Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 19 de maio de 2022

395.

Quero ser Bukowski

Fui cobrado por ser
um velho sem modelos.
Que posso eu dizer?
Na infância, nunca quis ser
bombeiro, milico,
nem heroico marinheiro.
Já na adolescência,
me agradou a figura
de um hippie mochileiro
e me fui, Brasil inteiro.
Nos tempos de faculdade,
era Sartre, mais tarde, Lukács,
Proudhon e, até, Marx.
Viajei na luta de classes,
hoje, é o que mais me vale
do que trago na bagagem.
Por aí, fui atropelado
pelo TEU carro da maldade.
Depois disso, fui nada.
Menos que nada,
fui um merda de um escriturário.
Mais adiante, virei mestre escola.
Ensinei e aprendi com rapazolas.
Voltando ao que me cobraram...
Deixa-me pensar um pouco...
Como velho mal comportado,
que me resta senão ser, talvez,
um... ativista depravado,
por que não, um bukowski?
É, eu podia ser Bukowski!
Vou deixar crescer a barba.
Meu banho quase diário,
vai ser só no meu aniversário.
Vou ser o profeta das bacantes,
poeta de bacanais,
embaixador do carnaval
no mais funesto funeral,
metido em chinelas velhas,
de cueca e avental.
Sim, quero ser Bukowski!
Só nunca me agradou
as muito jovens.
De resto, não carece ser de jeito,
pode vir bichada de piolhos,
ser birolha e, até, sem dente,
levando rebento ao ventre.
Vai ter de ter sovaco cabeludo
e, na hora, vir com tudo.
Se rezar, que reze a um duende;
ame e peide impunemente;
devassa colombina que diga 'sim'
a despudorados arlequins,
faça sobre a cama ou rés do chão
e seja poliglota em palavrão.
Sendo Bukowski,
deixarei de me importar
com o pó acumulado pela casa,
calcinhas, brincos, pulseiras,
esquecidos pelo quarto.
Sonharei com putas trapaceiras,
messalinas mandingueiras,
casadas desamadas,
viúvas necessitadas...
Mais que isso,
erigirei à porta de entrada
um altar às rameiras, prostitutas,
cônscio das agruras
no exercício da labuta.
Vou andar nu em pelo
pela Borges de Medeiros;
declamar poemas sujos
em plena Rua da Praia,
desdenhando dos aplausos,
degustando cada vaia;
cheirar carreiras na varanda
e, se não eu, mando outro
afanar a tuba da banda,
subo no palanque e musico
odes à bunda dos passantes.
Vou exigir do inquilino
que me pague em dose dupla,
tequila, vodca, cana pura...
Se tu tiveres mãe, te faço o favor
de apaziguá-la dos calores,
depois de pôr a santinha
atrás do vaso de flores.
No entanto, te aligeira,
antes que eu seja encontrado,
bêbado, alvejado, no fundo
escuro de um beco imundo.
Terei vida curta, é certo!
Mas, cada momento será festa,
uma profana oferenda
as paixões desenfreadas
e tudo o mais que desde Baco
foi, dos sátiros, cristianizado.
Com sincera e mundana emoção,
depositarei rosas vermelhas
ao pé da pira dos desejos,
exaltando cada sentido
em memória dos malditos.
Enfim, deixo um último desejo:
raspem a inscrição "não tente",
do mármore de minha campa.
Gravem, lá, com bronze quente,
"ainda é tempo, se arrebente".
Tudo há de valer a pena,
enquanto a sede não é pequena.
Ah! Já ia me esquecendo.
Aos que perguntarem
se valeu a pena, direi apenas
que mais vale sair ensandecido
à busca do bicho livre, em nós
adormecido, que viver como
um fulano domesticado e triste.
É! Vou ser Bukowski!

Eliseo Martinez
19.05.2022

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