Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 25 de maio de 2016

56.

MORTE  III

E, ali, me vi deitado à espera de nada.
Conhecidos chegavam medianamente elegantes
com seus semblantes graves. 
Olhares se cruzavam entre paredes dispensadas de janelas,
mantendo a penumbra, avessa aos raios solares
que poderiam vazar por entre elas.
Alguns de olhos postos nos próprios sapatos,
como se, enfim, meditassem.
Um adequado pesar enlutava o ar,
incensado com leve toque de formol e um barato aerossol floral.
O improviso da cena colocava em dúvida
a falta de ensaio da trupe toda.
Figurantes e atores sabiam dos jeitos, das falas, das marcas,
das pausas e até da hora, que não chegaria por imprópria,
da salva de palmas.
Um punhado de gente se revezava entre
escassas lágrimas à minha frente.
A curva de uma existência tracejada fechava-se
sob o signo da ordem, num círculo de coerência.
Ao redor, vez por outra, um sorriso contrastava
na pequena sala desventilada.
De fato, tratava-se de um pé-de-cabra,
forçando o siso das caras.
Aos poucos se notava que, o tempo que não para
para todos os demais, mesmo ali, obrava.
A despeito do natural estado em que me encontrava,
de súbito, sobrenaturalmente dotado de vertiginosa onisciência,
escutava  causos familiares, que lembravam vagamente
histórias por mim jamais vivenciadas.
Vi pessoas ali, que não via o porquê.
Outras, não vi, que gostaria de ter visto pela última vez.
Na verdade, a vaidade que nos acompanha
até as portas do que nos traz a eternidade,
ressentia-se com a escassa plateia reunida na morgue da cidade.
Aos poucos, o sussurro crescia nas vozes que se elevavam
e, logo, as primeiras risadas pipocavam.
A custo entendi que aquele solene e derradeiro momento
ia se despindo de seu trágico traje
para vestir sandálias e camisetas estampadas,
acomodando-se à banalidade de um dia que não era diferente
de qualquer outro em sua trivialidade.
Sucedia-se, ali, algo que estava mais para um estorvo,
um quase-compromisso a ser apressadamente cumprido.
Pessoas se perguntando se haveria demora.
Soavam celulares, que passavam a ser atendidos
sem o pudor das formalidades.
Um pirralho gorduchinho,
por certo trazido por algum curioso vizinho,
se divertia soltando gases.
A um canto, afastados, um homem e uma mulher
- ela, recentemente descasada; ele, fiel à mesma empreitada -
sibilavam encontros à data marcada.
Duas velhas, provavelmente equivocadas de capela,
esgrimiam fundamentos ao avaliar o plástico
da coroa de flores enviada por amiga extraviada,
o reles ataúde e a falta de branco das velas,
substituídas, à última hora, por velas amarelas.
Vez por outra, alguém mais chegado adentrava o ambiente
acompanhado do olhar de toda a gente,
que voltava ao protocolo da posição penitente.
Após breve momento, no qual se fazia coro ao drama,
ressurgia o que mais se aparentava à comédia mundana,
no caos de vozes, olhares, flatos, mãos e braços
ocupando os vãos do pouco espaço.
Eu, comigo, de boca aberta,
a mesma boca costurada pelo funcionário da funerária,
vista por todos como boca das mais fechadas,
me dei conta que o ponto de vista do morto em nada conta,
não passando de algo a mais a ser sepultado sob a fria campa.


Eliseo Martinez
25.05.2016

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