Pedro
Acho mesmo que,
nestes anos todos,
tentei esquecer
a lembrança de teu frágil
corpo maculado
em um canto de mim,
sombrio e mal arrumado,
onde nada, além de ti,
permiti existir.
Nem tempo tive
de te conhecer, de fato,
ou mesmo jeito de ter te amado,
meu guri desafortunado.
Já nascias como na canção,
pedaço arrancado de mim,
quando tua passagem breve
foi demais para suportar.
Confesso que tive medo
antes de chegares e, à partida,
deixou-me a ferida viva
que, ainda hoje, trago comigo.
Talvez tenha te culpado
pela dor maior que já suportei,
ao fazer ruir tudo o que
sempre quis construir
ao lado de alguém.
Só sei que morri um pouco,
bem ali, naquele triste 4 de janeiro,
te vendo lutar para respirar,
em desespero, antes mesmo de ter
consciência de teu nefasto paradeiro.
Me vi quebrado e impotente
ante o muro intransponível
que se levantou a minha frente.
Ainda lembro, com pavor,
da pequena urna branca
em que deitei teu corpo,
carregada em meus braços
até o nicho escuro do campo santo,
onde te neguei as rezas,
as flores e os prantos
dos ritos que te pertenciam,
tentando proteger quem, por ti,
também renunciava à vida,
naquele maldito dia.
Lembro das tardes,
à orla deserta, onde só o rio
ouvia os gritos deste animal ferido;
lembro da chuva no rosto
e de meus passos trôpegos,
tentando não sucumbir
a dor de te ver partir,
sem poder ter te acolhido.
Lembro do vazio nos olhos
de quem, com amor,
te trouxe à exígua vida...
Lembro do temor da volta,
com ela e a casa tomada
pela espuma dos dias.
Foram tempos de desespero,
quando me afastei de tudo,
a começar pela mulher que amava
e que te pôs no mundo.
Por anos não consegui falar teu nome
sem marejar os olhos d'água.
Conheci a bacia das almas
e, nela, sorvi do fel de toda mágoa.
Foram tempos bem difíceis,
até que, para me salvar,
tive de me perder...
De volta dos abismos,
sobrevivi nos braços
de amores fáceis,
procurando cheiro
nas flores de plástico,
me fazendo forte
quando era só um homem
devastado e fraco.
Mas guardo no meu peito
uma certeza, ignoto filho.
Seria um homem melhor
que sou, se tu, Pedro,
estivesse, hoje, aqui comigo.
Sinto que seríamos
Seriamos pai e filho.
Eliseo Martinez
04.02.2025
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