498.
A Insustentável Leveza
da Bem-aventurança
em uma dessas noites sem lua,
imerso na mais perfeita paz de espírito,
varria com o olhar os confins do infinito,
ao som do cri-cri dos grilos.
Com toda a miséria de fundo,
ali, naquele bendito momento,
parecia que o mal havia partido,
tirando férias do mundo.
Nada a perturbar a existência,
posta entre parênteses,
nem mesmo o menor peso
a oscilar na balança da consciência.
Os problemas maiores, há muito sanados;
os menores, por hora, apaziguados...
... ou tão bem enterrados
que à superfície nem a laje
das lápides havia restado.
Na verdade, transitava pelo
quase-estado de vida sonhada
por feras e homens pacificados.
Mas...
De tão perfeito que estava,
começou a sentir falta de algo
naquele oásis de sossego,
estranho a alguém, assim, do seu jeito.
Devia ser coisa não oriunda dos conteúdos,
que facilmente se tornam assunto
nas rodas de poucas luzes,
mas coisa outra que emana
da forma e substância das essências
e encerra em si mesma
o sentido último da existência.
Assemelhava-se, mas não era de tédio
que se tratava.
Julgava, mesmo, que lhe era desconhecido
tal estado nefasto.
Começou a pensar no que havia
de constante na vida,
o que desde de sempre lhe faz companhia
e, por algum motivo,
naquele preciso instante,
tomara chá de sumiço.
Pensou, pensou e pensou mais um pouco...
Ao final percebeu que lhe faltava
o que sempre rondou pelo entorno,
feito corvos do mau agouro.
Simplesmente, faltavam as mazelas
e, assim, a fúria em si mesmo gerada
para dissolve-las.
Olhando em volta, com olhar mais atento,
não tardou muito para que se resolvesse
o dilema...
Sem causa aparente, viu-se no meio
do inesperado entrevero,
entre gritos, lâminas e cabeças partidas.
Sem apelo da pena,
deu adeus ao momentâneo conforto,
sentenciado a um par de meses
entre meganhas, afoitos e outros.
E... tudo normal, de novo!
Eliseo Martinez
28.01.2025
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