Eriça-me
despreocupado e sem eira,
olhos postos no horizonte
curvando-se sobre a Terra,
a divagar no que parece ser
a última fronteira,
na borda do giro lerdo da esfera.
Não mais que de repente,
sob o sol de dezembro,
no pulso de um segundo,
se dissolve meu sossego
ante o que transcende,
imprevisível, neste mundo.
Vinha toda trigueira,
embalando um passo lento,
sorriso desencabulado,
cabelo solto ao vento.
Majestosa e estonteante,
pés descalços na areia,
cruzou por mim à beira-mar.
E, comigo mesmo, em silêncio,
falei contigo coisas que
só se falam com as sereias.
Pobre garota de Ipanema,
levada a te ceder lugar
na torre da beleza.
Foi então, louvando a criação,
quase em oração, ateu, que sou,
que entoei meu ato de contrição.
Supondo que mereça,
faz o que te peço,
fazendo que aconteça.
Tu, que em sonhos,
há muito me visitas,
eriça-me o desejo
como fosse a primeira vez
em que te vejo.
Tu, que os olhares captura
na graça de tuas curvas,
que a natureza fez modelo
a humilhar às esculturas,
mata-me com teus lábios
úmidos de veneno.
Cola no meu torço
teu peito de ninfa sarracena.
Faz-me tu de intruso
de teu corpo nu, de bruços.
Conta-me mentiras
que alegrem os meus dias.
Com teus olhos de serpente,
escondas-me o que sei que mentes.
Em jogos que eu não esqueça,
extenua-me uma vez mais,
antes que desapareça.
Sai manhã afora sem revelar o nome,
livre do jugo de qualquer dono.
E, na vontade tua,
volta noite adentro sob a luz da lua,
com a urgência das fomes todas
a arder-te na pele crua.
Quando me dei conta, já ia longe;
ela, indiferente, pela Cal e eu,
em desassossego, na Praia Grande.
Juro que foi!
... ou será que foi só sonho
que se sonha acordado?
Eliseo Martinez
10.12.2024
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