Lume
em garrafas que flutuassem mares
para adernar em alguma distante margem
e, pombos correios, não eram mais o caso.
Inconformado, pensou num jeito
de deixar palavras
que não careceriam ser amodernadas,
ainda que vindas do passado.
E foi assim que se viu a registrar a fala
numa pequena tela iluminada.
Escolheu escrever à neta
no dia exato de seu sexto aniversário.
Quem sabe, as tais palavras,
lhe servissem para algo.
O que dizia era mais ou menos assim:
Não se engane, minha criança,
sempre há o que fazer,
nem que seja deixar acontecer.
Uma coisa parece certa,
o movimento faz parte do remédio,
nada melhor que ele
para manter distante o tédio.
Cuida dos inevitáveis nós
em que as contradições nos prendem,
fazendo-os mais frouxos,
menos resistentes
e nunca deixe de desconfiar
do que passa por perfeito.
Já o perigo das calmarias
é levar a vontade do enfermo à letargia,
fazendo o sangue secar nas veias,
até que, havendo corpo,
já não haja seiva.
Mas lembra de uma coisa ainda,
nada disso valerá de algo
se não houver lume, pequeno que seja,
a arder na alma pela força do desejo,
te fazendo contornar o medo.
É o que faz bater um coração,
minha querida.
Na falta de outro nome,
chama isso de paixão.
Para mim, o que dá sentido à vida.
Eliseo Martinez
17.12.2024
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