Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 22 de dezembro de 2024

494.

Resposta a Tua Carta


"Bem envelhecer",
para mim, minha cara,
é, sendo o mesmo e sendo outro,
a um só tempo,
dar rumo ao que se passa,
pois nada vale mais que ser
o timoneiro do próprio barco
e, em modo "desadolescer",
estar atento ao que gruda em nós,
recusando-se em desaparecer.
É já não duvidar que a melhor colheita
é feita pelas mãos que deitaram ao chão
suas sementes.
É dar-me por merecer
as mais insones cavalgadas,
como um cavalo que se vai
sem monta pelos prados;
indomado, embora preso
ao tempo e ao espaço,
mas, também, disposto
a apaziguar-se ao cair da tarde.
Bem envelhecer é,
na tranquilidade que me invade,
beber da fonte de águas frescas
e adormecer sob um céu
coalhado de estrelas,
em paz comigo mesmo.
É ter ao lado a cúmplice
dos meus pecados,
um par na quadra,
a quem confesse meus fracassos
e medos inconfessáveis.
Acima de tudo, para mim,
bem envelhecer é fazer as pazes
com o tempo, sabendo que nele vivem
as memórias dos melhores momentos,
sem as quais apenas nos restam
amarguras e ressentimentos.
Quanto aos dissabores,
há que deixar que o mesmo tempo,
pacientemente, os vá resolvendo,
até desaparecerem sob o espesso
manto do esquecimento.
Bem envelhecer é ter
forjado na consciência
o fio que guiou minha existência
e poder dizer que, desde sempre,
infiel, que sou, me enamorei
da beleza e da liberdade,
amei mulheres e por algumas delas
fui amado e, por toda a parte,
persegui as fugidias
enguias da verdade,
cumulando inimigos
que me riscaram na carne cicatrizes
que, hoje, são minhas
medalhas de batalhas.

Eliseo Martinez
22.12.2024

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

493.

A Lebre e a Tartaruga


Do que há a exaltar
destes tempos controversos,
uma coisa parece certa.
As cores do arco-íris
são muitas e diversas.
Nossas pequenas vitórias
podem valer pouco a outros olhos,
mas o que conta é que são nossas.
Em algum momento,
para conquistá-las,
fomos mais que somos
e, assim mesmo, é que nos vamos.
De nada vale comparar
o incomparável.
A intenção de medir
com a mesma régua os diferentes,
apenas servem para encobrir
injustiças e preconceitos.
Talvez o grande desafio seja
controlar o ego e uma certa
noção de identidade,
ampliando espaços
ao leque das qualidades.
Para alguns, como a tartaruga,
mais vale o aconchego
de levar a casa às costas;
para outros, feito a lebre,
o que importa são patas ágeis
para não ser presa fácil.
Tudo é muito mais
do que o certo ou o errado,
que o acima ou o abaixo,
que o virtuoso ou o desregrado.
E por falar em regras,
muitas delas se criaram
apenas para dar a poucos
o que a muitos é negado.

Eliseo Martinez
18.12.2024

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

492.

Lume


Já não se enviavam mensagens
em garrafas que flutuassem mares
para adernar em alguma distante margem
e, pombos correios, não eram mais o caso.
Inconformado, pensou num jeito
de deixar palavras
que não careceriam ser amodernadas,
ainda que vindas do passado.
E foi assim que se viu a registrar a fala
numa pequena tela iluminada.
Escolheu escrever à neta
no dia exato de seu sexto aniversário.
Quem sabe, as tais palavras,
lhe servissem para algo.
O que dizia era mais ou menos assim:
Não se engane, minha criança,
sempre há o que fazer,
nem que seja deixar acontecer.
Uma coisa parece certa,
o movimento faz parte do remédio,
nada melhor que ele
para manter distante o tédio.
Cuida dos inevitáveis nós
em que as contradições nos prendem,
fazendo-os mais frouxos,
menos resistentes
e nunca deixe de desconfiar
do que passa por perfeito.
Já o perigo das calmarias
é levar a vontade do enfermo à letargia,
fazendo o sangue secar nas veias,
até que, havendo corpo,
já não haja seiva.
Mas lembra de uma coisa ainda,
nada disso valerá de algo
se não houver lume, pequeno que seja,
a arder na alma pela força do desejo,
te fazendo contornar o medo.
É o que faz bater um coração,
minha querida.
Na falta de outro nome,
chama isso de paixão.
Para mim, o que dá sentido à vida.

Eliseo Martinez
17.12.2024

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

491.

Eriça-me


Eu, ali passando,
despreocupado e sem eira,
olhos postos no horizonte
curvando-se sobre a Terra,
a divagar no que parece ser
a última fronteira,
na borda do giro lerdo da esfera.
Não mais que de repente,
sob o sol de dezembro,
no pulso de um segundo,
se dissolve meu sossego
ante o que transcende,
imprevisível, neste mundo.
Vinha toda trigueira,
embalando um passo lento,
sorriso desencabulado,
cabelo solto ao vento.
Majestosa e estonteante,
pés descalços na areia,
cruzou por mim à beira-mar.
E, comigo mesmo, em silêncio,
falei contigo coisas que
só se falam com as sereias.
Pobre garota de Ipanema,
levada a te ceder lugar
na torre da beleza.
Foi então, louvando a criação,
quase em oração, ateu, que sou,
que entoei meu ato de contrição.
Supondo que mereça,
faz o que te peço,
fazendo que aconteça.
Tu, que em sonhos,
há muito me visitas,
eriça-me o desejo
como fosse a primeira vez
em que te vejo.
Tu, que os olhares captura
na graça de tuas curvas,
que a natureza fez modelo
a humilhar às esculturas,
mata-me com teus lábios
úmidos de veneno.
Cola no meu torço
teu peito de ninfa sarracena.
Faz-me tu de intruso
de teu corpo nu, de bruços.
Conta-me mentiras
que alegrem os meus dias.
Com teus olhos de serpente,
escondas-me o que sei que mentes.
Em jogos que eu não esqueça,
extenua-me uma vez mais,
antes que desapareça.
Sai manhã afora sem revelar o nome,
livre do jugo de qualquer dono.
E, na vontade tua,
volta noite adentro sob a luz da lua,
com a urgência das fomes todas
a arder-te na pele crua.
Quando me dei conta, já ia longe;
ela, indiferente, pela Cal e eu,
em desassossego, na Praia Grande.
Juro que foi!
... ou será que foi só sonho
que se sonha acordado?

Eliseo Martinez
10.12.2024

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

490.

Rios de Calmarias


O mesmo rio que, dias antes,
era todo som e fúria,
neste fim de tarde,
não conta com brisa
que encapele suas águas.
Chega-se a escutar
as vozes da pouca gente
em dois sotaques diferentes,
ao cruzar a ponte pênsil.
No jogo silencioso das tarrafas,
tudo é paz e calmaria
sob um céu de cinzas, claro.
Da boca deste caminho d'água
mal se percebe o vai e vem
das ondas de outras águas,
as salgadas, mais profundas,
mais agitadas.
Os biguás, desajeitados,
cedo se recolheram e as capivaras
esses excêntricos visitantes,
ainda não deram o ar da graça,
acostumadas a vir em bandos
costeando a orla,
para passear pelas calçadas
e roer grama nas praças.
Nestas tardes calmas,
descortinadas de chuvas,
quando o sol declina lento
por trás do curso do Mambituba,
des-pensamos feito andorinhas
e não há nada que perturbe.
Estes raros dias de calmarias
desarmam armadilhas...

Eliseo Martinez
08.12.2024

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

489.

Grão do Tempo


Sabia-se nada!
Depois que sumisse dos cenários,
não seria por muito lembrado.
As memórias desbotam e se apagam,
viram páginas arrancadas.
As obsessões, essas não!
Ficam costuradas à pele dos corações,
à espera do que não tem solução.
Perduram como o suor dos que trabalham,
o amor dos sinceramente apaixonados
e a dor engasgada dos injuriados.
Dão um pouco mais de fôlego
as imagens que se apartam das paisagens
por viverem de um estranho arranjo
entre as ilusões e cacos dos fracassos.
Mas, trocando em miúdos,
de um modo ou outro,
há que parecer bastante
para a vida ser tocada adiante.
O mais sensato é nos ver
como grãos do tempo,
o breve sopro de um brevíssimo momento.
E, justo neste hiato da eternidade,
ser o habitante de si mesmo,
para ter onde voltar sempre que a vida
nos tire o chão em que pisar.
De tanto arrumar a casa
e a casa sempre desarrumada,
acaba-se por compreender
o que muito se fala
e muito pouco é escutado.
Vale mais pôr o sujeito
e seu querer em movimento
que nos atar a sonhos desfeitos,
obcecados pelo objeto da chegada.
Para nos fazer despencar das superfícies,
sempre pode-se contar
com as quimeras da poesia,
ainda que nos façam rimar o bem da alegria
com o mal da melancolia.
Antes de nos perder no raso desses abismos,
melhor tentar iludir o ilusionista
e, ao entreter o tempo,
ser grão do infinito.

Eliseo Martinez
02.12.2024