219.
Egoísta
Instigado a eleger a semente de um desejo
que floresça no próximo ano da besta,
revelei-me, como não o faria
no frio aconchego de um dia de inverno,
à beira da lareira.
Sob infernal calor de dezembro,
bastou um par de segundos
para que as palavras concebidas na mente
se pusessem a nascer boca fora, prontamente.
Para o ano, quero que minha cara,
marcada pelas navalhas do tempo,
de olhar inquieto e barba a ser feita,
se confunda com o mármore,
como se dele tivesse sido talhado.
No entanto, desobrigado dos protocolos
ditados pelos mercados
e da hipocrisia habitual que os embalam
- dos privados afetos ao público trabalho,
por todo lado -,
quero que cada fibra entrelaçada
a sustentar minha face,
seja a corda de um arco desarmado,
cada músculo em repouso absoluto,
olhos baços, dentes guardados pelos lábios
e a voz, de uma vez, se cale,
para que, lívido, a expressão se apague
e nada me leve a responder ao que,
por acaso, vier a ser perguntado,
condenando o diálogo frustrado
a jamais ser travado.
Quero ser estátua de carne,
insensível às formalidades,
imune e impassível à banalidade.
O que vai mais adentro,
que continue a correr como sempre,
mas ande a passo mais lento.
Imerso em paz e lacrado,
me acharia desobrigado
de explicar tal estado.
Sem concessão dada a ser humano,
partiria em desterro
para fundar o país de mim mesmo,
numa caverna nos confins do estrangeiro.
Entregue ao egoísmo mais transparente,
de bom grado, abdicaria de ti,
exausto de toda gente.
E, neste aquário imaginário,
seria um peixe, ainda vivo,
ante facas que se amolam a sua frente,
deslizando impassível pelo eminente declínio.
Mas, é claro!
Só as vezes, me assalta o pensamento,
sem jeito, de ser o único a habitar
a imensidão deste ventre.
Eliseo Martinez
20.12.2018
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