Tempos Reversos
Nuvens de incerteza pairam espessas sobre os jardins calcinados destas urbes arruinadas.
Condenados se movem parados como pequenos algozes ferozes, desesperançados.
Confusos ante a falência dos laços, de há muito já frágeis, pequenos perdedores e outros pseudo senhores se fazem maiores entre hordas de detratores, desidratados de amores.
Tipos famintos, contando com não mais que o instinto, a espreitar pelos cantos destes palcos de horrores.
Por maldição, foi-lhes cancelada a humanidade, resumidos que foram, estes restos de homens, a zumbis sem direito aos nomes. Decaídos consumidores.
Ser alguém de seu tempo, nestes tempos reversos, não é mais que garantir o espaço incerto entre a fúria e o medo da malta, a engendrar espertezas miúdas que lhe salve, no prazo curto, a maldita existência.
Já não é evocada a melancolia que bole extintos desejos ocultos de serem felizes, livres e justos. O vírus os libertou de tudo.
Estranhos ao que desaba entorno, basta a dose do rubro anestésico que os mantenha nestes jogos vorazes, a qualquer custo.
Walking deads, a oscilar entre a tediosa apatia e o frenesi da arritmia do próximo surto.
Das prósperas cracolândias, ainda se edificarão os novos campos santos; de grunhidos, se farão o som de seus cantos.
Poucas são as rezes desgarradas a pôr os chifres para fora da manada, vendo o carreiro arrastar-se pela vazante das estradas.
Privados de futuro à frente, seguem pisoteando o presente que infinitamente se estende.
Enfim, a normalidade resident evil triunfa e funda a entrópica semivida dos mais novos semimortos.
Cultos de ódio são celebrados entre a turba em todo o lado, descortinando a nova era pós-sociedade, ante o ocaso do Estado, a muito contaminado.
A vida aprisionada no cubículo de um agora torna forte quem comanda o insano bando de fora.
Ao alto da colina, com órbitas vazias de olhos, o grande bisão negro observa impávido. Dizem que a besta já foi chamada Sagrado Mercado.
Para ele, não é segredo o destino das criaturas que vagueiam sem rumo, seminuas, entre a imundice das ruas.
Seu fado foi gravado na crosta dura pela unha curva do diabo, que habita desde o início dos tempos a alma de toda a gente, desapercebido, que foi, pelas mentes indiferentes.
Eliseo Martinez
18.08.2017
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