Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 19 de agosto de 2017

148.

Tempos Reversos


Nuvens de incerteza pairam espessas sobre os jardins calcinados destas urbes arruinadas.
Condenados se movem parados como pequenos algozes ferozes, desesperançados.
Confusos ante a falência dos laços, de há muito já frágeis, pequenos perdedores e outros pseudo senhores se fazem maiores entre hordas de detratores, desidratados de amores.
Tipos famintos, contando com não mais que o instinto, a espreitar pelos cantos destes palcos de horrores.
Por maldição, foi-lhes cancelada a humanidade, resumidos que foram, estes restos de homens, a zumbis sem direito aos nomes. Decaídos consumidores.
Ser alguém de seu tempo, nestes tempos reversos, não é mais que garantir o espaço incerto entre a fúria e o medo da malta, a engendrar espertezas miúdas que lhe salve, no prazo curto, a maldita existência.
Já não é evocada a melancolia que bole extintos desejos ocultos de serem felizes, livres e justos. O vírus os libertou de tudo.
Estranhos ao que desaba entorno, basta a dose do rubro anestésico que os mantenha nestes jogos vorazes, a qualquer custo.
Walking deads, a oscilar entre a tediosa apatia e o frenesi da arritmia do próximo surto.
Das prósperas cracolândias, ainda se edificarão os novos campos santos; de grunhidos, se farão o som de seus cantos.
Poucas são as rezes desgarradas a pôr os chifres para fora da manada, vendo o carreiro arrastar-se pela vazante das estradas.
Privados de futuro à frente, seguem pisoteando o presente que infinitamente se estende.
Enfim, a normalidade resident evil triunfa e funda a entrópica semivida dos mais novos semimortos.
Cultos de ódio são celebrados entre a turba em todo o lado, descortinando a nova era pós-sociedade, ante o ocaso do Estado, a muito contaminado.
A vida aprisionada no cubículo de um agora torna forte quem comanda o insano bando de fora.
Ao alto da colina, com órbitas vazias de olhos, o grande bisão negro observa impávido. Dizem que a besta já foi chamada Sagrado Mercado.
Para ele, não é segredo o destino das criaturas que vagueiam sem rumo, seminuas, entre a imundice das ruas.
Seu fado foi gravado na crosta dura pela unha curva do diabo, que habita desde o início dos tempos a alma de toda a gente, desapercebido, que foi, pelas mentes indiferentes.

Eliseo Martinez
18.08.2017

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