Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

221.



Pobre Sócrates!
Passados dois e meio milênios
da genial provocação
com que inaugurou o mundo,
feita a cada um e a todos juntos,
instigando o trabalho das mentes,
não teve como prever,
o sábio grego,
que conhecer a si mesmo,
não nos levaria além das suspeitas
que recaem sobre personagens
inventados sobre quem somos,
como fungos que encobrem
caule, folhas e ramos
de velhas árvores
antes que tombem.
Sabe-se pouco mais que nada
além do que se necessita
para manter tantos de nós à parte
ou levar sondas à Marte.

Eliseo Martinez
28.12.2018

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

220.

Geração WhatsApp


Se a realidade sempre se empenhou
em nos dar um chão que se ponha o pé
e um teto estrelado para nos por a sonhar,
de tanto ser acelerada, a normalidade,
sua cria atualizada, foi quebrada.
Quebrou não pela mudança,
que está na essência de tudo que é humano,
mas pela rapidez com que alastrou o vasto dano.
Os que são jovens, agora,
sem parâmetros que os informem de fora
ou força que os consolem de dentro,
nem de longe suspeitam do que os atingiu
em cheio no lado esquerdo do peito.
( E, também, no que encerram dentro
do osso do crânio, com todo o respeito! )
Confusos, temem a dor, acima de tudo.
O que conta é o placebo da vez,
que contorne o tédio, talvez...
Atordoados, correm para não chegar a nada.
A verdade se confunde com o que satisfaz
os desejos da hora, desde que já, sem demora.
Mas, que sorte!
Os simulacros os acolhem
como se fossem pintinhos crescidos no ninho.
No súbito colapso do futuro,
o presente se estende e dobra seu turno.
Estes tempos velozes,
que baniram a esperança no projeto
e a ancestral fé no progresso,
são pródigos em fornecer antídotos,
a preços mínimos.
O paraíso é um mix de fantasia,
paliativos e a cacofonia das mídias.
Tanta aventura sem sair do quarto.
Com sorte, a vida segue sob auspícios,
suspensa num vácuo.
Arsenais de sofismas armam as falas.
É o que vale para chegar ao fim da tarde,
apesar da tirania das lógicas.
Diria Sócrates:
- É a volta triunfal dos sicários
que, à força de falácias, me condenaram.
A técnica amplia a venda de serviços,
prometendo a cura dos medos e dos vícios,
servil a arrivismos e rancores.
Basta, para isso, acessar os servidores.
A janela aberta ao mundo,
agora, é o túnel por onde me sumo
para dentro de meus muros.
A ilusão das possibilidades
cobre a indiferença de que somos capazes.
Morre-se ao mágico toque de uma tecla.
Deleta!
Conquistas são medidas pela cota de curtidas
e as novas metas a serem atingidas.
Julgando-se protegidos, só não contavam com que,
à falta de olhos nos olhos, cheiro, toque, vozes,
ficariam sem circular os afetos dos consortes.
Olhos que se olham exigem respostas
ou, ao se desviarem, que se pague a aposta.
Vencidos pela velocidade,
seduzidos por atalhos e facilidades,
multidões de adolescentes, de todas as idades,
se debatem em meio a espuma das aparências,
alheios às razões, que repousam no leito,
sob as correntezas.
Pobre geração WhatsApp!

Eliseo Martinez
27.12.2018

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

219.

Egoísta


Instigado a eleger a semente de um desejo
que floresça no próximo ano da besta,
revelei-me, como não o faria
no frio aconchego de um dia de inverno,
à beira da lareira.
Sob infernal calor de dezembro,
bastou um par de segundos 
para que as palavras concebidas na mente
se pusessem a nascer boca fora, prontamente.
Para o ano, quero que minha cara,
marcada pelas navalhas do tempo,
de olhar inquieto e barba a ser feita,
se confunda com o mármore,
como se dele tivesse sido talhado.
No entanto, desobrigado dos protocolos
ditados pelos mercados
e da hipocrisia habitual que os embalam
- dos privados afetos ao público trabalho,
por todo lado -,
quero que cada fibra entrelaçada
a sustentar minha face,
seja a corda de um arco desarmado,
cada músculo em repouso absoluto,
olhos baços, dentes guardados pelos lábios
e a voz, de uma vez, se cale,
para que, lívido, a expressão se apague
e nada me leve a responder ao que,
por acaso, vier a ser perguntado,
condenando o diálogo frustrado
a jamais ser travado.
Quero ser estátua de carne,
insensível às formalidades,
imune e impassível à banalidade.
O que vai mais adentro,
que continue a correr como sempre,
mas ande a passo mais lento.
Imerso em paz e lacrado,
me acharia desobrigado
de explicar tal estado.
Sem concessão dada a ser humano,
partiria em desterro
para fundar o país de mim mesmo,
numa caverna nos confins do estrangeiro.
Entregue ao egoísmo mais transparente,
de bom grado, abdicaria de ti,
exausto de toda gente.
E, neste aquário imaginário,
seria um peixe, ainda vivo,
ante facas que se amolam a sua frente,
deslizando impassível pelo eminente declínio.
Mas, é claro!
Só as vezes, me assalta o pensamento,
sem jeito, de ser o único a habitar
a imensidão deste ventre.

Eliseo Martinez
20.12.2018

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

218.

Izabel


Hoje, me negaram o mais básico dos legados,
conhecer quem veio de mim ao mundo,
ver nos olhos que se abrem,
meus próprios olhos, só não cansados.
À falta de elos de ferro,
gerações que se sucedem,
por vezes, vêm ligadas
por finos fios de maldade.

Eliseo Martinez
17.12.2018

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

217.

Feito gato


Todo lanhado, como um gato
que, à noite, se esgueira pelos telhados,
vasculha espaços à cata do que lhe baste,
até que, em plena escuridão,
já não se busque e, assim,
talvez por fim, se ache.
Pelos becos, mais abaixo,
em meio ao concerto dos miados,
festejada por pulgas e carrapatos,
a gataria segue alegre virando latas,
caçando ratos.

Raios que o partam!
Não falta quem queira dizer diferente
o que é dito desde sempre do mesmo jeito.
Bichano é bichano, humano é humano,
o resto, nada mais que engano.
Metáforas ainda acabam misturando
a natural ordem das coisas
com coisas de gente desnaturada.
Cabo! Tira o gato do telhado 
da esquadra!

Eliseo Martinez
14.12.2018

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

216.

Armadilha


O pensamento,
quando se liberta do entorno,
voa longe, como voa o tordo.
Mas, que sei eu de tordos?
Voa como passarinho, mesmo!
Daqueles que sempre estiveram
por perto da casa da gente
e nas pedras do calçamento em frente
e nos fios de eletricidade
e nas árvores que ladeiam
as ruas da cidade.
Como pardais,
que bem conheço,
ao bater as asas
não deixam paradeiro
nem endereço.

Eliseo Martinez
11.12.2018

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

215.


Sin City

Neste exato momento,
um crime perfeito é praticado
por inocentes em algum lugar
da cidade do pecado.
Por baixo de um sol negro,
soldado em céu rajado,
no áspero aconchego das casas,
famílias de assassinos
celebram rituais macabros,
entre ternos sorrisos,
sinceros abraços.
Por todo canto, o desencanto
pega a todos de emboscada,
denunciando na ausência das cores,
a falência dos amores;
nas texturas sombrias,
os tons escuros da melancolia.
Grãos de momento,
a serem enfiados pelo fio da vida,
são subtraídos sem arrependimento
ou prévio aviso.
O silêncio arma as bocas homicidas,
treinadas em calar vínculos entre indivíduos,
apagando vestígios das memórias,
sufocando a trama singular
em que se tecem as histórias.
Nestes tempos góticos, fóbicos de luzes,
gestados do metal e ares tóxicos, insalubres,
entre paredes ensanguentadas,
uma nova geração é iniciada
nos sagrados códigos de medo e ódio,
antes mesmo da primeira palavra
ser balbuciada pelos que vêm ao mundo,
para que já venham com as senhas do mal
tatuadas na mente,
em seu núcleo mais profundo.
Mas em Sin City todos têm álibis.
Especialmente os bandos familiares,
que abrigam em seu seio
o consórcio dos culpados.
Escondem os cadáveres
que amontoam nos armários,
confessam-se vítimas,
negam a autoria dos crimes que praticam.
Assim, todos são inocentes
dos dolos planejados
que, mais tarde, serão levados a cabo
sem deixar pista ou rastro
do delito encomendado.
Em Sin City, os lares estão a salvo
de serem julgados
por cometerem no presente
o crime futuro, encharcado
no veneno das vendetas do passado.

Eliseo Martinez
05.12.2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

214.

E lá se vai...


E lá se vai ele pisando chão, todo garrido,
chutando tampinha, caco de vidro.
Sem saber bem por quê,
sem saber bem prá quê,
vai se apossando do que lhe resta de vida.
Sabe apenas que chegou sua hora
e que, com a ponte cruzada,
só deixou para trás as pegadas.
Chafurdar no real, escasso de mel e ambrosia,
lhe ensinou o valor do delírio e da fantasia,
tão humanos quanto sede de verdade
ou fome de poesia.
De volta à luz das manhãs,
que morre ao final das tardes
para dar lugar ao jogo das sombras,
redescobre a vertigem do inesperado,
que a soma dos dias vazios,
preenchidos por horas marcadas,
fatiados pelas lâminas dos relógios,
lhe haviam roubado.
Com sentença cumprida,
se vai alheio a tic de entrada ou tac de saída.
O acaso não faz planos enquanto rasga
os véus encardidos do cotidiano,
impregnados das nódoas dos pequenos enganos.
Desatado de laços, vai à toa
para ficar-se à nada, para fazer-se a tudo,
como o mais recente inquilino
que passa a ser dono do tempo.
Ateu a um passo do divino
que se vai redimido das penas do mundo
ao romper empoeirados contratos com o diabo,
disfarçado de inocente mercado,
e não volta a firmá-los mesmo que a besta rosne,
mesmo que implore ou se rasgue.
Se vai na ilusão de ser livre
(só não lhe conte esta parte)
e, algum dia, quem sabe, seja feliz,
jamais anestesiado por tédio, manco de vontades,
muito menos disposto a ser triste.
Se vai pra dias melhores,
apesar do caos que se pôs a girar
sobre a cabeça dos homens.
Mais do que vir a ser o que nasceu para ser,
cogita se ainda pode ser ele mesmo,
feito de cada murro na cara, abraço apertado
ou espanto ante rios de maldade
e mares de beleza rara.
Se vai até que razão e consciência
se dissolvam nos ácidos da demência.
Não fez muito, fez o que pode.
É como se explica, é como se esconde.
Das culpas, paciência!
Ninguém se livra de todo
da maldição desta herança.
É o fardo dos velhos nesta fase da vida,
a calcificar esperanças.
Assim como outros, a quem contaram
a boa nova de bilhetes premiados, se vai,
como se vê, antes que se vá de uma vez.
Pobre coitado!
Lá se vai o mais novo aposentado...
Deixa quieto!
No fundo ele sabe.
Não há trinca no muro por onde se escape,
nem porta trancafiada que fácil se abre.
O que é a vida senão um show cancelado na véspera,
sem ingresso devolvido, que se peça?
O que vale são as circunstâncias que antecipam a festa.

Eliseo Martinez
01.12.2018