Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."Antônio Machado
57.
Depois da Física, Antes da História
Mesmo aqui, nas bordas desta fronteira interna,
ecoam as muitas fomes dos homens que se dizem em guerra,
na mimese de braços levantados e punhos cerrados,
esquecidos de si, imitando os que, de fato, sangraram.
Tempos de circo e de seus ferozes micos,
à busca de algum sentido que os livre do tédio.
Sob as torres de um sítio que as leva no nome,
o mesmo ancestral rugir dos mares
testemunha o encontro das mãos aquecidas entre olhares.
Na pequenina ilha, espreitam impassíveis sentinelas.
Os lobos de lá, observam os de cá.
Em dias alheios a saturados sentidos e pouca arte,
outras são as buscas ao norte de um Sul que, sem lume, arde.
Entre o que fica e o que passa,
a brisa da história, em sua edição de ódio pálido,
sopra leve sobre o calor da terra fria da, hoje,
e não mais que hoje, metafísica Torres...
Eliseo Martinez
29.05.2016
56.
MORTE III
E, ali, me vi deitado à espera de nada.
Conhecidos chegavam medianamente elegantes
com seus semblantes graves.
Olhares se cruzavam entre paredes dispensadas de janelas,
mantendo a penumbra, avessa aos raios solares
que poderiam vazar por entre elas.
Alguns de olhos postos nos próprios sapatos,
como se, enfim, meditassem.
Um adequado pesar enlutava o ar,
incensado com leve toque de formol e um barato aerossol floral.
O improviso da cena colocava em dúvida
a falta de ensaio da trupe toda.
Figurantes e atores sabiam dos jeitos, das falas, das marcas,
das pausas e até da hora, que não chegaria por imprópria,
da salva de palmas.
Um punhado de gente se revezava entre
escassas lágrimas à minha frente.
A curva de uma existência tracejada fechava-se
sob o signo da ordem, num círculo de coerência.
Ao redor, vez por outra, um sorriso contrastava
na pequena sala desventilada.
De fato, tratava-se de um pé-de-cabra,
forçando o siso das caras.
Aos poucos se notava que, o tempo que não para
para todos os demais, mesmo ali, obrava.
A despeito do natural estado em que me encontrava,
de súbito, sobrenaturalmente dotado de vertiginosa onisciência,
escutava causos familiares, que lembravam vagamente
histórias por mim jamais vivenciadas.
Vi pessoas ali, que não via o porquê.
Outras, não vi, que gostaria de ter visto pela última vez.
Na verdade, a vaidade que nos acompanha
até as portas do que nos traz a eternidade,
ressentia-se com a escassa plateia reunida na morgue da cidade.
Aos poucos, o sussurro crescia nas vozes que se elevavam
e, logo, as primeiras risadas pipocavam.
A custo entendi que aquele solene e derradeiro momento
ia se despindo de seu trágico traje
para vestir sandálias e camisetas estampadas,
acomodando-se à banalidade de um dia que não era diferente
de qualquer outro em sua trivialidade.
Sucedia-se, ali, algo que estava mais para um estorvo,
um quase-compromisso a ser apressadamente cumprido.
Pessoas se perguntando se haveria demora.
Soavam celulares, que passavam a ser atendidos
sem o pudor das formalidades.
Um pirralho gorduchinho,
por certo trazido por algum curioso vizinho,
se divertia soltando gases.
A um canto, afastados, um homem e uma mulher
- ela, recentemente descasada; ele, fiel à mesma empreitada -
sibilavam encontros à data marcada.
Duas velhas, provavelmente equivocadas de capela,
esgrimiam fundamentos ao avaliar o plástico
da coroa de flores enviada por amiga extraviada,
o reles ataúde e a falta de branco das velas,
substituídas, à última hora, por velas amarelas.
Vez por outra, alguém mais chegado adentrava o ambiente
acompanhado do olhar de toda a gente,
que voltava ao protocolo da posição penitente.
Após breve momento, no qual se fazia coro ao drama,
ressurgia o que mais se aparentava à comédia mundana,
no caos de vozes, olhares, flatos, mãos e braços
ocupando os vãos do pouco espaço.
Eu, comigo, de boca aberta,
a mesma boca costurada pelo funcionário da funerária,
vista por todos como boca das mais fechadas,
me dei conta que o ponto de vista do morto em nada conta,
não passando de algo a mais a ser sepultado sob a fria campa.
Eliseo Martinez
25.05.2016
55.
Gotas do Mal II
O que é mais que o mais comum dos sensos
que se vê atraído pelo encanto dos fios
que suportam a teia?
Dentre todo o mosqueiro,
qual é a mais inconveniente das moscas,
senão a que zuni, perturbando o fascínio
desta inquestionável - e mortal - beleza?
Eliseo Martinez
22.05.2016
54.
MORTE II
"Preparar-se para morrer", é o que, às vezes, mesmo sem saber, me vejo a fazer.
Agora percebo que é o que move meus passos quando, despojando-me do que me é esperado, tomo a vida nos braços, dando-lhe um sentido particular que eu mesmo traço, alheio aos valores que os demais homens escolheram exaltar.
É o que se dá, quando saio a caminhar vestindo velhas roupas surradas, calçando as botas gastas, que gosto de usar. Despertando o guri curioso, enquanto, sem pressa, piso as ruas da cidade, agora, aberta, repleta de imagens, sons, linguagem.
Quando varrida a fuligem da mente, sinto naturalmente brotar pensamentos, como o mais livre e humano dos passatempos. Quando, mais que olhar, passo a enxergar nuances, matizes, detalhes, nas coisas simples que me invadem, desveladas pelas praças, nas casas, na orla do rio que nem rio é, já que dizem ser lago, no rosto das pessoas que passam...
Quando me deixo passar e ver de novo, se assim desejar, entendendo que tudo o mais que ai está, ou mesmo não está, diz-me respeito, bastando para isso existir de algum jeito.
Quando, com vagar, experimento um a um dos sentidos, no corpo contidos, fazendo deles portas que se abrem a campos semeados com grãos de prazer. Alimento da alma, colhido pelas rotas trilhadas à sorte, sem rumo, sem norte.
Quando aquecido pelo sol de inverno, abandono-me lagarteando num banco qualquer a comer bergamotas, só ou repartidas pelas mãos de uma mulher.
Nestes momentos, faço parar os ponteiros do tempo e sou capaz de sentir o espaço todo desnudo de engano, se inundando de paz.
É quando não sou mais que um vagabundo degustando o mesmo inteiramente outro mundo.
Um estoico diria que a mais difícil das difíceis tarefas é a de nos desvencilhar do peso imenso dos desejos com que vamos abarrotando a bagagem arrastada em nossa viagem.
Precisamos de tão pouco para sermos felizes.
Precisamos de menos, ainda, para virmos a ser quem somos e, só assim, tornar-nos nós mesmos, libertos da desimportância de quem, por hora, estamos.
No entanto, por certo, nada está pronto.
O tempo de uma vida toda pode não dar conta deste reencontro, fazendo com que sigamos até o fim, outro. Perdidos num jogo de luz e sombras, jogado mais que nunca nestes dias ferozes, sob uníssonas vozes, carentes de pertencer, no vão esforço para enganar a solidão, antes do chamado a desaparecer na mais absoluta escuridão.
Eliseo Martinez
19.05.2016
53.
Minha Cidade I
Vivo no lugar em que, alheio a meu desejo, nasci,
e onde, por livre escolha, devo deixar de existir.
Uma cidade que, sem ser triste, carrega suas tristezas,
com cada uma das letras da palavra certeza.
Não creio que algum dia tenha sido, simplesmente, alegre,
assim, traz no nome uma meia verdade.
É cidade de porto acanhado, todo cercado,
tendo exilado para além de seus muros os encantos de seu lago.
Na cidade em que piso, o passo de meu pisar é passo familiar.
Por todo o lado, alguma pequena lembrança a lembrar.
Quando distante, ela me acolhe nos cueiros da memória e,
sempre ao retornar, enche meu peito com o calor dos lugares
e ruas por onde, desde muito jovem, aprendi a amar andar.
Aqui, sou seduzido e sucumbo devoto às tentações da carne,
apenas num degrau abaixo do que argentinos e uruguaios
muito bem sabem, por mais que doe a um gaúcho confessá-lo.
Mas, admito, no meu quadrado, o homem da churrascaria,
lugar de intensas orgias, é aleijado de poesia.
No boteco próximo a nossa modesta versão de um parque
chamado Bom Retiro, pelos castelhanos, observo um casal que a mesma mesa compartilha, sem palavras que a guarneçam.
Celulares nas mãos; no face, sorrisos, rostos felizes
certificando ou, quem sabe, falsificando, a ocasião.
No espaço do bar, palavras viajam e se entrecruzam pelo ar.
Ao lado, mulheres falam de seus medos.
Sentimentos que assinam estes tempos tão plásticos,
onde rompida a pele surgem as mazelas da carne exposta.
Ao sol, que aquece o dia frio, o surdo alarido da multidão
toma conta dos ralos campos da Redenção.
Neste arco-íris de viventes, roupas e cabeças coloridas chamam a atenção da gente.
Azuis, verdes, amarelos, rubros pelos, que lembram berlinenses, despidos, no entanto, do humor irônico tão bem gravado nas curvas gravatas com bananas estampadas, por eles usadas.
Minha cidade pertence a seu tempo.
Tempos ferozes, que já nem se lembram das vítimas
da incontida violência de seus algozes, contando dentre elas,
o romantismo e a inocência.
Entre a superfície dos olhares complacentes e o lodoso leito da solidão das gentes, passam correntes feitas das gotas de pequenos ódios, que partem do medo que envenenam sua nascentes.
É nesta cidade que, mais tarde sob o peso da idade,
quero me esquecer, para só então fazer-me indiferente.
Eliseo Martinez
15.05.2016
52.
DEMOCRACIA
E assim chegou a democracia à vida das manadas, como sem ela não tivéssemos nada. Como sem ela só nos restasse a opressão de suásticas e cruzes gamadas. Chegou como chegam soluções que pretendem continuar a ser para além do tempo em que estão, mesmo depois de falidas, quase mortas, encobrindo caminhos que nos conduzissem por uma outra via, mais humana, menos fria e torta. Panaceia das modernas sociedades de massas, oculta sob a mais angelical de suas máscaras, esquecida das próprias bandeiras da igualdade, liberdade e, da mortalmente ferida, fraternidade. Alquimista de consensos de duvidosos sensos, emerge redentora como garantia dos legítimos interesses do homem médio, como se este, se autodeterminasse, livre, e sem a manipulação dos donos do poder ficasse. Longe de ser fruto do acaso, seu pouco caso com a educação da população, faz parte do trato e, a ela, tratada feito multidão de asnos. Em suas águas nadam ágeis as rêmoras da bajulação, sonhando em associar-se a pequenos e grandes tubarões, proliferam os conchavos obscuros em um arco-íris de tons cinza de oportunistas espalhados por cada grêmio ou condomínio, executa-se o concerto silencioso dos poderosos, alarga-se o abismo entre os que muito tem e os que com quase nada se mantém, instaurando a mais sutil das dissimuladas faces do poder já inventadas. Se a verdade é a primeira vítima das guerras, é na democracia que ela é estuprada todos os dias. Ainda muito jovem, no apogeu de Atenas, o voto democrático ceifou a vida de um seminal Sócrates. Nela, justiça e verdade reluzem sob os efeitos especiais da maquiagem, embaladas ao gosto do cliente, sempre nutrido com novos estímulos para dar sentido imediato a vidas suspensas em consumo, num eterno hiato. O mais cênico dentre todos os regimes autoritários, travestido de justo em seu exercício diário, segue a esmagar minorias sob a ditadura das maiorias movidas por fios articulados pelos dedos de muito poucos, astutos vendedores de podres valores e sonhos loucos. Os mesmos dedos sujos que estão por trás da mídia, dos governos, dos parlamentos, das grandes propriedades, no comando de instituições públicas e privadas, larva que fez ninho dentro da minha e da tua cabeça de consumidores insaciáveis...
Hoje, parei para ouvir o que tinha um índio a dizer. Dizia ele, que a democracia era um conceito estranho a sua nação guarani, guiada pela força do bom senso da comunidade, ancorado nas noções de bem comum e igualdade. Que sua lei primeira era entender-se como parte da natureza, antes de mais nada, a ser preservada e que, a partir daí, brotavam ramos de preceitos que definiam a coexistência pacífica dos homens de sua aldeia. Nem todos somos índios. É fato. Mas será, mesmo, que a sabedoria milenar desses povos, por insistirem em pisar o chão, nada tem a nos legar, então? Logo a nós, tão ricos em mazelas, tão sós, perdidos pelas cidades, a andar com olhos assustados por suas violentas vielas?
Eliseo Martinez
04.05.2016