214.
E lá se vai...
E lá se vai ele pisando chão, todo garrido,
chutando tampinha, caco de vidro.
Sem saber bem por quê,
sem saber bem prá quê,
vai se apossando do que lhe resta de vida.
Sabe apenas que chegou sua hora
e que, com a ponte cruzada,
só deixou para trás as pegadas.
Chafurdar no real, escasso de mel e ambrosia,
lhe ensinou o valor do delírio e da fantasia,
tão humanos quanto sede de verdade
ou fome de poesia.
De volta à luz das manhãs,
que morre ao final das tardes
para dar lugar ao jogo das sombras,
redescobre a vertigem do inesperado,
que a soma dos dias vazios,
preenchidos por horas marcadas,
fatiados pelas lâminas dos relógios,
lhe haviam roubado.
Com sentença cumprida,
se vai alheio a tic de entrada ou tac de saída.
O acaso não faz planos enquanto rasga
os véus encardidos do cotidiano,
impregnados das nódoas dos pequenos enganos.
Desatado de laços, vai à toa
para ficar-se à nada, para fazer-se a tudo,
como o mais recente inquilino
que passa a ser dono do tempo.
Ateu a um passo do divino
que se vai redimido das penas do mundo
ao romper empoeirados contratos com o diabo,
disfarçado de inocente mercado,
e não volta a firmá-los mesmo que a besta rosne,
mesmo que implore ou se rasgue.
Se vai na ilusão de ser livre
(só não lhe conte esta parte)
e, algum dia, quem sabe, seja feliz,
jamais anestesiado por tédio, manco de vontades,
muito menos disposto a ser triste.
Se vai pra dias melhores,
apesar do caos que se pôs a girar
sobre a cabeça dos homens.
Mais do que vir a ser o que nasceu para ser,
cogita se ainda pode ser ele mesmo,
feito de cada murro na cara, abraço apertado
ou espanto ante rios de maldade
e mares de beleza rara.
Se vai até que razão e consciência
se dissolvam nos ácidos da demência.
Não fez muito, fez o que pode.
É como se explica, é como se esconde.
Das culpas, paciência!
Ninguém se livra de todo
da maldição desta herança.
É o fardo dos velhos nesta fase da vida,
a calcificar esperanças.
Assim como outros, a quem contaram
a boa nova de bilhetes premiados, se vai,
como se vê, antes que se vá de uma vez.
Pobre coitado!
Lá se vai o mais novo aposentado...
Deixa quieto!
No fundo ele sabe.
Não há trinca no muro por onde se escape,
nem porta trancafiada que fácil se abre.
O que é a vida senão um show cancelado na véspera,
sem ingresso devolvido, que se peça?
O que vale são as circunstâncias que antecipam a festa.
Eliseo Martinez
01.12.2018
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