453.
Tempos de louvor
Talvez como nunca antes,
neste nosso mundo claudicante,
tudo se deva louvar
para seguir adiante.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
Agora, afirmam os pastores,
onipresentes pelos televisores,
um pix garante conforto e favores
do que, por nós, morreu na cruz.
Em nome do Todo Poderoso,
barganham-se indultos medievais,
isentando do pecado o pecador.
O bem e o mal são negociados
a preços de mercado, mas pela cara
do cliente podem ter preço majorado.
O Senhor é exaltado,
acima de tudo, acima de todos,
por fiéis com olhos injetados
de ódios desenfreados aos que,
sobre si, tem o dedo apontado.
Se nos sentimos sós
ou o mal acerca-se de nós;
o caso é melancolia, empresa falida,
discórdia no seio da família
ou vírus a que se negue vacina,
o remédio é um só:
Padre Nosso e Ave Maria,
galo preto na esquina,
karatalas Hare Krishina
e uma modesta contribuição
que agilize o serviço.
De desejo perverso à pedra no sapato,
tudo é objeto de súplica pela graça
do amor na ira insana do Criador.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
Crenças ungidas em celas centenárias
e salões de seitas recém criadas
calibram a fúria das manadas.
Padres, mulás, pais de santo, pastores,
rabinos, gurus de túnicas multicolores,
cada um com sua única versão do divino,
são os que tocam o sino.
Lançar-se ao esforço de decifrar o mundo,
não é receita prescrita nas escrituras;
cânticos, rezas, oferendas, incensos
dão mais certo que penar às escuras.
Credos de todo o tipo estufam os bolsos
dos ventríloquos de Cristo, Alá, Lama
ou Orixás das terreiras sem tanta fama.
Caso necessário, arranjos são operados.
Promove-se o sócio de Deus, o Diabo,
ao comando dos negócios sagrados,
em novo estágio remunerado.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
É a covardia ante a vida,
mas também, boa dose de preguiça
de ir à busca do que a decifre.
Segue, assim, o rentável ofício
de fazer dos homens as crianças
que já não creem em lobisomem
mas, em passiva servidão,
louvam criaturas criadas
nos conluios da religião.
Se não basta razão para explicar tudo,
abrir mão do que define o humano
não é a resposta que precisamos.
O homem inventou Deus.
Ignorância, medo e preguiça
fizeram dele mentira jamais vista.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
Eliseo Martinez
20.05.2023