Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

368.

Tempos (pós) modernos

Nestes tempos
em que a burrice
se enche de coragem
e mostra a cara,
a bater asas de galinha,
de penacho empertigado,
cumpre seu papel
mais destacado,
ao deixar às claras
a vasta escuridão,
que nem em pesadelos
se imaginava.

Eliseo Martinez
21.12.2021

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

367. 

Pílula natalina: a Disputa

É Natal!
Que cada um abra a mensagem
que retirou de dentro da garrafa,
acaso teve a sorte de encontrá-la,
flutuando ou deitada à beira d'água.
Das que as vagas me trouxeram,
amealho uma delas e te presenteio:
- Corroídos pelo ácido do esquecimento,
a história varre seus feitos
mais gloriosos e mais horrendos
para dentro das dobras do tempo.
Como permitir-se não saber
e, depois de saber, esquecer
das paixões vertidas nas disputas
que, pelos conventos medievais
de um mundo cristianizado,
esgrimiam a lógica e a astúcia
de beneditinos e franciscanos,
definindo a vida e a morte
de incontáveis seres humanos?
Que momento mais oportuno
senão entre as hostes natalinas
para lembrar a obra dos doutores
da Igreja que, com rodas de tortura,
garrotes e berços de judas,
faziam-se guardiões da verdade,
à sombra de cruzes e estandartes,
a despeito de algum bem teórico,
tanto mal fizeram à humanidade!

Eliseo Martinez
20.12.2021

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

366.

A Menina do Cabelo Amarelo
e a Fadinha Atrapalhada
(resposta à diabetes infantil)

Era uma vez uma linda menina de cabelo
amarelo, que se chamava Flor de Mel.
Diferente das outras menininhas de sua
idade, além das bonecas e ursinhos que,
também moravam em seu quartinho,
ela adorava brincar com carrinhos.
Todos gostavam muito da Menina do
Cabelo Amarelo, mas ela tinha um segredo.
Quando ninguém estava olhando,
ela roubava comida da cozinha e fazia
lanchinhos fora de hora,
es - con - di - di - nha !!!

              

Sua mãe chegou a pensar que tinha um
ratinho pela casa, que comia as bolachinhas.
No meio de uma terrível pandemia que,
Tia Bete, uma bruxa malvada, espalhou
por toda a Terra, a Menina do Cabelo
Amarelo estava para completar três aninhos.

Mas tinha um probleminha.
Para enfrentar estes tempos amargos,
ainda quando a menina estava na barriga
da mamãe dela, se preparando para
nascer, uma fadinha boazinha, mas
muito atrapalhadinha, vendo a linda
menininha, jogou um encanto sobre
Flor de Mel.
O encanto fez com que ela nascesse
bem docinha, mas a fadinha atrapalhada
não contava que, de tão tão docinha,
ela teria de evitar comer bolos, balas ou
chocolates e tudo o mais que fosse doce.

Mesmo sem querer, a fadinha arranjou
um problemão para a Menina do
Cabelo Amarelo!
(Que fadinha mais atrapalhada, né, amiguinhos!?)

Sabendo disso, as bonecas e os
bonecos, junto com os ursinhos,
se perguntavam como fazer para
que em seu aniversário a Menina
do Cabelo Amarelo tivesse uma linda
festa, ao lado da mamãe dela,
da vovó, do vovô e dos amiguinhos,
mesmo sem as guloseimas de que tanto
gostam as crianças dessa idade.

Pensaram, pensaram e pensaram...,
até que o Carlinhos, o Pitufo e a Pretinha
tiveram uma grande ideia.
Foi assim que eles convidaram a mesma
fadinha que se atrapalhou na dose do
encanto e, sem querer, acabou com o
que era doce na comidinha da Menina
do Cabelo Amarelo, para, em troca, dar
a ela outra coisa mas, desta vez,
uma coisa boa.

Todos ficaram com medo que a tal
fadinha se enganasse novamente,
mas como ela era uma fadinha boazinha
todos, também, compreenderam que ela
apenas tinha cometido um erro e,
desta vez, faria o que fosse necessário
para dar um bom presente à Menina
do Cabelo Amarelo.
(Todos nós, mesmo sem querer,
podemos errar, não é mesmo,
amiguinhos?)

Mas, afinal, o que a Fadinha Atrapalhada
deu de tão bom assim para a menininha?

Já que todos sabiam que a Menina do
Cabelo Amarelo era muito, mas muito,
inteligente, a fadinha deu não um, mas
dois presentes que a menina iria levar
para toda a vida, coisas que fariam dela
uma pessoa muito especial:
o gosto pelos livrinhos e o amor pela
música.
E foi assim que todos os livros do
mundo ficaram amigos da Menina do
Cabelo Amarelo, como também os
instrumentos musicais.

Mais tarde, de tanto ler as páginas de um
montão de livrinhos, ela ganhou o super
poder do conhecimento, o que ajudou a
manter Flor de Mel com os pés bem
firmes no chão e, com os instrumentos
musicais, ela podia tocar as estrelas,
sempre que houvesse música no ar.

Com os livros, a Menina do Cabelo
Amarelo se tornou querida por muitas
e muitas pessoas por poder entender
melhor o mundo em que todos nós
vivemos e, assim, ajudar os outros.
Com a música ela criou um mundo            
só seu mas, sempre que quisesse,                       
ela poderia compartilhar com todos
os demais, alegrando suas vidas.

E, desta forma, a Menina do Cabelo
Amarelo se foi feliz pela vida, se
transformando numa encantadora
moça e muito amada para sempre,
por todos que cruzavam seu caminho.


Eliseo Martinez
17.12.2021

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

365.

Posseiros e proprietários

Amores bandidos não se confundem
com os amores mornos
entre esposas e maridos.
Enquanto aqueles querem-se livres;
para muitos, estes, no mais das vezes,
se assemelham a seguros de vida.
Os amantes fazem suas apostas,
satisfeitos com a posse do presente;
os consortes subscrevem suas apólices,
julgando-se proprietários do que vem à frente.
Uns ensaiam a difícil arte
de se fazerem iguais nas diferenças,
libertos dos cravos e espinhos
cravados na consciência;
outros, pelos males do cotidiano,
enfermos de tédio e revezes,
tendem a se habituar
com o que não tem mais remédio.
Fervilha de vida a alcova dos amantes,
transitando os possuídos
- insanos e malditos -
pelo reino dos sentidos.
Na fresta aberta no comum
de todo o resto, florescem desejos
enredados aos segredos mais secretos,
desvelados pelos corpos em festa.
No leito dos casados, pouco a pouco,
fecham-se os espaços,
como quando, nos palcos de teatro,
ao findar o mau espetáculo,
resta nos sorrisos congelados,
apenas desengano e cansaço.
Mais posseiros que proprietários,
reza um antigo adágio corsário,
tatuado no gozo dos que se amaram.
Mas, eis que um ancião ao lado,
sisudo e sábio, mais uma vez,
abre sobre a mesa as cartas do baralho,
sentenciando com as palavras:
- "quanto mais sólida é a liberdade,
mais líquida é a segurança, meus caros!"
E a impertinente resposta não tarda,
vinda da penumbra do fundo da sala,
onde, há pouco, encobertas,
mãos e bocas se entrelaçavam.
- É! Mas pera lá, camarada!
Com o respeito de sempre,
senhor dos sólidos e dos líquidos!
Estamos aqui, nesta viagem
de tão curto percurso,
como os improváveis sortudos
que, ao nascer, um dia já fomos,
ou os neófitos corretores de seguro
que, por mala suerte,
ainda nos tornamos?

Eliseo Martinez
07.12.2021

domingo, 5 de dezembro de 2021

364.

Qualidade de vida


Dia desses, ouvi perguntarem
sobre o que seria a tão perseguida
qualidade de vida.
Responderam, os ali presentes,
com esta ou aquela coisa
que almejam fazer,
isto ou aquilo que querem ter,
sonhos que gostariam
de ver acontecer.
Em suma,
pontuaram objetivos a alcançar,
sem ter muito claro o que se faz
depois disso suceder.
Não seria mais sensato
transcender o ponto
e escanear o espaço todo?
Talvez, nossa melhor aposta
resulte das escolhas
que livremente nos propomos
e não das que outros
nos trazem prontas.
Quanto a mim, escolho o tempo,
todo o tempo que me for
possível conquistar.
Tempo para escapar da rede
que, no mais das vezes,
sempre estará lá.
E, nesses intervalos,
cada vez mais alargados,
viver a experiência
de apropriar-me de mim mesmo,
tomar porres de liberdade,
se assim for o que desejo
e, se der na telha,
passar meus dias estendido
em outras redes atadas em coqueiros
ou insurgindo os descontentes,
até gastar cada grão de tempo
que eu tenha prá gastar.
Só então, permitir-me
tocar na banda dos contentes,
desde que eu possa desafinar.

Eliseo Martinez
05.12.2021

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

363.

Tempo presente

Que tempo merece que se invista
o maior número de nossas fichas?
É! A pergunta parece esquisita.
Cada tempo tem seu lugar,
mas nem sempre é assim
para os que passaram,
passam e vão passar.
O passado nos dá
pistas de quem somos
mas, facilmente, o recriamos,
estando sempre lá,
pronto a nos prender 
em suas torres de barro,
caiadas de dourado,
quando não assombradas
por fantasmas.
Coisa que, em seus domínios,
não evita o grande
número de inquilinos.
Na ideia de futuro moram
as expectativas nascidas
no passado
e, também os fatos
a serem consumados
pelo acaso.
Nele faltam vagas
para tanto crente fervoroso
ou sonhador esperançoso.
Só há vida no tempo presente,
o tempo animal,
animal que frequentemente,
esquecemos que somos.
É só no agora que podemos
nos libertar dos sonhos
mais tóxicos que sonhamos,
deixar passar,
para pisar de vez o chão da vida,
a nossa espera
em qualquer lugar tangível.
Diferentes do presente,
o tempo pretérito
e o tempo futuro,
fácil se afeiçoam às quimeras
que germinam pelas mentes
férteis de primavera.

Eliseo Martinez
02.12.2021

domingo, 28 de novembro de 2021

362.

O demiurgo, o anacoreta e o taumaturgo

Em um fim de tarde escarlate,
quando o sol já bem tendia ao ocaso,
um anacoreta que cruzava dunas do deserto,
absorto em pensamentos por certo incertos,
repentinamente, deparou-se
com um taciturno taumaturgo,
recém fugido da cidade
por temerem seus desconcertantes milagres,
concedidos a um punhado
e exigido por milhares.
O encontro inusitado, na vastidão vazia
dessas terras de tão pouca serventia,
trilhada por raros peregrinos,
já seria coisa das mais improváveis.
Mas, eis que mal o condenado
e o que a si mesmo condenou à solidão
houvessem se cumprimentado
e do mesmo cantil bebido da mesma água,
ouvem passos na areia crestada.
Aproximando-se de ambos,
coberto por seu alvo manto,
vinha  o demiurgo, saído do nada.
Como pode ser que onde passa-se meses
e, mesmo anos, sem que se depare 
com alma penada ou de vivente,
naquele exato lote do fim do mundo,
habitado por escorpiões e serpentes,
reúna-se a pequena multidão, ali presente:
um monge ermitão, um visionário milagreiro
e o artesão divino, antevisto
por Platão e reverenciado pelos discípulos?
Depois de cruzarem-se os homens,
se cruzaram os pensamentos,
sob um céu estrelado,
que só aos desertos inóspitos é reservado.
O anacoreta falou
do que se alimenta um ermitão
e do que vai em seu coração,
além dos raros andarilhos
que por ele passaram,
nestes tempos solitários.
O taumaturgo discorreu sobre as visões
que lhe atormentam a alma
e sobre os milagres de que foi culpado.
O demiurgo refletiu sobre a ordem
e a desordem do universo,
da natureza da matéria,
do espaço e do tempo em movimento.
Entre homens tão incomuns,
em poucas palavras,
muito pode ser trocado
e, logo, o valor da bagagem 
dos viandantes é constatado.
Por fim, já acomodados
para a fria noite que lhes aguardava,
entoaram, felizes,
seus cânticos mais sagrados.
Pela manhã, depois de terem repousado,
cada qual partiu para o seu lado.
Um levando o odre às costas,
outro a recitar mantras,
envolto em panos brancos
e o terceiro, de pés ligeiros,
apoiado em seu cajado.
Tanto mais poderiam ter compartilhado,
mas com alegria e, também, as reservas
dos que se habituaram aos olhos torvos,
se dispensaram pelo já tórrido deserto.
Agradaram-se, sobretudo, 
do som das próprias falas.
Tão sábios, cada um,
das coisas de que falaram
e tão impermeáveis às palavras
saídas de outros lábios.
A solidão enraizada
em seus corações petrificados
foi mais forte do que toda a sabedoria,
ali, manifestada.

Eliseo Martinez
28.11.2021

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

361.

Os caminhos e o atalho

Por que tantos desistem?
Pouco não é sempre
melhor que nada?
E aquele que nada tem
não tem mais do que
o que já não é mais?
O quadro por nós
- de nós - pintado
e o lugar mais abaixo
ou mais ao alto
a ele reservado,
provavelmente nos
antecipe o salto.
Talvez, mais do que
os tombos e desencontros
ou as lâminas com que ferimos
e nos ferem na garganta
nos pesem os dias
postos de lado,
sem sentido ou alegrias,
como que um sobre os outros,
empilhados.
É o fardo do cotidiano,
que nos faz tão pequenos
frente ao que já vislumbramos
de nós mesmos.
Trata-se da perversa distância
entre o que somos
e o que nos habituamos
a pensar que somos.
Por vezes, temos de cortar os fios
que nos prendem ao aconchego
do resguardo da rede
ao invés de levitar no retrato
empoeirado preso à parede.
Mas, por hora, que não se
desapontem os mais afoitos,
seduzidos por balas, cordas,
drágeas ou foices.
Enquanto houver caminhos,
aos descaminhos
não se fornecem tábuas
que lhe sirvam de pontes.

Eliseo Martinez
24.11.2021

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

360.

Realidades

Sem ânimo que se derrame,
retesam-se os músculos
sob o garrote dos nervos de arame.
A respiração aflita, trava, hesita,
pendurando o corpo à vida.
Na cabeça, bigornas repicam,
feito sinos.
Por trás dos olhos, martelos de aço
malham cravos saídos da forja,
projetando os globos injetados
para fora das órbitas.
No olhar, mil temores difusos,
sem o mapa das covas
onde foram cravados no fundo,
talhando vincos no rosto duro
dos que creem ter visto de tudo.
A vontade, que já teve viço,
é modesta, por conta
dos enguiços da lida adversa;
a perna fraqueja; o passo, incerto
e o suor lhe brota da testa.
Tomado de melancolias,
a náusea dá a cor do que resta.
O entorno se fecha a céu aberto,
confinando num quarto escuro
seu inquilino único,
acossado pelo desconforto contínuo
de punhais pontiagudos.
Tantos que somos e as realidades
que borbulham na solidão das mentes
se revelam tão divergentes,
invisíveis aos que passam indiferentes.
Alguém com sorriso de cera
acena do outro lado do passeio
e, mecanicamente, de pronto,
o homem acena do sítio oposto.
Em rasos pespontos,
fio acima, fio abaixo,
costura-se com luz e sombra
o todo e o nada que somos,
tecendo nosso normal cotidiano. 
Debaixo de um sol escaldante,
atravessa a avenida,
teso e já desapercebido
como, de resto, tudo.
Se vai a comprar papaias
no mercadinho do fim da rua,
mal percebendo a caricata figura,
por meio salário, a soldo de outros.
O Papai Noel sem idade,
com sua triste felicidade,
metido em rubros veludos,
ensaia nova versão da realidade,
por trás da barba de algodão sujo,
manchada de nódoas do pouco uso.


Eliseo Martinez
18.11.2021

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

359.

Tudo é movimento


Sob o olhar severo
dos corpos celestes
situados acima
e a cegueira
dos corpos terrestres
sitiados abaixo,
armou-se a armadilha
à espera do dia
que, por descuido, vilania
ou cósmica engenharia,
o levante se insurja
e surja do ocidente
para deitar luz no oriente,
quebrando, uma vez mais,
a ordem do universo existente.
E, no desalinho do que vai
para além do horizonte,
pereça o que parecia
ser para sempre.

Eliseo Martinez
10.11.2021

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

358.

O time da curva


A um só tempo,
torna-se o homem
senhor e escravo
da luta encarniçada
no interior das legiões
que o habitam,
de tantos que se torna
no curso de uma vida,
de tantos que são
os cacos em conflito,
espinhos que nele ficam.
E o que era caminho
se multiplica num emaranhado
de atalhos mal traçados.
Tal é a condição do que é,
frente a promessa do que foi.
Precisamente, em que momento
torna-se a inocência, malícia;
faz-se da vítima, o homicida?
Em que instante
se dobra a esquina?
Me explica!
Ou basta crer
que para se encontrar
temos de nos perder?
Que dizer do olhar atento,
da vontade enraizada no peito
e das escolhas que temos,
mesmo as que levam à nada?
Vai, me explica!
Mas explica do jeito
que um mateiro decifre.

Eliseo Martinez
09.11.2021

terça-feira, 9 de novembro de 2021

357.

Deixar passar

Com o veneno do silêncio
na boca que te colhe os beijos,
faço que não vejo
tu dar asas a teu desejo.
Para que os dias tomem rumo
e haja amanhã que nos cure,
há que soltar as amarras
que mantém os destroços
presos à praia,
deixando que repouse
em águas mais fundas
o que restou de ilusões,
mãos dadas, loucuras.

Eliseo Martinez
09.11.2021

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

356.



Por vezes,
sorrisos e olhares
que, ao partir,
deixam saudades,
ficam em nós
para sempre,
como larvas que vivem
nos buracos da alma
ou espinhos
cravados na carne,
iluminados
à luz trêmula
de uma vela,
como convém a olhos
que se recusam as trevas.

Eliseo Martinez
08.11.2021

terça-feira, 2 de novembro de 2021

355.

O hálito de Nietzsche

Nascemos e, logo, o que move
as hordas mundanas
faz com que nos percamos 
por caminhos já traçados
pelos pares humanos,
até que não sejamos
mais que clones de nós,
estranhos a nós mesmos.
Os sentidos que nos guiam
nos são servidos
em drágeas, dia a dia,
por vezes amenos,
por vezes amargos,
com requintes ou barbárie,
pela ação dos mercados
ou pelo frio entusiasmo
dos rebanhos domesticados,
todos e cada um deles
engrenagens do mesmo aparato,
o espaço-tempo da História,
palco das nossas derrotas
e das nossas vitórias.
O que pode haver
de mais vital e urgente
do que por em causa
as amarras que nos prendem
e sair a procurar-se
por onde quer que as pistas
se apresentem,
por onde quer que nos leve
a transvalorizar o presente?
Que mais dá sentido
à existência que paira mansa
sobre os dias em fúria
do que se apropriar
dos fundamentos
de nossas certezas e dúvidas
e, assim, nos sirvam
de legítimos guias
para pisarmos o próprio chão,
bem mais firme
que a areia movediça
que nos engolia?
Já que não existem sentidos
previamente definidos,
pobre do que não se lança
à tarefa de inventa-los
para a própria vida,
do contrário,
terá de engolir aos nacos,
sentidos por outros urdidos.
Içar a vontade como vela de proa
e sair à busca das verdades
que dormem em nós,
colhidas nas redes finas da crítica
de tudo o que se agita
no mar revolto de todas as vidas.
Quem mais propriamente
seria chamado de louco
pelos idos de 1900,
senão Nietzsche,
entre todos os outros?

Eliseo Martinez
02.11.2021

domingo, 31 de outubro de 2021

354.

Chilique ateu


Tu que insiste em nos querer
ver encaixotados,
nos  enquadrar em teu quadrado,
mas resiste em se espraiar
em nossa praia.
Tu que crê poder caber
Nova York em Nova Brescia,
fazer passar o trem em festa
pelo vão da porta aberta.
Tu que dá créditos ao criador
e desconhece a criatura,
que diz amar a música,
mas rasga a partitura.
Tu que oras piedosa
antes de te pôr sob as cobertas,
mas exalta falsos messias
e seus sectos de idiotas.
Além da pouca fé,
desculpe a falta de jeito
e a língua afiada
dos que nunca contaram
com os céus prá nada.
Manda emoldurar
teus pensamentos tortos,
pensados pelos há muito mortos
e pendura junto ao gesso
da santinha que te promete
melhor sorte.

Eliseo Martinez
31.10.2021

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

353.

Criação

Potências irresistíveis se propagam pelo espaço,
irradiando-se por mundos inimagináveis,
transpassados por cataclísmicas tempestades,
inoculadas pelos poros e redes de condutores,
à passagem desses assassinos criadores,
no pulso uno e contínuo desde origens sem início.
Dissolvem-se os rudimentos evolutivos
ante demiurgos que passeiam em plenitude
pelos berçários de anomalias
por eles criados, como tudo.
Povoando de seres os domínios do nada, 
princípios ininteligíveis para a física
espalham sementes de ordem
pelos campos da desordem,
ora iluminando o âmago das trevas,
ora extinguindo fulgurantes esferas,
a produzir hecatombes flamejantes
entre o que, pelos túneis de extermínio,
do lado oposto, ainda virá a ser outro,
recriado tantas e tantas vezes
que não há número que os conte.
Rastros de astros incandescentes
cortam o frio extremo do meio congelante.
Sem registro do que seja acima ou abaixo,
perto ou longe, tudo é fúria e movimento
em meio ao silêncio do vácuo, eternamente...
À natureza entrópica da matéria
funde-se o minúsculo efeito
produzido por colônias de organismos,
em seus átomos de carbono,
feito germes, vírus, humanos
sob o ronco surdo do giro dos motores.
Energias incontidas,
com que a trama do tempo é tecida,
fecundam o útero inchado do espaço,
sujeito aos imponderáveis elementos do acaso,
onde tudo é um e contrário a si mesmo.
Sem jamais expor à luz os ombros nus,
mistérios insondáveis germinam em toda a parte,
inaugurando as vastas pradarias da existência,
agora e sempre, indiferentes
ao que o frágil acordo das mentes
nomeou vida, simplesmente.
Realidades tão distantes de nosso entendimento
como o vazio sem fim que se derrama
para além do último corpo celeste
a orbitar a última estrela do errante multiverso.
E, no entanto, a teia viva lateja,
expandindo e colapsando sobre si mesma,
para voltar como singularidade, novamente,
a expandir-se, sem desvelar seus segredos
ante nossa pálida consciência e vívidos medos.

Eliseo Martinez
15.10.2021

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

352.

Barcelona


Entre os pilares de Córdoba
e os ares de Valência,
vem-me pelas dobras da memória,
Barcelona, alegre e densa,
com seus encantos e armadilhas,
suas noites fervilhantes
e o lume de seus dias.  
Velhas raízes ibéricas
fundiram-se à força
de braços e ideias.
Romanos, judeus,
cristãos e mouros,
murmuram por trás da arte
de Gaudi, Miró, Dali
e nas canções de Serrat,
que não canso de escutar.
Nascida Barcino,
na história de seus filhos,
fez-se derradeira resistência
à falange e seus pesadelos,
espalhados pela Espanha.
Hoje, pelas ramblas
e sacadas embandeiradas,
é feita de duas vontades,
a de reafirmar sua unidade
ou seguir fazendo parte,
mas sempre orgulhosa
da própria identidade.
Com toda a cólera destes dias,
soube compor o verso castelhano
com o verbo catalão,
bem mais antigo,
ouvido pelo bairro gótico,
no Montjuic, na Boqueria,
junto ao gato da Raval,
nas areias de Barceloneta,
à beira do mar interno,
onde navegaram suas naus
e encantam suas mujeres.
Barcelona, Cidade aberta,
é dos que nela viveram sempre
mas, multicultural, também
se fez pátria de toda a gente.

Eliseo Martinez
16.09.2021