Treze de junho
Mais um treze de junho
em que o calendário avisa
aos filhos do outono
que o presente não foi dado
para sempre e dá notícias da vida,
que não passa de aluguel a curto prazo,
bem mais curto do que, a início,
o inquilino imaginava.
Quando votos de feliz aniversário
cada vez me fazem menos falta,
curado dos males da saudade
acueirada no passado,
ainda assim, ao olhar para trás,
vejo quantos mais jovens, belos
e melhores por mim passaram,
para terem suas vidas abreviadas,
dissolvidas num mar de nada.
No mais, bem envelhecer,
antes de lembrar, é esquecer
para abrir espaço no sítio abarrotado
em que a juventude já nos esbaldava
com tanto sabor misturado que mal
sentia-se o gosto do que se provava.
Ao final, o que mais vale é o que passa
pelas malhas da idade, ficando tudo o mais
sob a luz que se distancia no rastro
de nossa pequena eternidade.
Não me entenda mal.
Nada há que ser jogado fora,
nenhuma vivência há que ser negada.
Mas também não há que se revirar
o que está bem arrumado e, ainda assim,
nos aquece de onde repousa acomodado.
A dádiva do presente se impõe
ao que foi e ao que ainda venha,
congelando o que o desejo, o medo
e a angústia sempre elegeram por primeiro.
Hoje, sob o feito e o desfeito nesses anos
todos, uma única gota sacia-me a sede
que oceanos, antes, não saciavam
na abundância de suas águas.
Enfim! Envelhecer, para mim,
é um pouco, também, isso.
Eliseo Martinez
13.06.2024
Compartilho desse encontro escritor/escrita, primeiro, pela especialidade da data (13/06) que deu vida ao escrito. Embora, o autor entenda que não faz falta a lembrança, a memória e a felicidade desejada.Depois, pela questão abordada: envelhecimento, pela atualidade do tema.Fica a pergunta: em que consiste esse "envelhecer bem" e/ou "bem envelhecer? Um "avião sem asa"? "tempo de delicadeza", como refere o velho Chico Buarque? Uma conquista. Talvez a definição venha no próximo capítulo...
ResponderExcluir"Bem envelhecer", para mim, minha querida Dra. Fátima, é dar sequência - e radicalizar - o "desadolescer".
ResponderExcluirÉ dar-se por merecer as mais loucas cavalgadas, como um cavalo que ser vai sem monta pelos prados; arredio, embora preso a tempo e espaço, mas também dispor-se a ser outro ao apaziguar-se de um lote das inquietudes no entardecer da tarde.
E, na tranquilidade que o invade, poder beber da fonte de águas frescas, adormecendo sob um céu e estrelas.