293.
Quebra-cabeça
Avinhado, como convêm
a malditos, pulhas, injuriados,
sigo a sina clandestina
entre paredes que se fecham
no cubículo que me abriga.
Nestes tempos contaminados
de puro ódio e dados viciados
lançados à sorte,
valendo moedas de vida
e moedas de morte,
me vou noite à dentro
sem poção ou mandinga
que sirva de unguento,
tramando encaixes perfeitos
no mapa de um mundo em pedaços
estampado no quebra-cabeça
espalhado sobre a mesa,
enquanto ouvem-se sons de coturnos
vindo das ruas mergulhadas no escuro.
Amanhã, na dose diária
do trágico noticiário
saberemos pelas ondas do rádio
que a cada peça encaixada
na madrugada um desgraçado
desencaixou-se do plano traçado.
Pouco importa se bicho-homem,
ou rês desgarrada da manada.
Cada vida conta,
de banal é que não pode haver nada.
Eliseo Martinez
28.04.2020
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
terça-feira, 28 de abril de 2020
quinta-feira, 23 de abril de 2020
292.
"Gado idólatra"
O termo foi cunhado por outro que não eu
nestes dias infestados pelo vírus da pandemia
para definir uma parte dos brasileiros,
a parte que envergonha por inteiro,
mas também revela o que já estava aqui,
antes do protagonismo do covid,
causando perplexidade onde quer
que a civilização tenha deitado raízes.
(De)formados pela servidão própria das manadas,
aí militam à serviço da mística das elites
e sua horda de corruptos políticos,
a par e passo com pastores zelosos
à frente de rentáveis negócios religiosos,
comerciantes gananciosos
a conduzir suas carreatas da morte,
sequelados terraplanistas, obscurantistas
avessos à ciência, a educação e a pesquisa,
contrários a cura pelas vacinas,
verdadeiros vírus da saúde publica,
analfabetos políticos,
a claque da ditadura e das milícias -
virtuais ou das balas homicidas -,
vendilhões do patrimônio
que devia alimentar os esquecidos,
incendiários da Amazônia,
o amplo leque dos que nutrem
o mais fervoroso desprezo pelo povo
e aplaudem o confisco
do parco ganho dos humildes,
mas, acima de tudo, os arrivistas
e ressentidos de todo o tipo.
Gente que se move por uma difusa fé no ódio,
negacionistas servis a novos e velhos nobres
em seu descaso à razão dos argumentos,
mesclada por capitalistas oportunistas,
inocentes úteis ou preguiçosos ludibriados,
semeadores de preconceitos,
o rebanho a que a alienação
surrupiou a verdadeira liberdade,
enfim, os irmanados na brutalidade.
A esses que idolatram genocidas,
imunes as palavras e para quem
pensar por si é esquisito, o que cabe ser dito,
senão: muh... , muh... , muh...
Eliseo Martinez
23.04.2020
"Gado idólatra"
O termo foi cunhado por outro que não eu
nestes dias infestados pelo vírus da pandemia
para definir uma parte dos brasileiros,
a parte que envergonha por inteiro,
mas também revela o que já estava aqui,
antes do protagonismo do covid,
causando perplexidade onde quer
que a civilização tenha deitado raízes.
(De)formados pela servidão própria das manadas,
aí militam à serviço da mística das elites
e sua horda de corruptos políticos,
a par e passo com pastores zelosos
à frente de rentáveis negócios religiosos,
comerciantes gananciosos
a conduzir suas carreatas da morte,
sequelados terraplanistas, obscurantistas
avessos à ciência, a educação e a pesquisa,
contrários a cura pelas vacinas,
verdadeiros vírus da saúde publica,
analfabetos políticos,
a claque da ditadura e das milícias -
virtuais ou das balas homicidas -,
vendilhões do patrimônio
que devia alimentar os esquecidos,
incendiários da Amazônia,
o amplo leque dos que nutrem
o mais fervoroso desprezo pelo povo
e aplaudem o confisco
do parco ganho dos humildes,
mas, acima de tudo, os arrivistas
e ressentidos de todo o tipo.
Gente que se move por uma difusa fé no ódio,
negacionistas servis a novos e velhos nobres
em seu descaso à razão dos argumentos,
mesclada por capitalistas oportunistas,
inocentes úteis ou preguiçosos ludibriados,
semeadores de preconceitos,
o rebanho a que a alienação
surrupiou a verdadeira liberdade,
enfim, os irmanados na brutalidade.
A esses que idolatram genocidas,
imunes as palavras e para quem
pensar por si é esquisito, o que cabe ser dito,
senão: muh... , muh... , muh...
Eliseo Martinez
23.04.2020
terça-feira, 21 de abril de 2020
291.
Recortes da pandemia II
Momento incrível, este !
Eu, que sempre pensei
que o médio e alto empresariado
sugavam até o osso seus empregados,
sem maiores projetos
para o coletivo dos homens
que lhes fornecem os lucros,
vejo esses mesmos senhores
exaltando a volta ao trabalho,
preocupados com as condições
em que sairão da crise os trabalhadores.
Só não entendi porquê,
ao tomar a defesa dos mais humildes,
a quem pagam salários de fome,
sem pudores ou requintes,
foram às ruas lutar sua heroica luta
de dentro dos carros de luxo
e máscara cirúrgica nas fuças,
protegidos daquilo que apregoam
ser inofensivo aos demais mortais,
instigados ao voo livre,
sem paraquedas, à beira do precipício.
Devo ser burro, mesmo !!!
Eliseo Martinez
21.04.2020
Recortes da pandemia II
Momento incrível, este !
Eu, que sempre pensei
que o médio e alto empresariado
sugavam até o osso seus empregados,
sem maiores projetos
para o coletivo dos homens
que lhes fornecem os lucros,
vejo esses mesmos senhores
exaltando a volta ao trabalho,
preocupados com as condições
em que sairão da crise os trabalhadores.
Só não entendi porquê,
ao tomar a defesa dos mais humildes,
a quem pagam salários de fome,
sem pudores ou requintes,
foram às ruas lutar sua heroica luta
de dentro dos carros de luxo
e máscara cirúrgica nas fuças,
protegidos daquilo que apregoam
ser inofensivo aos demais mortais,
instigados ao voo livre,
sem paraquedas, à beira do precipício.
Devo ser burro, mesmo !!!
Eliseo Martinez
21.04.2020
domingo, 19 de abril de 2020
290.
Morador do porão
Para que se escreve
senão para nos cutucar
ao brincar com as palavras,
fazer delas pipas
que se empinam acima
do comboio ocre dos dias,
inventar sentidos outros
daqueles com que,
no cotidiano,
nos batem no rosto,
reinventar memórias
e se deixar ir pelos labirintos
de nós mesmos,
para onde escorrem
íntimos segredos,
estranhos que nos somos,
envoltos no espesso
de sombras e medos?
Escrever é o ato eremita
de se observar ao vazar
e, num desses golpes de sorte
ou, mesmo, azar,
vir a cruzar
com o recluso morador
do porão do primeiro andar.
Escrever é ...
Eliseo Martinez
19.04.2020
Morador do porão
Para que se escreve
senão para nos cutucar
ao brincar com as palavras,
fazer delas pipas
que se empinam acima
do comboio ocre dos dias,
inventar sentidos outros
daqueles com que,
no cotidiano,
nos batem no rosto,
reinventar memórias
e se deixar ir pelos labirintos
de nós mesmos,
para onde escorrem
íntimos segredos,
estranhos que nos somos,
envoltos no espesso
de sombras e medos?
Escrever é o ato eremita
de se observar ao vazar
e, num desses golpes de sorte
ou, mesmo, azar,
vir a cruzar
com o recluso morador
do porão do primeiro andar.
Escrever é ...
Eliseo Martinez
19.04.2020
sábado, 18 de abril de 2020
289.
Recortes da pandemia I
Depois da peste passada
e a frágil segurança
das existências,
remediada,
esqueceram-se logo
do mal ocorrido,
voltando ao que sempre foram,
aprisionados na dimensão
do tempo presente,
atados a crenças
inventadas por outros,
mais do que nunca,
alheios à consciência
que perderam
de que jamais
aconteceremos de novo,
que é o mistério de tudo
que possa ser chamado de vida
e, havendo alguma,
única centelha divina.
Eliseo Martinez
18.04.2020
Recortes da pandemia I
Depois da peste passada
e a frágil segurança
das existências,
remediada,
esqueceram-se logo
do mal ocorrido,
voltando ao que sempre foram,
aprisionados na dimensão
do tempo presente,
atados a crenças
inventadas por outros,
mais do que nunca,
alheios à consciência
que perderam
de que jamais
aconteceremos de novo,
que é o mistério de tudo
que possa ser chamado de vida
e, havendo alguma,
única centelha divina.
Eliseo Martinez
18.04.2020
sábado, 11 de abril de 2020
288.
De volta aos aqueus
Nos tempos heroicos,
em que entre a Ática e o Peloponeso,
separados pelo Istmo de Corinto,
se forjava a matriz do ocidente,
igualmente alternando
guerras subterrâneas
e guerras declaradas,
coexistiam duas formas de vida
no seio da sociedade dos homens.
Uma lastreada pela força dórica,
outra pela graça jônica.
Esparta e Atenas,
com o gládio, a filosofia e a ciência,
iriam talhar na história seus nomes.
Hoje, essas mesmas visões
encontram-se entre nós,
próximas e separadas feito coágulos
numa única poça d'água,
aguçadas pela chegada do vírus,
as causas que dilapidam as geleiras
e bestiais atentados.
Com certeza, convivendo
com mais ódio que nunca,
na ordem caótica
que lhes servem de fundo.
Eliseo Martinez
11.04.2020
De volta aos aqueus
Nos tempos heroicos,
em que entre a Ática e o Peloponeso,
separados pelo Istmo de Corinto,
se forjava a matriz do ocidente,
igualmente alternando
guerras subterrâneas
e guerras declaradas,
coexistiam duas formas de vida
no seio da sociedade dos homens.
Uma lastreada pela força dórica,
outra pela graça jônica.
Esparta e Atenas,
com o gládio, a filosofia e a ciência,
iriam talhar na história seus nomes.
Hoje, essas mesmas visões
encontram-se entre nós,
próximas e separadas feito coágulos
numa única poça d'água,
aguçadas pela chegada do vírus,
as causas que dilapidam as geleiras
e bestiais atentados.
Com certeza, convivendo
com mais ódio que nunca,
na ordem caótica
que lhes servem de fundo.
Eliseo Martinez
11.04.2020
domingo, 5 de abril de 2020
287.
Pandemia
Antevisto por profetas,
musicado por poetas,
nas telas encenado
e em livros romanceado,
o que ninguém acreditou:
o dia em que a Terra parou.
Sem prévio aviso
uma força invisível
coroada de pânico e vírus
tornou impossível
o rol das pequenas rotinas
com que transitamos
pelo caos desta já dura vida.
De repente, o espaço foi confinado
e o tempo sem freio, desacelerado.
Alçada a único tema,
a pandemia se alastrou pelas mídias,
em uníssono, a tatear seus dilemas.
O medo igualou-nos a todos,
revelando a política como
o jogo raso a serviço dos tolos.
Por trás das portas trancadas,
solitários deparam-se com o peso
da própria existência.
De súbito, perplexos familiares
dão de cara no interior das residências.
Amantes se veem nus
como jamais se viram antes,
expondo as cracas de pus
do que já chamaram romance.
Em fuga de nós mesmos,
encurralados entre paredes,
horrorizados,
nos vemos sob holofotes,
ante espelhos quebrados.
Por força da trágica esparrela
toma curso o difícil
aprendizado da espera.
Alguns, a custo, vão percebendo
quanto tempo tem o tempo,
outros saem à busca
do milagroso remédio
que os salvem do tédio.
Mascarados de olhar furtivo
e passo apressado
cruzam por corredores
de prateleiras banguelas
nos supermercados.
Não há voo que se pegue
que livre rico, remediado
ou cabra da peste,
enquanto o planeta inteiro
da mesma mazela padece.
Pelas ruas vazias,
o ceifador de olhos sem vida,
envolto de trevas, espreita de dentro
dos panos pretos
da medieval vestimenta,
levando consigo a foice curva
com sua lâmina fria.
Depois do mal semeado,
esse anjo da morte faz a colheita
do que foi, ao acaso, plantado,
legando a bacia das almas
aos demais condenados.
Eliseo Martinez
05.04.2020
Pandemia
Antevisto por profetas,
musicado por poetas,
nas telas encenado
e em livros romanceado,
o que ninguém acreditou:
o dia em que a Terra parou.
Sem prévio aviso
uma força invisível
coroada de pânico e vírus
tornou impossível
o rol das pequenas rotinas
com que transitamos
pelo caos desta já dura vida.
De repente, o espaço foi confinado
e o tempo sem freio, desacelerado.
Alçada a único tema,
a pandemia se alastrou pelas mídias,
em uníssono, a tatear seus dilemas.
O medo igualou-nos a todos,
revelando a política como
o jogo raso a serviço dos tolos.
Por trás das portas trancadas,
solitários deparam-se com o peso
da própria existência.
De súbito, perplexos familiares
dão de cara no interior das residências.
Amantes se veem nus
como jamais se viram antes,
expondo as cracas de pus
do que já chamaram romance.
Em fuga de nós mesmos,
encurralados entre paredes,
horrorizados,
nos vemos sob holofotes,
ante espelhos quebrados.
Por força da trágica esparrela
toma curso o difícil
aprendizado da espera.
Alguns, a custo, vão percebendo
quanto tempo tem o tempo,
outros saem à busca
do milagroso remédio
que os salvem do tédio.
Mascarados de olhar furtivo
e passo apressado
cruzam por corredores
de prateleiras banguelas
nos supermercados.
Não há voo que se pegue
que livre rico, remediado
ou cabra da peste,
enquanto o planeta inteiro
da mesma mazela padece.
Pelas ruas vazias,
o ceifador de olhos sem vida,
envolto de trevas, espreita de dentro
dos panos pretos
da medieval vestimenta,
levando consigo a foice curva
com sua lâmina fria.
Depois do mal semeado,
esse anjo da morte faz a colheita
do que foi, ao acaso, plantado,
legando a bacia das almas
aos demais condenados.
Eliseo Martinez
05.04.2020
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