Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

501.

Pobre Ucrânia!

Na terra de Clarice,
abertamente, se flertava
com neonazistas e suas milícias.
De Washington
lançaram lhe a fatídica isca
embebida no veneno da malícia
e, insuflada de coragem,
começou a confrontar
os russos expansionistas.
Em pleno jogo,
o peão quis trocar de lado
e passou a acalentar o sonho
de se aninhar a NATO.
Fragilizada, ao neutralizar
suas esquerdas, fizeram
das vozes discordantes
seu inimigo mais importante,
enquanto as raposas
de fora do galinheiro
esperavam que o caos reinasse
no centro do picadeiro.
Agora, depois dos três
longos anos de guerra
e um milhão de mortos,
no mais recente banho
de sangue do ocidente,
é traída pelo falso amigo
estadunidense.
Pobre Ucrânia!
O ogro de cabelo alaranjado,
de uma tacada, cobra a conta
e, para a surpresa de todos,
convida os que há muito
traíram Lenin e seu próprio povo
a se unir numa insólita aliança.
Retalhada por russos
e americanos, encravada
numa Europa amedrontada,
paga com o próprio território
as dívidas contraídas
na aventura dos tanques e mísseis,
garganteada pelo bobo da corte,
seu presidente humorista.
Em busca dos recursos naturais,
a direita internacional
canibaliza seus filhotes regionais.
E, no final, dividem entre eles
o butim das terras raras
e os metais que vão dar
fôlego novo as maravilhas
da Tesla, da NASA e do I-Phone,
deixando aos ucranianos o ônus
da humilhação e do sacrifício.
Pobre Ucrânia!

Eliseo Martinez
25.02.2025

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

500.

Pedro


Nunca te escrevi.
Acho mesmo que,
nestes anos todos,
tentei esquecer
a lembrança de teu frágil
corpo maculado
em um canto de mim,
sombrio e mal arrumado,
onde nada, além de ti,
permiti existir.
Nem tempo tive
de te conhecer, de fato,
ou mesmo jeito de ter te amado,
meu guri desafortunado.
Já nascias como na canção,
pedaço arrancado de mim,
quando tua passagem breve
foi demais para suportar.
Confesso que tive medo
antes de chegares e, à partida,
deixou-me a ferida viva
que, ainda hoje, trago comigo.
Talvez tenha te culpado
pela dor maior que já suportei,
ao fazer ruir tudo o que
sempre quis construir
ao lado de alguém.
Só sei que morri um pouco,
bem ali, naquele triste 4 de janeiro,
te vendo lutar para respirar,
em desespero, antes mesmo de ter
consciência de teu nefasto paradeiro.
Me vi quebrado e impotente
ante o muro intransponível
que se levantou a minha frente.
Ainda lembro, com pavor,
da pequena urna branca
em que deitei teu corpo,
carregada em meus braços
até o nicho escuro do campo santo,
onde te neguei as rezas,
as flores e os prantos
dos ritos que te pertenciam,
tentando proteger quem, por ti,
também renunciava à vida,
naquele maldito dia.
Lembro das tardes,
à orla deserta, onde só o rio
ouvia os gritos deste animal ferido;
lembro da chuva no rosto
e de meus passos trôpegos,
tentando não sucumbir
a dor de te ver partir,
sem poder ter te acolhido.
Lembro do vazio nos olhos
de quem, com amor,
te trouxe à exígua vida...
Lembro do temor da volta,
com ela e a casa tomada
pela espuma dos dias.
Foram tempos de desespero,
quando me afastei de tudo,
a começar pela mulher que amava
e que te pôs no mundo.
Por anos não consegui falar teu nome
sem marejar os olhos d'água.
Conheci a bacia das almas
e, nela, sorvi do fel de toda mágoa.
Foram tempos bem difíceis,
até que, para me salvar,
tive de me perder...
De volta dos abismos,
sobrevivi nos braços
de amores fáceis,
procurando cheiro
nas flores de plástico,
me fazendo forte
quando era só um homem
devastado e fraco.
Mas guardo no meu peito
uma certeza, ignoto filho.
Seria um homem melhor
que sou, se tu, Pedro,
estivesse, hoje, aqui comigo.
Sinto que seríamos
mais que amigos,
Seriamos pai e filho.

Eliseo Martinez
04.02.2025

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

499.

Não!


O distrato inesperado
desfez o trato firmado
e o que parecia bem acertado,
num zap, foi cancelado.
Com o insólito desenlace,
as partes já não eram
partes de nada,
mas coisas apartadas,
seguindo desbaratadas
cada qual pro seu lado.
O que ficou foi a intenção
que não vingou
e o dano do que se perdia,
supondo que, dali,
algo de bom resultaria.
Talvez houvesse até
ganho no não.
Quem vai saber, quando
a oferta é de ocasião
e já não tem valor
de mercado o perdão?
Uma só coisa parece certa:
em tempos tão adversos
nada é mais incerto
do que carece do acordo
entre desejos diversos.
Claro como a água
que transborda dos brejos.
É! Acho que é o que,
também, acho.
Ou não?

Eliseo Martinez
30.01.2025

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

498.

A Insustentável Leveza
da Bem-aventurança


Tocado pela boa ventura,
em uma dessas noites sem lua,
imerso na mais perfeita paz de espírito,
varria com o olhar os confins do infinito,
ao som do cri-cri dos grilos.
Com toda a miséria de fundo,
ali, naquele bendito momento,
parecia que o mal havia partido,
tirando férias do mundo.
Nada a perturbar a existência,
posta entre parênteses,
nem mesmo o menor peso
a oscilar na balança da consciência.
Os problemas maiores, há muito sanados;
os menores, por hora, apaziguados...
... ou tão bem enterrados
que à superfície nem a laje
das lápides havia restado.
Na verdade, transitava pelo
quase-estado de vida sonhada
por feras e homens pacificados.
Mas...
De tão perfeito que estava,
começou a sentir falta de algo
naquele oásis de sossego,
estranho a alguém, assim, do seu jeito.
Devia ser coisa não oriunda dos conteúdos,
que facilmente se tornam assunto
nas rodas de poucas luzes,
mas coisa outra que emana
da forma e substância das essências
e encerra em si mesma
o sentido último da existência.
Assemelhava-se, mas não era de tédio
que se tratava.
Julgava, mesmo, que lhe era desconhecido
tal estado nefasto.
Começou a pensar no que havia
de constante na vida,
o que desde de sempre lhe faz companhia
e, por algum motivo,
naquele preciso instante,
tomara chá de sumiço.
Pensou, pensou e pensou mais um pouco...
Ao final percebeu que lhe faltava
o que sempre rondou pelo entorno,
feito corvos do mau agouro.
Simplesmente, faltavam as mazelas
e, assim, a fúria em si mesmo gerada
para dissolve-las.
Olhando em volta, com olhar mais atento,
não tardou muito para que se resolvesse
o dilema...
Sem causa aparente, viu-se no meio
do inesperado entrevero,
entre gritos, lâminas e cabeças partidas.
Sem apelo da pena,
deu adeus ao momentâneo conforto,
sentenciado a um par de meses
entre meganhas, afoitos e outros.
E... tudo normal, de novo!

Eliseo Martinez
28.01.2025

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

497.

O Cão e o Dono


O cachorro fazia o passeio do dono,
e o dono se fazia de tolo,
fingindo que sem o outro
havia mundo longe do ecrã da TV
e do conforto da poltrona.
E lá se iam os dois
a dar voltas na quadra,
comentando o passeio
entre latidos e falas,
sem saberem ao certo
quem puxava e quem era puxado,
mas seguros de que muito mais
que a guia os ligava.
Um preso ao outro,
eram solidões acompanhadas.

Eliseo Martinez
25.01.2025

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

496.

Os Quatro na Praia


O Sátiro, com o desdém de hábito,
correu os olhos pelo cenário,
pronto a ver nele o que havia de hilário.
Era tanto corpo estendido na areia,
tostando ao sol como peixes na frigideira.
Havia os descolorados, recém chegados
e os morenos, bem passados.
Mas o que chamava a atenção,
mesmo, eram os avermelhados,
tipo camarões assados.
O Irônico, com olhar mais largo,
se limitava a medir o senso
do ato disparatado,
depois de apontar contradições
que ninguém mais havia notado.
De um lado, o desconforto
do rito dos corpos expostos
sob o sol que tosta
e, de outro, o almejado bronze
que, em pouco, desbotará de novo,
voltando a ter a cor da bunda,
o resto todo.
A ambos, juntavam-se, ainda,
outros dois, os mais ingênuos 
e bem intencionados dos quatro,
enfileirando casquinhas de siri
com caipirinha no quiosque recuado.
O Otimista defendia que viver o dia
é o que conta;
o Pessimista, a insistir que o sol ainda
cobraria pela afronta.
Não mais que de repente,
o solitário observador deu uma
breve pausa aos divergentes,
dos muitos a que dava guarida
em sua mente.
- Ôh, do balcão!
Baixa mais uma vodca com limão.
E, assim, correu a tarde,
sem muito acordo entre as partes.

Eliseo Martinez
22.01.2025

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

495.

Harmonia Roubada


Hoje, cedo me fui ao mundo,
enquanto a cidade ainda
dormia seu sono profundo.
Depois de passar a noite
lambendo na praia, as areias,
o mar sem fim, rugia ao fundo,
no eterno avanço e recuo
sobre a faixa costeira.
Sem dim-dim ou automóveis,
sem o malho dos trabalhadores
das obras ou o pregão
dos vendedores de frutas,
sem a ruidosa alegria das praças
ou o movimento dos surfistas
com as pranchas debaixo dos braços,
sem os hermanos turistas
ou notícias de desastres...
À falta de testemunha ocular,
só o olho das câmeras dos condomínios
vigiavam cada passo meu, com vagar.
Apenas o trinar da passarada
e uma leve brisa ondulando
a copa das árvores
garantiam que a paisagem
não era a imagem aprisionada
de um quadro.
Devo ser caso perdido, mesmo!
Às vezes, me vejo no mais puro deleite
em não ter por perto
sombra ou rastro de gente.
Só então, me permito o detalhe,
invisível no nervoso desconcerto diário;
a nuance que grava na mente
o que dá cor ao instante presente.
O coqueiro inclinado,
os planos de um telhado,
os frisos dos edifícios,
os galhos partidos no vendaval
da madrugada passada,
as formas que a imaginação esculpe
nas nuvens róseas, alaranjadas...
Nessas primeiras horas do dia,
pelas ruas desertas, apartado da tribo,
à beira-mar ou à margem do rio,
tudo parece deslizar
em natural harmonia.
Que os relógios atrasem,
as sirenes engasguem,
os motores colapsem e travem
e, mesmo que seja só hoje,
façam amor até mais tarde, os homens,
permitindo que a natureza
respire também em seu nome.

Eliseo Martinez
20.01.2025