ESTRANHOS
Estranhos somos nós, raça de pares tornados ímpares.
Com o galope dos cavalos loucos saímos pelo mundo. De patas ágeis, nos tendões e músculos tanta força concentramos, que julgamos pisar com cascos de aço. Avançamos cruzando areais, rochas e espinhosos bosques, sempre avançamos, obstinadamente, fingindo não sentir a dor do trote forte.
Olhos esbugalhados, determinação difusa. Suando ímpeto, temor e liberdade. Animais puro sangue, inquietos, feridos, rachados. A vontade indomada - suicida do agora, assassina do devir -, faz-nos seguir sob o horror da trégua em carreira alucinada, sem rumo, sem chegada. Movimento disparatado,
corpo encouraçado, alma desassossegada. Só vigor e instinto cru a romper o que está posto.
Estreitas e íngremes são as trilhas que trilhamos. À busca do coração selvagem das coisas, apartados das manadas, somos apenas cavalos loucos em fuga tresmalhada.
Na ravina, o real é a flor do nojo. Devoramos pastos vários e, neles, vermes, com paciência de vermes, aguardam seu próprio banquete em disparada.
O céu estrelado que nos cobre, pouco a pouco, é encoberto por nevoeiro espesso nesta cavalgada. Já sem estrelas a nos luzir, o véu negro da noite vela o espaço. Sós, fugimos do tempo alheios a cansaço e com os mesmos olhos a saltar das órbitas vemos o horizonte ser esmagado, o ar garroteado.
Ao nos cruzarmos por essas escarpas afundam abismos, derretem caminhos. Sob o signo do destino incerto, somos ligados pela distância, ora longe, ora perto, cindidos por intransponíveis precipícios-cicatrizes de culpas sem perdão, medo, ira insana, confusão.
A isso, os homens dão o nome de solidão; nós, de paixão ...
Eliseo Martinez
20/04/15
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