220.
Geração WhatsApp
Se a realidade sempre se empenhou
em nos dar um chão que se ponha o pé
e um teto estrelado para nos por a sonhar,
de tanto ser acelerada, a normalidade,
sua cria atualizada, foi quebrada.
Quebrou não pela mudança,
que está na essência de tudo que é humano,
mas pela rapidez com que alastrou o vasto dano.
Os que são jovens, agora,
sem parâmetros que os informem de fora
ou força que os consolem de dentro,
nem de longe suspeitam do que os atingiu
em cheio no lado esquerdo do peito.
( E, também, no que encerram dentro
do osso do crânio, com todo o respeito! )
Confusos, temem a dor, acima de tudo.
O que conta é o placebo da vez,
que contorne o tédio, talvez...
Atordoados, correm para não chegar a nada.
A verdade se confunde com o que satisfaz
os desejos da hora, desde que já, sem demora.
Mas, que sorte!
Os simulacros os acolhem
como se fossem pintinhos crescidos no ninho.
No súbito colapso do futuro,
o presente se estende e dobra seu turno.
Estes tempos velozes,
que baniram a esperança no projeto
e a ancestral fé no progresso,
são pródigos em fornecer antídotos,
a preços mínimos.
O paraíso é um mix de fantasia,
paliativos e a cacofonia das mídias.
Tanta aventura sem sair do quarto.
Com sorte, a vida segue sob auspícios,
suspensa num vácuo.
Arsenais de sofismas armam as falas.
É o que vale para chegar ao fim da tarde,
apesar da tirania das lógicas.
Diria Sócrates:
- É a volta triunfal dos sicários
que, à força de falácias, me condenaram.
A técnica amplia a venda de serviços,
prometendo a cura dos medos e dos vícios,
servil a arrivismos e rancores.
Basta, para isso, acessar os servidores.
A janela aberta ao mundo,
agora, é o túnel por onde me sumo
para dentro de meus muros.
A ilusão das possibilidades
cobre a indiferença de que somos capazes.
Morre-se ao mágico toque de uma tecla.
Deleta!
Conquistas são medidas pela cota de curtidas
e as novas metas a serem atingidas.
Julgando-se protegidos, só não contavam com que,
à falta de olhos nos olhos, cheiro, toque, vozes,
ficariam sem circular os afetos dos consortes.
Olhos que se olham exigem respostas
ou, ao se desviarem, que se pague a aposta.
Vencidos pela velocidade,
seduzidos por atalhos e facilidades,
multidões de adolescentes, de todas as idades,
se debatem em meio a espuma das aparências,
alheios às razões, que repousam no leito,
sob as correntezas.
Pobre geração WhatsApp!
Eliseo Martinez
27.12.2018
Nenhum comentário:
Postar um comentário