243.
De volta ao sentido
Antes de tomar o rumo
do jardim dos esquecidos,
era seu desejo passar adiante
o que, por ventura, havia colhido,
fossem os frutos, fossem os fungos,
que lhe reservaram empenho ou destino.
Não que lhe tenham perguntado
dos significados ou dos signos
que houvesse perseguido.
Sem saber bem porquê,
achava que devia isso a uma
metafísica entidade dos homens,
mais do que a este ou aquele outro
com identidade e sobrenome.
Assim como ocorre com a arte,
onde todos são candidatos aptos
a desvelar lhe sentidos,
a exceção do autor que sabe do que
motivou sua obra, apenas em parte,
sem que isso dissesse respeito
a Goyas, Tarsilas, Bosches, Picassos,
mas a cada um, em sua mais humilde
passagem, inscrita num rosário
de alegrias, tristezas, vontades.
Contar da experiência de cada vida,
deixar o registo entre chegadas e partidas
em cada uma das mortes vividas.
Talvez o desejo oculto do criador,
que todos somos, não seja outro
do que se ficar na criatura,
no ato desesperado de permanecer
depois de rompido o último vínculo
e, assim, por uma breve eternidade,
vencer o tempo que, implacável,
descarta a todos na lata do limbo.
E, servindo-se do banal do cotidiano,
teimosamente, ousar tentar dar sentido
ao sem-sentido da vida.
Eliseo Martinez
18.05.2019
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