Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 23 de maio de 2023

454.

As palavras

Palavras são miçangas
enfiadas em fios de frases,
joias tramadas
com letras desenhadas
e, pelas falas, musicadas.
Palavras são armadilhas
que, quando bem armadas,
fazem de presa os que se calam.
Podem ser setas envenenadas,
podem ser o unguento 
em nossas chagas.
Palavras são falsas, verdadeiras,
são tristes, alvissareiras,
ou se movem indomáveis,
desaparecendo como rastros na areia.
Aos loucos pertencem essas,
livres de sentido que as congelem.
Palavras podem ser sutis e perigosas
quando se revestem de ácida ironia
ou, carregadas de farpas,
ao se fazerem jocosas.
Concedem o perdão
ou nos condenam à prisão,
dizem sim ou dizem não.
Palavras podem ser tudo
o que nos resta, o sussurro
de quem deita ao nosso lado
ou, simplesmente, vazias,
quando estão cheias de nada.
Palavras são doces, cativantes,
nas juras dos amantes
mas, também, podem ser duras
na despedida dos que se amavam,
sem medo, antes.

Eliseo Martinez
23.05.2023

sábado, 20 de maio de 2023

453.

Tempos de louvor


Talvez como nunca antes,
neste nosso mundo claudicante,
tudo se deva louvar
para seguir adiante.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
Agora, afirmam os pastores,
onipresentes pelos televisores,
um pix garante conforto e favores
do que, por nós, morreu na cruz.
Em nome do Todo Poderoso,
barganham-se indultos medievais,
isentando do pecado o pecador.
O bem e o mal são negociados
a preços de mercado, mas pela cara
do cliente podem ter preço majorado.
O Senhor é exaltado,
acima de tudo, acima de todos,
por fiéis com olhos injetados
de ódios desenfreados aos que,
sobre si, tem o dedo apontado.
Se nos sentimos sós
ou o mal acerca-se de nós;
o caso é melancolia, empresa falida,
discórdia no seio da família
ou vírus a que se negue vacina,
o remédio é um só:
Padre Nosso e Ave Maria,
galo preto na esquina,
karatalas Hare Krishina
e uma modesta contribuição
que agilize o serviço.
De desejo perverso à pedra no sapato,
tudo é objeto de súplica pela graça
do amor na ira insana do Criador.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
Crenças ungidas em celas centenárias
e salões de seitas recém criadas
calibram a fúria das manadas.
Padres, mulás, pais de santo, pastores,
rabinos, gurus de túnicas multicolores,
cada um com sua única versão do divino,
são os que tocam o sino.
Lançar-se ao esforço de decifrar o mundo,
não é receita prescrita nas escrituras;
cânticos, rezas, oferendas, incensos
dão mais certo que penar às escuras.
Credos de todo o tipo estufam os bolsos
dos ventríloquos de Cristo, Alá, Lama
ou Orixás das terreiras sem tanta fama.
Caso necessário, arranjos são operados.
Promove-se o sócio de Deus, o Diabo,
ao comando dos negócios sagrados,
em novo estágio remunerado.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
É a covardia ante a vida,
mas também, boa dose de preguiça
de ir à busca do que a decifre.
Segue, assim, o rentável ofício
de fazer dos homens as crianças
que já não creem em lobisomem
mas, em passiva servidão,
louvam criaturas criadas
nos conluios da religião.
Se não basta razão para explicar tudo,
abrir mão do que define o humano
não é a resposta que precisamos.
O homem inventou Deus.
Ignorância, medo e preguiça
fizeram dele mentira jamais vista.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.

Eliseo Martinez
20.05.2023

sexta-feira, 19 de maio de 2023

452.

Aquele lá

Aquele que lá vai,
margeando pela calçada
com ar meio sem graça,
conheço de longa data.
É feito peixe enredado
em redes caiçaras.
Enlaçou-se tantas vezes
que vai com o passo preso,
carregado de seus cacos,
sob o peso das memórias.
Tantos nós mal desatados,
tantos restos de amarras,
tanta história...

Eliseo Martinez
19.05.2023

quinta-feira, 18 de maio de 2023

451.

Não há que se andar triste
nesta nossa caminhada,
como todos sabem,
o caminho é longo
e o tempo, nada.
Por almejar algo mais
que o grão do pão,
por vezes, esquecemos
que tudo não é mais que ilusão.
Ah! Se déssemos ouvidos
a tudo que se sabe, o tagarelar
das vozes não irromperiam
na quietude das madrugadas,
na escuridão do nosso quarto.

Eliseo Martinez
18.05.2023

domingo, 14 de maio de 2023

450.

O aviso de Hannah

Quanto a nós, não faltou ponto ou linha
sincronizando nossas geografias,
tampouco nos faltaram afinidades
ou similitudes no propósito de vida.
Gim tônica, literatura,
revolução e estrada...
O ímpeto dos sentidos, a inquietude,
o desejo, a caminhada...
Mas, por mais que não faltasse o que nos unia,
quando o mal, que sempre espreita,
esgueirou-se pelas frinchas das nossas vidas,
a fuligem, a força do viço e os apelos do mundo
nos fizeram mergulhar no brilho
opaco das possibilidades.
E olha que Hannah já nos havia avisado...
Depois de seguir confiantes,
mão na mão pelos caminhos,
parece que cansamos do aconchego do ninho
e, descuidando dos rumos já traçados,
nos deixamos seduzir pelo irresistível
acenos do presente e seus ícones dourados.
Talvez não tenha sido a barganha mais sensata,
mas nossas mãos estavam repletas de ases
e acabamos por fazer uma aposta desastrada.
Pagamos para ver, sem perceber
que banalizávamos essa coisa rara
chamada cumplicidade.
Foi o que bastou,
levando cada um de nós dois para outros lados.
E olha que Hannah já nos havia avisado...

Eliseo Martinez
14.05.2023

sábado, 13 de maio de 2023

449.

Sou uma fraude

Uma fraude é o que sou.
Escrevo coisas que não sinto,
sinto coisas que não entendo,
entendo coisas pelo avesso e,
entre o início e o fim de cada uma,
já não sei bem o que vai ao meio.
Como muitos antes, vindos
ao mundo num treze de junho,
estou longe de ser o melhor
intérprete de mim mesmo.
Mais que escrita,
sou rascunho do que estou, inerte
sobre a mesa em que me escrevo.
Talvez por isso nos chamam gêmeos.
Quando um fica para trás,
o outro apressa o passo,
se fazendo de ligeiro.
Quem nos salva é aquele outro
que por vezes é Alberto ou Ricardo
ou o tal Álvaro de Campos
e até outros, que ao fugir à regra,
vai redimindo a malta toda.

Eliseo Martinez
13.05.2023

sexta-feira, 12 de maio de 2023

448.

Os fios de todos nós

Que hoje somos mais fragmentados
que em gerações passadas
é hipótese das mais plausíveis,
e nem mesmo constitui
novidade um tal deslize.
No entanto, não é razoável
que, para seguir em frente,
se passe a negar o fio
que nos conduziu até o presente.
Sempre me pareceu ato desesperado
mobilizar esforços
para pôr-se em fuga do passado,
como faz o rato que tenta
roer a própria cauda ou o coelho
que vive a fugir do lobo, assustado.
Todos temos direito a nossa história,
com seus desertos, planícies
e planaltos acidentados.
De fato, a pureza é uma construção
dos teólogos, dos românticos incuráveis
e dos agentes sanitários.
Nada resiste ao tempo, imaculado,
a essência de tudo é já nos vir
com o diverso, misturado.
Talvez nos seja mais útil aprender
a trançar com o véu do esquecimento
o lume das lembranças de cada raro
e precioso momento,
sem nos deixar levar pelo impulso
de arrasar campos inteiros
das tantas vidas que vivemos,
a seu tempo, por inteiro.
Resgatar para ressignificar
nossas memórias,
antes de um excesso de nostalgia
encravado no agora,
é afirmar e ter apreço por nós mesmos,
podendo olhar nos olhos ante o espelho,
com os acertos e erros cometidos
no curso do trajeto em que nos vemos.

Eliseo Martinez
12.05.2023

sábado, 6 de maio de 2023

447.

Epitáfio hedonista

Das muitas mensagens a serem
gravadas na laje do túmulo
do amor desconhecido,
talvez uma fosse imprescindível:
"Sem vestígio dos corpos
que as reconheçam,
nem mesmo nomes varridos
da memória que permaneçam,
restam no oco desta cova anônima
os ossos retidos dos momentos
que fizeram menos cinzas os meus dias,
alegrando o mais da vida.
De alguma forma, amadas no passado,
mas jamais perdidas."

Eliseo Martinez
06.05.20123

sexta-feira, 5 de maio de 2023

446.

Paixão

Há sentimentos deveras tão intensos
que consomem em febres quem os sentem.
Eu e tu não fomos para sempre,
mas nossa meia vida juntos foi suficiente
para riscar a lente com que vemos
muito do mundo que passa a nossa frente.
É certo que as paixões arrefecem,
mas se engana quem acha
que elas simplesmente desaparecem.
Antes, se enovelam num buraco
que nos abrem no vão do peito
e ficam ali, hibernando acueiradas,
longe das vistas, fora do tempo.
Nada mais sei de ti 
e, talvez, seja melhor assim.
Quanto a mim, já não levo na aljava
o feixe inteiro das setas que nos magoaram.
Umas, ressecadas, se quebraram;
outras, feitas com vara verde,
já não servem ao arco dos desejos.
Umas poucas guardo comigo,
pois viver se faz preciso.

Eliseo Martinez
05.05.2023