494.
Resposta a Tua Carta
para mim, minha cara,
é, sendo o mesmo e sendo outro,
a um só tempo,
dar rumo ao que se passa,
pois nada vale mais que ser
o timoneiro do próprio barco
e, em modo "desadolescer",
estar atento ao que gruda em nós,
recusando-se em desaparecer.
É já não duvidar que a melhor colheita
é feita pelas mãos que deitaram ao chão
suas sementes.
É dar-me por merecer
as mais insones cavalgadas,
como um cavalo que se vai
sem monta pelos prados;
indomado, embora preso
ao tempo e ao espaço,
mas, também, disposto
a apaziguar-se ao cair da tarde.
Bem envelhecer é,
na tranquilidade que me invade,
beber da fonte de águas frescas
e adormecer sob um céu
coalhado de estrelas,
em paz comigo mesmo.
É ter ao lado a cúmplice
dos meus pecados,
um par na quadra,
a quem confesse meus fracassos
e medos inconfessáveis.
Acima de tudo, para mim,
bem envelhecer é fazer as pazes
com o tempo, sabendo que nele vivem
as memórias dos melhores momentos,
sem as quais apenas nos restam
amarguras e ressentimentos.
Quanto aos dissabores,
há que deixar que o mesmo tempo,
pacientemente, os vá resolvendo,
até desaparecerem sob o espesso
manto do esquecimento.
Bem envelhecer é ter
forjado na consciência
o fio que guiou minha existência
e poder dizer que, desde sempre,
infiel, que sou, me enamorei
da beleza e da liberdade,
amei mulheres e por algumas delas
fui amado e, por toda a parte,
persegui as fugidias
enguias da verdade,
cumulando inimigos
que me riscaram na carne cicatrizes
que, hoje, são minhas
medalhas de batalhas.
Eliseo Martinez
22.12.2024