Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 19 de maio de 2016

54.

MORTE  II


"Preparar-se para morrer", é o que, às vezes, mesmo sem saber, me vejo a fazer.
Agora percebo que é o que move meus passos quando, despojando-me do que me é esperado, tomo a vida nos braços, dando-lhe um sentido particular que eu mesmo traço, alheio aos valores que os demais homens escolheram exaltar.
É o que se dá, quando saio a caminhar vestindo velhas roupas surradas, calçando as botas gastas, que gosto de usar. Despertando o guri curioso, enquanto, sem pressa, piso as ruas da cidade, agora, aberta, repleta de imagens, sons, linguagem.
Quando varrida a fuligem da mente, sinto naturalmente brotar pensamentos, como o mais livre e humano dos passatempos. Quando, mais que olhar, passo a enxergar nuances, matizes, detalhes, nas coisas simples que me invadem, desveladas pelas praças, nas casas, na orla do rio que nem rio é, já que dizem ser lago, no rosto das pessoas que passam... 
Quando me deixo passar e ver de novo, se assim desejar, entendendo que tudo o mais que ai está, ou mesmo não está, diz-me respeito, bastando para isso existir de algum jeito.
Quando, com vagar, experimento um a um dos sentidos, no corpo contidos, fazendo deles portas que se abrem a campos semeados com grãos de prazer. Alimento da alma, colhido pelas rotas trilhadas à sorte, sem rumo, sem norte. 
Quando aquecido pelo sol de inverno, abandono-me lagarteando num banco qualquer a comer bergamotas, só ou repartidas pelas mãos de uma mulher.
Nestes momentos, faço parar os ponteiros do tempo e sou capaz de sentir o espaço todo desnudo de engano, se inundando de paz.
É quando não sou mais que um vagabundo degustando o mesmo inteiramente outro mundo.
Um estoico diria que a mais difícil das difíceis tarefas é a de nos desvencilhar do peso imenso dos desejos com que vamos abarrotando a bagagem arrastada em nossa viagem.
Precisamos de tão pouco para sermos felizes.
Precisamos de menos, ainda, para virmos a ser quem somos e, só assim, tornar-nos nós mesmos, libertos da desimportância de quem, por hora, estamos.
No entanto, por certo, nada está pronto.
O tempo de uma vida toda pode não dar conta deste reencontro, fazendo com que sigamos até o fim, outro. Perdidos num jogo de luz e sombras, jogado mais que nunca nestes dias ferozes, sob uníssonas vozes, carentes de pertencer, no vão esforço para enganar a solidão, antes do chamado a desaparecer na mais absoluta escuridão.

Eliseo Martinez
19.05.2016

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