Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 15 de maio de 2016

53.

Minha Cidade  I


Vivo no lugar em que, alheio a meu desejo, nasci,
e onde, por livre escolha, devo deixar de existir.
Uma cidade que, sem ser triste, carrega suas tristezas,
com cada uma das letras da palavra certeza.
Não creio que algum dia tenha sido, simplesmente, alegre,
assim, traz no nome uma meia verdade.
É cidade de porto acanhado, todo cercado,
tendo exilado para além de seus muros os encantos de seu lago.
Na cidade em que piso, o passo de meu pisar é passo familiar.
Por todo o lado, alguma pequena lembrança a lembrar.
Quando distante, ela me acolhe nos cueiros da memória e,
sempre ao retornar, enche meu peito com o calor dos lugares
e ruas por onde, desde muito jovem, aprendi a amar andar.
Aqui, sou seduzido e sucumbo devoto às tentações da carne,
apenas num degrau abaixo do que argentinos e uruguaios
muito bem sabem, por mais que doe a um gaúcho confessá-lo.
Mas, admito, no meu quadrado, o homem da churrascaria,
lugar de intensas orgias, é aleijado de poesia.
No boteco próximo a nossa modesta versão de um parque
chamado Bom Retiro, pelos castelhanos, observo um casal que a mesma mesa compartilha, sem palavras que a guarneçam.
Celulares nas mãos; no face, sorrisos, rostos felizes 
certificando ou, quem sabe, falsificando, a ocasião.
No espaço do bar, palavras viajam e se entrecruzam pelo ar. 
Ao lado, mulheres falam de seus medos.
Sentimentos que assinam estes tempos tão plásticos,
onde rompida a pele surgem as mazelas da carne exposta.
Ao sol, que aquece o dia frio, o surdo alarido da multidão
toma conta dos ralos campos da Redenção.
Neste arco-íris de viventes, roupas e cabeças coloridas chamam a atenção da gente.
Azuis, verdes, amarelos, rubros pelos, que lembram berlinenses, despidos, no entanto, do humor irônico tão bem gravado nas curvas gravatas com bananas estampadas, por eles usadas.
Minha cidade pertence a seu tempo.
Tempos ferozes, que já nem se lembram das vítimas
da incontida violência de seus algozes, contando dentre elas,
o romantismo e a inocência.
Entre a superfície dos olhares complacentes e o lodoso leito da solidão das gentes, passam correntes feitas das gotas de pequenos ódios, que partem do medo que envenenam sua nascentes.
É nesta cidade que, mais tarde sob o peso da idade,
quero me esquecer, para só então fazer-me indiferente.

Eliseo Martinez
15.05.2016


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