Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 6 de julho de 2016

68.

Velho


De súbito, me dou conta da pinguela estreita
que atravesso desta feita.
Mas, é só aos poucos que percebo
a inesperada leveza que se faz desejo
ao avançar na travessia em que me vejo.
Livre e lúcido, renuncio dia a dia as amarras
do que já veio acertado sem me terem consultado.
Naturalmente, e sem dores, 
me encontro a desistir dos homens,
devolvendo-me o sono ao virar as costas
para os rasos sonhos que os consomem.
O que faço sem ódios ou rancores,
tampouco à morrer de amores,
que já me mataram tantas vezes nas noites insones.
Quanto às paixões? Estão sempre a meu lado.
Hoje, vestem pantufas e pijamas,
e assistem comigo seus programas,
estiradas pelo espaço do quarto onde só eu me acho.
Os nós que se desfazem me aproximam das essências
que me fazem, e a paz arredia
vai se habituando a fazer-me companhia.
A inquietude, que não cessa,
é por outras vias que se manifesta,
assumindo o sabor dos pratos
onde os temperos foram harmonizados.
Já não me eriça a pele a incondicional busca da verdade,
agora, me excita explorar as bordas últimas da realidade,
pisar o chão de brumas da poesia,
imaginar à sombra da literatura,
me ausentar ao som breve dos acordes,
confirmar o mundo que andei
nas páginas que jamais escreverei 
e, é claro, aquecer-me no calor de amores leves
que me envolvem, mas não ferem.
Nesta longa jornada para nos tornarmos nós mesmos
basta sermos seduzidos pela vertigem 
e abandonar a bagagem que já não nos serve na viagem.
Sem negar nada do que foi vivido,
grato a tudo que me foi dividido, digo:
se isto for o remanso da idade que se aproxima,
me pergunto por quê a velhice se adia,
e não ser velho antes que se canse
do encanto destes dias?

Eliseo Martinez
06.07.2016

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