Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

151.

Fim do Amor


Quando, enfim,
consumada a líquida primazia do presente,
sepulta-se o que já foi chamado "projeto"
e fabulosos obstáculos se levantam
entre os homens e seus afetos.
Pelo encolhimento do tempo,
reduzido a cada vez mais ínfimos
e velozes momentos,
carente de cuidados, paciência
e calado menos raso,
que o possa compor,
calhou-nos, por azar,
testemunhar o fim do amor.

Eliseo Martinez
31.08.2017

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

150.

Magia do Tempo


A magia do tempo faz com que cada um
o perceba a seu jeito e, mesmo para esse,
se revele outro a cada momento.
A cosmologia dos físicos indaga
quando ele teria iniciado
e, antes do que move o cronômetro,
inaugurado o passado.
A cosmogonia dos mitos,
a milhares de anos, com pouco esforço,
obteve a resposta: Kronos,
o primeiro dos kronidas,
filho de Gaya e Urano,
que com o olhar curvo fundou a política,
foi seu patrono.

Há palavras pronunciadas,
que são como o cabo
que acomoda a mão à faca.
Mas o que importa é o gume afiado
da lâmina que corta.
Assim... penso sobre o tempo
e no acaso improvável da existência
em que me vejo suspenso.
Se o destino é o que define
tudo o que não conduzimos,
por qual jogo seriamos mais bem seduzidos
do que o dos dias que ainda nos cabem,
sem tédio, serem vividos?
Ser cronista do mal não me demite
do otimismo que partilho,
sempre perplexo ante ao fortuito bem de existir,
poder pensar e falar e sentir,
além de, às vezes, é claro, mentir.
Gozar do privilégio de ser num tempo e num espaço;
dar de cara com o vento ou cansar o cansaço.
Contudo, não compartilho da graça
de conceber qualquer próxima estada,
convicto do termo de nosso próprio tempo,
mesmo que, em outra escala,
a humanidade nos leve a todos
no rastro dos passos de sua breve jornada.

Eliseo Martinez
30.08.2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

149.

Parque de Diversões

Fico aqui sentado,
olhando o jeito estranho
com que o mundo se move parado.
Os fios de vida enfiados de contas,
contas que contam o tempo,
medem o tanto de lumes, sorrisos;
o quanto de sombras, mochichos.
Chegam, passam, partem
para, já não sendo,
quem sabe restar, a prazo pouco,
nos que ficarem.
Anda a fila dos que se vão,
abrindo espaço para os que estão.
Sem entrar na conta os que ainda virão.
Tantas histórias, sonhos contidos,
tristezas por algum mal cometido,
alegrias, ilusórios conflitos...
Os tímidos pelos cantos, aos cochichos.
Vozes, gritos, alarido.
E, do que é feito este ruído
que me entra pelos ouvidos?
Palavras que falam de amor,
palavras que falam de morte
e, entre elas, perdão e ódio,
além da velha incrédula fé na sorte.
Coisas que falam de coisa alguma,
sem faltar o silêncio que se ouve,
o mais ensurdecedor dos barulhos.
Lembram o giro da roda do parque,
acompanhado pelos olhos atentos do palhaço
que, sob camadas de maquiagem,
oculta o que sabe
da verdadeira face
dos que encenam o ato;
do que de fato trata o espetáculo.  

Eliseo Martinez
25.08.2017

sábado, 19 de agosto de 2017

148.

Tempos Reversos


Nuvens de incerteza pairam espessas sobre os jardins calcinados destas urbes arruinadas.
Condenados se movem parados como pequenos algozes ferozes, desesperançados.
Confusos ante a falência dos laços, de há muito já frágeis, pequenos perdedores e outros pseudo senhores se fazem maiores entre hordas de detratores, desidratados de amores.
Tipos famintos, contando com não mais que o instinto, a espreitar pelos cantos destes palcos de horrores.
Por maldição, foi-lhes cancelada a humanidade, resumidos que foram, estes restos de homens, a zumbis sem direito aos nomes. Decaídos consumidores.
Ser alguém de seu tempo, nestes tempos reversos, não é mais que garantir o espaço incerto entre a fúria e o medo da malta, a engendrar espertezas miúdas que lhe salve, no prazo curto, a maldita existência.
Já não é evocada a melancolia que bole extintos desejos ocultos de serem felizes, livres e justos. O vírus os libertou de tudo.
Estranhos ao que desaba entorno, basta a dose do rubro anestésico que os mantenha nestes jogos vorazes, a qualquer custo.
Walking deads, a oscilar entre a tediosa apatia e o frenesi da arritmia do próximo surto.
Das prósperas cracolândias, ainda se edificarão os novos campos santos; de grunhidos, se farão o som de seus cantos.
Poucas são as rezes desgarradas a pôr os chifres para fora da manada, vendo o carreiro arrastar-se pela vazante das estradas.
Privados de futuro à frente, seguem pisoteando o presente que infinitamente se estende.
Enfim, a normalidade resident evil triunfa e funda a entrópica semivida dos mais novos semimortos.
Cultos de ódio são celebrados entre a turba em todo o lado, descortinando a nova era pós-sociedade, ante o ocaso do Estado, a muito contaminado.
A vida aprisionada no cubículo de um agora torna forte quem comanda o insano bando de fora.
Ao alto da colina, com órbitas vazias de olhos, o grande bisão negro observa impávido. Dizem que a besta já foi chamada Sagrado Mercado.
Para ele, não é segredo o destino das criaturas que vagueiam sem rumo, seminuas, entre a imundice das ruas.
Seu fado foi gravado na crosta dura pela unha curva do diabo, que habita desde o início dos tempos a alma de toda a gente, desapercebido, que foi, pelas mentes indiferentes.

Eliseo Martinez
18.08.2017

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

147.

Destino

À busca de respostas,
somos pródigos em imaginar porquês
que jamais nos farão saber o que,
ainda que nos movam;
por eles se mate, por eles se morra.
Foi assim que a primeira das causas
nos foi dada de graça, já falsa.
As três velhas Parcas romanas,
que bem antes eram chamadas Moiras
por gregos e troianos,
generosas, não pouparam esforços,
distribuindo aos que chegavam
sonhos e desencantos,
escassas alegrias e farto pranto.
Mais poupados, rudes aldeões
resumiram o trio a um só fado,
depositando todo o esperado sentido
na conta do implacável destino.
Como as marés, passamos a crer
que as sortes de toda a gente
se alongam, mar afora;
se recolhem, mar adentro.
De todo o engenho humano,
mitos são, de longe, os mais estranhos.
Acomodam os homens ao mundo que temem,
enquanto lhes tiram das mãos o comando do leme.

Eliseo Martinez
08.08.2017