Grão do Tempo
Depois que sumisse dos cenários,
não seria por muito lembrado.
As memórias desbotam e se apagam,
viram páginas arrancadas.
As obsessões, essas não!
Ficam costuradas à pele dos corações,
à espera do que não tem solução.
Perduram como o suor dos que trabalham,
o amor dos sinceramente apaixonados
e a dor engasgada dos injuriados.
Dão um pouco mais de fôlego
as imagens que se apartam das paisagens
por viverem de um estranho arranjo
entre as ilusões e cacos dos fracassos.
Mas, trocando em miúdos,
de um modo ou outro,
há que parecer bastante
para a vida ser tocada adiante.
O mais sensato é nos ver
como grãos do tempo,
o breve sopro de um brevíssimo momento.
E, justo neste hiato da eternidade,
ser o habitante de si mesmo,
para ter onde voltar sempre que a vida
nos tire o chão em que pisar.
De tanto arrumar a casa
e a casa sempre desarrumada,
acaba-se por compreender
o que muito se fala
e muito pouco é escutado.
Vale mais pôr o sujeito
e seu querer em movimento
que nos atar a sonhos desfeitos,
obcecados pelo objeto da chegada.
Para nos fazer despencar das superfícies,
sempre pode-se contar
com as quimeras da poesia,
ainda que nos façam rimar o bem da alegria
com o mal da melancolia.
Antes de nos perder no raso desses abismos,
melhor tentar iludir o ilusionista
e, ao entreter o tempo,
ser grão do infinito.
Eliseo Martinez
02.12.2024
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