Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 4 de maio de 2015

8.


CLARA CONFUSÃO



O que é falso?  O que é verdadeiro?
O que é raso e vazio?  O que é fundo e cheio?

Ao som chiado da voz de Caruso e inebriado por um copo de algum veneno, lateja e, aos poucos, irrompe por toda a pele, pústulas do subterrâneos estrangeiro de mim mesmo.
O sentir, agora, é ave desajeitada ensaiando voo incerto.
E o que sente essa sensibilidade? Uma agonizante reminiscência de ser. Mais que ser, simplesmente. Ser, essencialmente,
indivisível e uno. Tanto muda e tanto permanece...
Revejo-me convulsiva e laconicamente, o adolescente que fui.  Música no ar. Algo a mais, talvez. Madrugada de êxtase, só. Sorriso esboçado, o rastro seco do que a pouco verteu do olho, uma débil felicidade. Saudade do que ainda não havia vivido. A presença de uma beleza a ser decifrada adensando a atmosfera. Corpo e mente conectados. Sentidos aguçados. Frases sem sujeito, onde tudo é verbo. Imóvel, numa velha poltrona do pequeno cômodo às escuras, tudo é movimento e cor.
Imagens deste estado insólito coam no véu do esquecimento. Vultos cintilam cores fugidias em meio a neblina dos anos.
Tal qual encruzilhada de luz, invade esse tempo um outro tempo, preto e branco, a dar vida a voz do morto. De volta ao primeiro plano, o maneirismo seguro, desliza a voz de Caruso.
Nos tempos que se presentificam e coabitam é a mesma voz que ouço vazar da velha vitrola de meu pai, homem de inquietude vital e inteligência insana. Energias legadas à prole.
Silêncio...
No tempo do agora, aciono o play e, novamente, a voz. O copo esvaziado torna a ser copo cheio. Renova-se o sopro de vida numa alma que namora a morte. Desconexo, um fragmento de memória vem à tona, “a menina dança”, diriam convivas lusitanos. 
Num tempo para lá deste tempo, alguém juntará essas linhas sem devir, que lerá ou não. Se coisa do reino dos deuses – justo sê-lo por minha única filha. Não como chave, mas grampo, que nas mãos de um hábil assaltante abrisse uma portinha, dos muitos portões que se fecharam entre nós. Quem sabe, livrando o sentido das coisas do claustro contaminado no qual foram jogadas.
No entanto, na encruzilhada de todos os tempos surge o derradeiro tempo: o momento em que estas palavras sem qualquer valor seriam definitivamente, num átimo, presente para depois, livres, existirem no esquecimento do passado, garatujas delirantes em páginas rasgadas.
Mas o que há, mesmo, de belo – para além da harmonia e determinação – na voz gramofônica de Caruso?  Talvez, a permanência sobre o tempo disparado.
A ideia de beleza – coisa do reino dos homens – impõe-se como valor estético necessário e exigido por cada tempo que compõe os tempos, ou seria dos tempos que compõem o tempo? Sua essência é da natureza do que, ao se contrapor a realidade, 
torna o real possível, suportável. A beleza brota de uma obscura zona de nós mesmos, de todos nós, como antídoto.  Surge da necessidade de luzes para compensar o breu de nosso egoísmo profundo, esse verdadeiro pecado original, substância primordial, na vontade de sermos mais, mais que outros, mais que nós mesmos, deuses que somos.
Giram redemoinhos entrópicos de sentimentos soprados dos
confins da condição humana. Suamos uma vontade de ordem, alguma ordem, no umbigo do caos. A esse dever ser reduz-se toda nossa ética, para não mais que apaziguar a alma.
Na movediça superfície desse estado, mais livres e menos seguros, perambula inchada a angústia, graal existencialista.  Mas, como a nós, cabe caminhar, soa estridente o alarme: 
flertar com a tristeza, essa qualidade da morte, é cutucar a infelicidade imanente que reina absoluta no submundo de cada um e, portanto, não é demais acautelar-nos nesta ânsia de chegar ao fundo dos fundos, uma vez que lá podemos encontrar apenas um espaço de queda sem fim.

Não se engane, observe os sinais. Nestes tempos de aceleração da velocidade, partido, como toda a gente, o sorriso que enceno nos lábios é traído pelos olhos que trago à cara, esses arautos da verdade, perplexos pelo que veem entre o mal-estar arquétipo da espécie e a condição de absoluta solidão que nos abraça.



Eliseo Martinez
10.07.2013

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