Fuligem dos dias
Tu que passas de lado,
com passo desabrigado,
temendo que as marquises
dos edifícios venham a baixo
e te partam as ideias.
Tu que contornas bueiros,
temerosa que em sua fome
de ralo te engulam inteira.
Tu que não dispensas guarda-chuva
na bolsa que seguras,
band-aid, aspirina, ataduras.
Tu que temes amar
para não padecer da dor do amor
ao dividir teu cobertor.
Tu que te preservas de todo perigo,
para um pouco e pensa comigo.
Não há resguardo maior
do que deixar o centro para viver
à segura distância do medo.
De tudo o que nos aprisiona,
ele é o primeiro dos carcereiros,
com seus "nãos", "ainda não é hora",
"passou meu tempo", "talvez um dia",
"largo tudo e vou-me embora"...
Agora, pensa ainda mais um pouco.
Pensa nas bravas amazonas,
nas índias brasileiras,
guerreiras helenas,
bruxas e santas feiticeiras.
E, neste ardor de mais pensar,
há de renascerem, aguerridas,
mais malenas.
Eliseo Martinez
03.05.2022
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