Cidade das Águas
de forças (im)previsíveis da natureza.
Aos poucos, íamos esquecendo
o rastro fatídico dos ciclones
e os horrores da pandemia,
que nos levou milhares de vidas.
Mal livres das recentes cheias, novamente,
neste maio de incertezas,
testemunhamos as águas invadirem
ruas e residências da Cidade, por vezes,
cobrindo os postes de eletricidade.
Morte e gente desabrigada,
com olhos úmidos de lágrimas,
obrigada a abandonar às pressas seus lares,
vendo tudo que possuía ser levado pelas águas.
O Guaíba aproxima-se da impensável marca
de cinco metros e meio acima de seu nível,
na terceira cheia dos últimos oito meses.
Na vasta área inundada,
bairros permanecem dias sem luz e água,
nesta que é a maior catástrofe climática
no país, já vivenciada.
Por semanas, a chuva forte não dá trégua,
minando as esperanças do povo desta terra
que, ainda assim, luta o quanto pode
e não se entrega.
O cheiro fétido dos esgotos
empesta lugares por onde passeávamos,
pracinhas em que nossas crianças brincavam,
os caminhos dos trabalhadores ao trabalho.
Bueiros, entulhos e galhos partidos,
agora, são perigosas armadilhas.
A lama engole automóveis e casas,
invade privacidades, expondo a triste realidade
de que bastam minutos para que tudo vire nada.
Nas imagens de TV, a lama imunda cobre camas,
está nas prateleiras, dentro dos fogões,
das geladeiras.
O centro da capital dos gaúchos, agora,
é uma imensa piscina de águas sujas,
onde flutuam o Mercado Público,
monumentos, prédios, a Prefeitura...
Para o espanto de crentes e ateus,
garças pescam nas vielas da Praia de Belas,
jacarés são vistos pelo Menino Deus,
piranhas nadam livres em Ipanema.
A Cidade Baixa já é rio
e os supermercados exibem seus corredores vazios.
A comovente cena do cavalo Caramelo
no telhado, que ia desaparecendo na enxurrada.
O trágico ainda não deu nome a outro equino,
esperando socorro à janela
do terceiro piso do condomínio.
Na periferia, corpos inchados de porcos inanimados
presos no alto das árvores, são sinistras bolas natalinas
dependuradas nos galhos dos pinheiros naufragados.
Crianças levadas para abrigos, separadas dos pais
que ficam sem saber do paradeiro dos filhos.
Árvores tombadas, cães, gatos, águas contaminadas...
A leptospirose faz suas primeiras vítimas
enquanto os políticos disputam lugar na vitrina.
Corpos de seres humanos e animais já sem vida
boiam livres na torrente líquida das avenidas.
Ante os olhos de todos,
ilhas desaparecem sob a linha d'água,
submersas na paisagem desolada.
Hoje, somos um imenso e lúgubre lago
sob um céu de águas.
Muitos falam do quanto estes horrores
revelam o bem e o mal no ser humano.
Saques ocorrem por toda a parte
e tem aqueles que, da segurança de suas casas,
usam as redes para espalhar notícias falsas,
dificultando que vidas sejam salvas.
Hackers direcionam donativos
para contas fantasmas.
Mulheres e crianças sofrem abusos
na precariedade dos abrigos,
que deveriam ser os derradeiros
portos seguros das mães e de seus filhos.
Com toda a dimensão da calamidade,
não tem como não agradecer
as milhares de toneladas de alimentos,
roupas, medicamentos e água potável
que, diariamente, do país inteiro são enviados.
Noite e dia, voluntários de toda parte
se entregam heroicamente,
em seus jet-skis e barcos, alguns improvisados,
ao resgate de famílias e pessoas ilhadas
no alto dos apartamentos inundados,
no desespero de que as águas
cheguem ao teto das moradas
ou que, sem eles, as casas sejam saqueadas.
Voluntários incansáveis ocupam-se do alimento
dos que nada tem para comer, travando a batalha
no improviso das trincheiras das cozinhas solidárias.
Tanta dor, tanta perda;
sonhos e memórias, literalmente,
levados pela correnteza.
Quantos, sem ter como recomeçar,
só encontram algum consolo na dura vida
que lhes foi poupada,
até que as águas subam novamente,
fazendo sofrer a nossa gente,
sob o descaso e incompetência das autoridades...
passam os gaúchos há o que ser exaltado:
a vontade doída do recomeço
e o que mais vale e comove, a solidariedade.
Eliseo Martinez
20.05.2014
Nenhum comentário:
Postar um comentário