Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 26 de julho de 2016

76.

O Erro de Aristóteles

Para o mais ilustre filho de Estagira,
a virtude está no equilíbrio do justo ponto
médio, entre extremos que o cercam.
Além de ser com razão e ócio
que se cria o mundo nosso.
Não há ente humano, sábio ou tolo,
que não deva algo a esse gigante macedônio.
No entanto, tendo a discordar 
do mestre de Alexandre Grande
quando a tela do computador
- que, a folha de papel aposentou,
como a placa de argila, o papiro e o pergaminho
foram abandonados pelo caminho -,
insiste em permanecer vazia
na quietude de um dia ameno de domingo,
como se o vazio que enche o que me vai por dentro
vazasse e se espalhasse pelo espaço
em que, pela força do hábito,
tento achar-me, mesmo com a alma,
por hora, calma.
Meus rastros se apagam
quando as inquietudes se calam
e conexões se desfazem.
Pontes desmoronam e me vejo
entre denso nevoeiro, sem luneta,
a observar da margem esquerda à direita.
O que se cria, mais do que obra do amor,
é cria ardida da dor.
Visto de um outro canto, 
poder-se-ia dizer que, tal qual narciso,
a obra provém do lodo,
para concluir-se que a criação
surge como maldição nos homens.

Eliseo Martinez
26.07.2016


domingo, 24 de julho de 2016

75.

Condenados à Liberdade


A liberdade bem que poderia ser um salto de bungee jumping sem a corda elástica, mas se fosse, seria suicídio e não um salto de bungee jamping. A liberdade está mais para uma imensa estação central onde se emaranharam os trilhos, dentre os quais devemos escolher os que nos levarão a nosso destino.
Eventualmente, nós mesmos podemos assentar dormentes, cravar cravos, deitar o aço. Nestes raros episódios a linha da virtú emparelha com a da fortú e a liberdade faz-se paralela à felicidade, dando novos sentidos a vida e a verdade.
Ser ser humano, por definição, é pertencer ao reino animal, do qual se nasce súdito banal. No entanto, somos distintos de todos os demais, dotados do que a ciência poética dos antigos chamavam de ânima (alma) e, hoje, é melhor entendido como o complexo conjunto de atributos da subjetividade humana.
A condição humana é produto da cultura e, antes ainda, emerge da exclusiva função do pensamento. Em apenas duas centenas de milhares de anos, a atividade racional nos guindou à posição de espécie dominante no planeta, para o bem e para o mal, mesmo que uma das mais recentes nele surgidas. 
A fonte de nosso poder relativo frente aos demais seres é, também, a gênese da fraqueza que é só nossa. Se, por um lado, o homem surge como parte da natureza, por outro, se opõe a ela pela mente. A pequena horta de nossa consciência se alimenta do vasto e fértil terreno inconsciente, a agitar-se entrópico nos subterrâneos de cada um, mas também da espécie como um todo. Ali residem as raízes mais profundas das motivações e dos medos, não facilmente acessáveis pelo entendimento. 
Dito de outra forma: o inconsciente é um espaço interior sem fim, incomensuravelmente mais amplo de sombras que de luzes, que nos permanecerá inacessível em sua maior parte, apesar da permanente influência que exerce no que circula na superfície da consciência. Neste campo, se os demais animais superiores desenvolveram a primazia do instinto, recessivo em nós, a evolução dotou-nos de intuição, também uma forma pré-racional de percepção.
Paradoxalmente, a atividade da mente, que nos tornou hegemônicos, determina a estranheza de nós mesmos produzida pelo inconsciente, destituído dos contornos mais nítidos delineados pela consciência.
O valor da liberdade, tão caro a nós, humanos, para ser realizado depende, em muito, do quanto podemos restringir este estranhamento no que se refere ao conjunto de valores e sentidos colocados à disposição pela cultura, num dado tempo e espaço, e os eleitos por nós mesmos como os mais importantes, com relativa autonomia. A apropriação consciente dos juízos que definem o bom, o belo e o justo de cada um, vai definir nossas escolhas enquanto seres singulares e menos dependentes das determinações definidas pelo coletivo dos demais homens. Determinações, estas, mais fortes na sociedade de massas em que vivemos, pautada pelo consumo dirigido de bens, serviços e ideias aleatórios tornados desejáveis, quando não imprescindíveis, vindos da exterioridade de interesses que regulam os mercados e se alojam na interioridade de regiões pré-conscientes da mente do indivíduo.
É pela consciência que nos deparamos com o mundo das contradições antagônicas, dos paradoxos e dos impasses diários.
A totalidade do real se fragmenta em parcialidades virtuais cada vez menores, num movimento incessante rumo ao indivíduo atomizado e, igualmente, fragmentado. Dai resulta que a busca da liberdade, também nos conduz à angústia. Se a natureza é destituída de razões, a vontade e alguma necessidade de lógica, ao contrário, vêm impressas na pequena, mas importante distinção do que se poderia entender por natureza humana. As engrenagens tipicamente humanas que tendem a elevar a autodeterminação de nossa existência, também geram a dor da angústia nos homens, uma vez que, a seu turno, nos conduzem a escolhas.
Ou seja, a consciência gera liberdade na medida em que, primeiramente produz e, depois, impõe a escolha que nos causa a angústia. Sartre foi um dos primeiros a concluir que os homens estão condenados a liberdade e, desta condenação, depende o que hoje entendemos por humanidade.

Eliseo Martinez
24.07.2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

74.

Prole  II


Tu saiu pelo mundo
atrás de algo que te cala fundo.
Tu e eu sabemos o que é,
isto é, sabemos em parte.
Talvez nem seja a maior metade,
mas a que inquieta e não se reparte.
A que fingimos ser feita do que é feita a arte
e ambos levamos na alma,
que por vezes se enche e arde.
O resto todo, que não sei,
e também não sabes tu, me assusta.
O olhar atento no fundo do espelho
é sempre um convite indecente ao desespero.
Tuas pegadas pisam as minhas
te levando para o outro lado
das largas fronteiras d'água
e, agora, são teus passos que ecoam
nas velhas ruas tortas de Lisboa,
onde também tenho pisado desgarrado.
Alfama, Bairro Alto, Madragoa...
Tu e eu sabemos que se leva mais que roupas
surradas e livros usados na bagagem.
Entre os vazios de viagem,
levam-se mapas em branco
à busca do próprio encontro,
sem lugar ou data marcada
para os que, mesmo juntos,
andam ímpares por cidades
que nos acolhem com cheiros e sabores,
sem nos verem de verdade.

Eliseo Martinez
21.07.2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

73.

Prole  I

Disse um caminhante a sua prole viajante:
vai, mas não vá te perder de mim, filha,
agora que finalmente te reencontrei.
Se te demorar, te aguardarei.
Se não retornar, já sei o que faço.
Passo a mão nos trapos,
levando a mala cheia de abraços.
E, se mesmo assim insistir em ficares,
te pego e te trago pelo braço.
Nem só de flores vivem verdadeiros amores.

Eliseo Martinez
20.07.2016

quinta-feira, 14 de julho de 2016

72.

Gotas de Mal  III

Cuspam! Cuspam em mim!
Cuspam como têm cuspido, assim.
As engrenagens que me movem
necessitam da umidade que os consomem
para alcançar seus tristes fins.

Por caminhos vicinais caminho mais
que pelas avenidas da vida,
o que por vezes, não me livra
do asco de dividir o espaço
ao esbarrar com um nauseante rebanho
ávido por pasto fácil.

Desisti de apurar os ouvidos
à procura da harmonia das esferas
no seio destas pobres bestas-feras,
a consolar-me com quase nada,
transigindo por migalhas.

Seguindo o instinto, ando a fazer solos
mais harmônicos, desobrigado de esboçar afetos
entre projetos mal concebidos de homens,
sequiosos de abrigo do mais débil poder constituído,
indiferentes ao justo ato de pesar 
na balança seus reais compromissos.

Eliseo Martinez
14.07.2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

71.

Tempo  I

Mesmo o irrevogável de um qualquer dia,
a agonizar no fim de uma tarde fria,
pode girar na alegre ciranda de uma noite
em que se aninham aquecidos os amantes
no perene gozo de um mágico instante.
Pares e ímpares medem o mesmo tempo
com ampulheta e astrolábio diferentes.





Tempo  II

O tempo é coisa das mais estranhas.
Veja lá. O dia de ontem trás em si toda
a variada alvenaria dos demais dias já edificados,
pois de cada um sabe-se bem com que tijolos
as realidades foram levantadas.
O dia de amanhã é igual a todos que projetamos,
pois dele espera-se a idêntica porção do muito
que necessitamos e do pouco que sonhamos,
invertendo razões que valeriam a pena o que somos.
O agora é um retrato que esmaece sem demora
e nos escapa como uma enguia fria
pelos dedos finos do presente dia,
levando as horas em sua companhia.
O presente já foi futuro do passado; o agora,
exatamente o mesmo e completamente diferente
na menor fração do acaso,
acaba de mudar de estado.

Eliseo Martinez
12.07.16

segunda-feira, 11 de julho de 2016

70.




Não é coisa fácil distinguir a natureza
da suculenta uva e da adocicada passa,
pois, se em essência são o mesmo, 
tão diferentes são na aparência.
No entanto, do sumo de uma faço o vinho,
com o insumo da outra, cozinho.
E, assim, também se passa com os homens
que, por seu turno, não são uvas, nem passas.
Na raiz, todos somos seres humanos.
Na vida, tão diversos nos tornamos.
Uns azedam e estragam,
outros adoçam e partem ...

Eliseo Martinez
11.07.2016

quinta-feira, 7 de julho de 2016

69.

Minha Cidade  II


Já vi, já toquei e, até cruzar, cruzei, quando imaginei,
mas só à força de vento e remos
de lusos versos sonhei o mar e o naveguei.
Moro num lugar sem a imensidão das águas salgadas,
onde se vive de costas para o pequeno rio
que corre ao largo de nossas casas.
Em nostálgica teimosia, o Guaíba recusou-se a ser lago
e, por tamanha rebeldia, o deixaram abandonado,
mantendo seu porto atrás de um melancólico cercado.
Suas águas proibidas, que matam nossa sede,
morrem na falta do roubado oxigênio.
Em suas margens, floresce o veneno de nosso exagero.
A vida, ali gerada, é cruelmente infectada
e agoniza lentamente, no descaso de nossa gente.
Parece que o único aliado com que conta
o tenaz enjeitado é o astro que,
aos fins de tarde, comanda o espetáculo,
dando cores ao descuido da cidade.

Eliseo Martinez
07.07.2016

quarta-feira, 6 de julho de 2016

68.

Velho


De súbito, me dou conta da pinguela estreita
que atravesso desta feita.
Mas, é só aos poucos que percebo
a inesperada leveza que se faz desejo
ao avançar na travessia em que me vejo.
Livre e lúcido, renuncio dia a dia as amarras
do que já veio acertado sem me terem consultado.
Naturalmente, e sem dores, 
me encontro a desistir dos homens,
devolvendo-me o sono ao virar as costas
para os rasos sonhos que os consomem.
O que faço sem ódios ou rancores,
tampouco à morrer de amores,
que já me mataram tantas vezes nas noites insones.
Quanto às paixões? Estão sempre a meu lado.
Hoje, vestem pantufas e pijamas,
e assistem comigo seus programas,
estiradas pelo espaço do quarto onde só eu me acho.
Os nós que se desfazem me aproximam das essências
que me fazem, e a paz arredia
vai se habituando a fazer-me companhia.
A inquietude, que não cessa,
é por outras vias que se manifesta,
assumindo o sabor dos pratos
onde os temperos foram harmonizados.
Já não me eriça a pele a incondicional busca da verdade,
agora, me excita explorar as bordas últimas da realidade,
pisar o chão de brumas da poesia,
imaginar à sombra da literatura,
me ausentar ao som breve dos acordes,
confirmar o mundo que andei
nas páginas que jamais escreverei 
e, é claro, aquecer-me no calor de amores leves
que me envolvem, mas não ferem.
Nesta longa jornada para nos tornarmos nós mesmos
basta sermos seduzidos pela vertigem 
e abandonar a bagagem que já não nos serve na viagem.
Sem negar nada do que foi vivido,
grato a tudo que me foi dividido, digo:
se isto for o remanso da idade que se aproxima,
me pergunto por quê a velhice se adia,
e não ser velho antes que se canse
do encanto destes dias?

Eliseo Martinez
06.07.2016

domingo, 3 de julho de 2016

67.

Rubi


Meu país é pequenino,
mas é feito de todo o céu e terra
de que precisa este resto de menino.
Nele ondulam ondas de panos,
que revelam torsos, pernas, braços,
náufragos contornos.
Olho olhos que me olham inebriados,
orbitam revirados para, de novo,
voltar a fitar os meus, semicerrados.
Do caos de corpos que se movem,
a cordilheira dos sentidos que os envolvem.
Paisagens se desvelam por entre névoas,
na alternância do galope forte e o manso trote.
Uma nitidez alaranjada de sóis de fins de tarde
revela sons, cores, cheiros, relevos
lentamente encobertos pelo vivo vermelho
do cálido lago dos desejos.
Na maré vazante que avança,
a mais ancestral das profanas danças,
sinto inundar os sulcos de meu cérebro,
tingindo uma a uma de suas células.
Tudo é tragado pelo fluxo da convulsiva arte.
Vertigem... Chovem rubis por toda a parte.
O que era ventania, faz-se brisa,
e a paz toma conta de meu pequeno intenso mundo
antes do reinício dos ritos do rubro culto...

Eliseo Martinez
03.07.2015