Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 4 de maio de 2015

7.


ESTRANHOS




Estranhos somos nós, raça de pares tornados ímpares.

Com o galope dos cavalos loucos saímos pelo mundo.  De patas ágeis, nos tendões e músculos tanta força concentramos, que julgamos pisar com cascos de aço.  Avançamos cruzando areais, rochas e espinhosos bosques, sempre avançamos, obstinadamente, fingindo não sentir a dor do trote forte.

Olhos esbugalhados, determinação difusa. Suando ímpeto, temor e liberdade. Animais puro sangue, inquietos, feridos, rachados. A vontade indomada - suicida do agora, assassina do devir -, faz-nos seguir sob o horror da trégua em carreira alucinada, sem rumo, sem chegada.  Movimento disparatado, 
corpo encouraçado, alma desassossegada.  Só vigor e instinto cru a romper o que está posto.

Estreitas e íngremes são as trilhas que trilhamos. À busca do coração selvagem das coisas, apartados das manadas, somos apenas cavalos loucos em fuga tresmalhada.

Na ravina, o real é a flor do nojo. Devoramos pastos vários e, neles, vermes, com paciência de vermes, aguardam seu próprio banquete em disparada.

O céu estrelado que nos cobre, pouco a pouco, é encoberto por nevoeiro espesso nesta cavalgada.  Já sem estrelas a nos luzir, o véu negro da noite vela o espaço.  Sós, fugimos do tempo alheios a cansaço e com os mesmos olhos a saltar das órbitas vemos o horizonte ser esmagado, o ar garroteado.

Ao nos cruzarmos por essas escarpas afundam abismos, derretem caminhos.  Sob o signo do destino incerto, somos ligados pela distância, ora longe, ora perto, cindidos por intransponíveis precipícios-cicatrizes de culpas sem perdão, medo, ira insana, confusão.

A isso, os homens dão o nome de solidão; nós, de paixão ...




Eliseo Martinez
20/04/15

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