215.
Sin City
Neste exato momento,
um crime perfeito é praticado
por inocentes em algum lugar
da cidade do pecado.
Por baixo de um sol negro,
soldado em céu rajado,
no áspero aconchego das casas,
famílias de assassinos
celebram rituais macabros,
entre ternos sorrisos,
sinceros abraços.
Por todo canto, o desencanto
pega a todos de emboscada,
denunciando na ausência das cores,
a falência dos amores;
nas texturas sombrias,
os tons escuros da melancolia.
Grãos de momento,
a serem enfiados pelo fio da vida,
são subtraídos sem arrependimento
ou prévio aviso.
O silêncio arma as bocas homicidas,
treinadas em calar vínculos entre indivíduos,
apagando vestígios das memórias,
sufocando a trama singular
em que se tecem as histórias.
Nestes tempos góticos, fóbicos de luzes,
gestados do metal e ares tóxicos, insalubres,
entre paredes ensanguentadas,
uma nova geração é iniciada
nos sagrados códigos de medo e ódio,
antes mesmo da primeira palavra
ser balbuciada pelos que vêm ao mundo,
para que já venham com as senhas do mal
tatuadas na mente,
em seu núcleo mais profundo.
Mas em Sin City todos têm álibis.
Especialmente os bandos familiares,
que abrigam em seu seio
o consórcio dos culpados.
Escondem os cadáveres
que amontoam nos armários,
confessam-se vítimas,
negam a autoria dos crimes que praticam.
Assim, todos são inocentes
dos dolos planejados
que, mais tarde, serão levados a cabo
sem deixar pista ou rastro
do delito encomendado.
Em Sin City, os lares estão a salvo
de serem julgados
por cometerem no presente
o crime futuro, encharcado
no veneno das vendetas do passado.
Eliseo Martinez
05.12.2018