Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 5 de maio de 2016

52.

DEMOCRACIA


E assim chegou a democracia à vida das manadas, como sem ela não tivéssemos nada. Como sem ela só nos restasse a opressão de suásticas e cruzes gamadas. Chegou como chegam soluções que pretendem continuar a ser para além do tempo em que estão, mesmo depois de falidas, quase mortas, encobrindo caminhos que nos conduzissem por uma outra via, mais humana, menos fria e torta. Panaceia das modernas sociedades de massas, oculta sob a mais angelical de suas máscaras, esquecida das próprias bandeiras da igualdade, liberdade e, da mortalmente ferida, fraternidade. Alquimista de consensos de duvidosos sensos, emerge redentora como garantia dos legítimos interesses do homem médio, como se este, se autodeterminasse, livre, e sem a manipulação dos donos do poder ficasse. Longe de ser fruto do acaso, seu pouco caso com a educação da população, faz parte do trato e, a ela, tratada feito multidão de asnos. Em suas águas nadam ágeis as rêmoras da bajulação, sonhando em associar-se a pequenos e grandes tubarões, proliferam os conchavos obscuros em um arco-íris de tons cinza de oportunistas espalhados por cada grêmio ou condomínio, executa-se o concerto silencioso dos poderosos, alarga-se o abismo entre os que muito tem e os que com quase nada se mantém, instaurando a mais sutil das dissimuladas faces do poder já inventadas. Se a verdade é a primeira vítima das guerras, é na democracia que ela é estuprada todos os dias. Ainda muito jovem, no apogeu de Atenas, o voto democrático ceifou a vida de um seminal Sócrates. Nela, justiça e verdade reluzem sob os efeitos especiais da maquiagem, embaladas ao gosto do cliente, sempre nutrido com novos estímulos para dar sentido imediato a vidas suspensas em consumo, num eterno hiato. O mais cênico dentre todos os regimes autoritários, travestido de justo em seu exercício diário, segue a esmagar minorias sob a ditadura das maiorias movidas por fios articulados pelos dedos de muito poucos, astutos vendedores de podres valores e sonhos loucos. Os mesmos dedos sujos que estão por trás da mídia, dos governos, dos parlamentos, das grandes propriedades, no comando de instituições públicas e privadas, larva que fez ninho dentro da minha e da tua cabeça de consumidores insaciáveis...
Hoje, parei para ouvir o que tinha um índio a dizer. Dizia ele, que a democracia era um conceito estranho a sua nação guarani, guiada pela força do bom senso da comunidade, ancorado nas noções de bem comum e igualdade. Que sua lei primeira era entender-se como parte da natureza, antes de mais nada, a ser preservada e que, a partir daí, brotavam ramos de preceitos que definiam a coexistência pacífica dos homens de sua aldeia. Nem todos somos índios. É fato. Mas será, mesmo, que a sabedoria milenar desses povos, por insistirem em pisar o chão, nada tem a nos legar, então? Logo a nós, tão ricos em mazelas, tão sós, perdidos pelas cidades, a andar com olhos assustados por suas violentas vielas?

Eliseo Martinez
04.05.2016 

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