascos de aço.  Avançamos cruzando areais, rochas e espinhosos bosques, sempre avançamos, obstinadamente, fingindo não sentir a dor do trote forte.

Olhos esbugalhados, determinação difusa. Suando ímpeto, temor e liberdade. Animais puro sangue, inquietos, feridos, rachados. A vontade indomada - suicida do agora, assassina do devir -, faz-nos seguir sob o horror da trégua em carreira alucinada, sem rumo, sem chegada.  Movimento disparatado, 
corpo encouraçado, alma desassossegada.  Só vigor e instinto cru a romper o que está posto.

Estreitas e íngremes são as trilhas que trilhamos. À busca do coração selvagem das coisas, apartados das manadas, somos apenas cavalos loucos em fuga tresmalhada.

Na ravina, o real é a flor do nojo. Devoramos pastos vários e, neles, vermes, com paciência de vermes, aguardam seu próprio banquete em disparada.

O céu estrelado que nos cobre, pouco a pouco, é encoberto por nevoeiro espesso nesta cavalgada.  Já sem estrelas a nos luzir, o véu negro da noite vela o espaço.  Sós, fugimos do tempo alheios a cansaço e com os mesmos olhos a saltar das órbitas vemos o horizonte ser esmagado, o ar garroteado.

Ao nos cruzarmos por essas escarpas afundam abismos, derretem caminhos.  Sob o signo do destino incerto, somos ligados pela distância, ora longe, ora perto, cindidos por intransponíveis precipícios-cicatrizes de culpas sem perdão, medo, ira insana, confusão.

A isso, os homens dão o nome de solidão; nós, de paixão ...




Eliseo Martinez
20/04/15
6.


RELIGIOSIDADE DE ATEU


Em alguns momentos, minto
dever tanto a tantos,
isso posso mudar.
Como, no entanto,
deixar de simular?

Noutros momentos, sinto
uma ânsia de agradecer,
sem ter a quem o fazer.
Quem sabe nesse querer,
resida a religiosidade do ateu?


Eliseo Martinez
2014
5.


MAL  E  NA  U.T.I.



Morreu. Finou-se desvitalizado, esquálido, anêmico, sem sangue nas veias e sem cuidados.
Contaram que chegou a Unidade já muito debilitado.
A pouca cor desaparecia dia-a-dia do rosto
que na pouca vida já foi rosado,
mas uma vontade não se sabe de onde vinda,
teimava em continuar de nascimento atestado.
Relatos clínicos falam que no fundo dos olhos
luzia um brilhinho que acabava
por encher de ar o pulmão mecânico,
o suficiente para chegar ao fim
de mais um dia de agonia,
dando aos que assistiam uma débil esperança.
Vinha sendo mantido por aparelhos
que lhe entravam pelas narinas,
lhe furavam as carnes a bombear oxigênio
ao tentar hidratar, reanimar, não deixar acabar.
Faltava energia e restava o boca-a-boca,
até que faliu de vez e partiu para outra.
Caso de falência múltipla, coitado.
Alguns, até falam que, de tanto desencanto,
resolveram desligar tudo a tudo findando.
Mas essa gente fala demais, faz o mal alheio,
da própria vida o seu recheio.
Não dá pra se fiar.
Já não se pode dizer que “foi uma pena”.
O caso recebeu diagnóstico de poucas luzes.
Poderia ser antevisto desde o virtual nascedouro.
Parece que o nome do morto era Amor,
um tal de Amor Pequeno.



Eliseo Martinez
03/05/15