Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 12 de maio de 2019

240.

Pais e filhos II


Nada é tão simples quanto parece.
Na verdade, a pouco se chega sem algum esforço ou zelo
e, ainda assim, sem garantias de alcançar justo termo.
Hoje, mais perto da saída do que da porta de entrada,
tenho pensado no enigma do filho de espanhóis rudes
que foi meu pai.
No que deixou de ver, para se deixar perder
numa estética desejante ancorada no presente,
a léguas de uma ética do projeto mar à frente.
Sem deixar de existir desgosto, raiva ou tristeza,
por difícil que fosse, era natural
preservar o espaço dos que vieram antes,
com seus acertos e desenganos,
o repertório de sua memórias e dramas,
num mundo que, ainda, sinalizava as saídas,
na convicção que o melhor em nós habita.
Me falta a lembrança de sentimentos
como desprezo ou inveja, muito menos ódio cego
entre os que andavam por perto.
Éramos mais independentes,
pouco ou nada vinha de graça.
Cada lição tinha um custo a ser pago
e, nós, por isso, quase que inteiramente gratos.
Nos dias de hoje, há mais liberdade, é certo,
mas a segurança escorreu para o brejo.
O preço da vida acelerada foi o medo,
que se instalou nos ossos dos homens.
Mediocridade, covardia e falta de estima,
também existiam, mas de uma forma ou doutra,
uma certa noção de justiça, ou bom senso,
que seja, lhes servia de antídoto e guia,
amparada por papéis mais bem definidos.
Ficou fácil virar as costas àqueles que,
como único crime, nos alertaram dos perigos,
perturbando fantasias de eus fragilizados,
que, em seus delírios, julgaram ser possível
desconsiderar limites sem que as consequências
algum dia os punissem.
Pais que se ficam pela zona de conforto,
à espera da mesada, chantageando trocados,
sem coragem para o que foram convocados,
hoje, imprimem seus medos àqueles
que deveriam tornar mais seguros.
Filhos privados de horizontes mais largos,
antes que saibam do que trata a empreitada.
Desencantados, percebemos que a salvação
já não se encontra na obra de arte,
nem mesmo na ruptura entre as classes.
Se há esperança de desconstruir a maldade,
ela está no pé que desacelera a velocidade,
permitindo a nós todos
aprender com a inocência de uma criança
e, assim, começar de novo, como nos dando
uma segunda chance de infância.

Eliseo Martinez
12.05.2019

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