Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 11 de junho de 2024

473.

Desadolescendo


Aos poucos foi percebendo
que cada ato, cada fala,
cada versão da coisa anunciada
trazia oculto um outro significado,
como se um arranjo entre as partes
segredasse sobre os fatos
reservados aos iniciados.
Percebeu, também, que nestas coisas
não se conta com aliados,
cada um é o próprio garimpeiro
a garimpar suas verdades.
Cansado de não saber
o que os demais compartilhavam,
pôs às costas o pouco que tinha
e se foi ao mundo 
como intrépida andorinha.
Conheceu lugares e pessoas,
fez coisas boas e coisas tolas
mas, ao fim, descobriu
que só aprendeu a trapacear
como os outros já faziam.
Depois de tanta andança,
desencantado do pouco ganho,
sem crença que lhe valesse,
se deixou conduzir pelo cortejo
fácil dos desejos,
em fuga do mundo enfermo
e de si mesmo.
Nesses tumultuados anos da adolescência,
reduzido ao caroço da existência,
fez-se viajante de insólitas viagens
pagas às custas da inocência.
Acordou certa manhã,
esfregou os olhos e, incrédulo,
viu-se no meio do deserto.
A sua frente erguia-se, intransponível,
um muro de concreto.
No tal muro, ao som zumbido do neon,
sorria-lhe com escárnio
a imagem cintilante de um anão,
trazendo um cravo escarlate
tatuado no braço
e duas setas quebradas que se cruzavam.
Nada do que via parecia verossímil.
Confuso, à princípio, prostrou-se indeciso,
suspeitando da desdita do juízo.
Ali, imóvel, ficou a olhar o anão
com ar impertinente,
necessitando de algum tempo
para decifrar a figura fluorescente
luzindo na parede
daquele muro inconsistente.
Deveria se quedar paralisado
no lugar onde se encontrava,
vasculhando-se pelo avesso
a cogitar sobre imagens que,
possivelmente, nada significavam
ou seguir adiante,
penetrando nas entranhas
da miragem a sua frente,
dando uma banana às parecenças?
Para transpor o muro imaginário,
praguejou, conclamou coragens,
invocou heréticas divindades.
Passo dado, retomou sua jornada,
abandonando, mais uma vez,
as tralhas que carregava
para sair em busca de alguma ordem
no caos a sua volta,
na recusa de se deixar levar
pelas areias movediças do passado
e o desnorte dos ventos da revolta.
Na busca de sentido que desse conta
de compreender os rumos da própria vida,
menos com as luzes da razão
do que com a centelha da intuição,
foi descobrindo unguentos
para o olho redondo dos de fora
e o odioso ferrão da contradição
que, os que se importam,
sempre levam ao coração.
Disposto a contornar os oásis da ilusão,
soube que até o último de seus dias
as cicatrizes, onde foram tatuadas, restarão.
Não foi muito mais longe do que isso,
mas ao aceitar o inevitável,
chegou um pouco mais perto
de tornar-se si mesmo,
afrouxando antigos nós do enredo
de que era feito
e, só então, pode ser visto
a dois passos de ser feliz,
como era mesmo do seu jeito, imperfeito.

Eliseo Martinez
01.06.2024

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