495.
Harmonia Roubada
enquanto a cidade ainda
dormia seu sono profundo.
Depois de passar a noite
lambendo na praia, as areias,
o mar sem fim, rugia ao fundo,
no eterno avanço e recuo
sobre a faixa costeira.
Sem dim-dim ou automóveis,
sem o malho dos trabalhadores
das obras ou o pregão
dos vendedores de frutas,
sem a ruidosa alegria das praças
ou o movimento dos surfistas
com as pranchas debaixo dos braços,
sem os hermanos turistas
ou notícias de desastres...
À falta de testemunha ocular,
só o olho das câmeras dos condomínios
vigiavam cada passo meu, com vagar.
Apenas o trinar da passarada
e uma leve brisa ondulando
a copa das árvores
garantiam que a paisagem
não era a imagem aprisionada
de um quadro.
Devo ser caso perdido, mesmo!
Às vezes, me vejo no mais puro deleite
em não ter por perto
sombra ou rastro de gente.
Só então, me permito o detalhe,
invisível no nervoso desconcerto diário;
a nuance que grava na mente
o que dá cor ao instante presente.
O coqueiro inclinado,
os planos de um telhado,
os frisos dos edifícios,
os galhos partidos no vendaval
da madrugada passada,
as formas que a imaginação esculpe
nas nuvens róseas, alaranjadas...
Nessas primeiras horas do dia,
pelas ruas desertas, apartado da tribo,
à beira-mar ou à margem do rio,
tudo parece deslizar
em natural harmonia.
Que os relógios atrasem,
as sirenes engasguem,
os motores colapsem e travem
e, mesmo que seja só hoje,
façam amor até mais tarde, os homens,
permitindo que a natureza
respire também em seu nome.
Eliseo Martinez
20.01.2025
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