Condenados à Liberdade
A liberdade bem que poderia ser um salto de bungee jumping sem a corda elástica, mas se fosse, seria suicídio e não um salto de bungee jamping. A liberdade está mais para uma imensa estação central onde se emaranharam os trilhos, dentre os quais devemos escolher os que nos levarão a nosso destino.
Eventualmente, nós mesmos podemos assentar dormentes, cravar cravos, deitar o aço. Nestes raros episódios a linha da virtú emparelha com a da fortú e a liberdade faz-se paralela à felicidade, dando novos sentidos a vida e a verdade.
Ser ser humano, por definição, é pertencer ao reino animal, do qual se nasce súdito banal. No entanto, somos distintos de todos os demais, dotados do que a ciência poética dos antigos chamavam de ânima (alma) e, hoje, é melhor entendido como o complexo conjunto de atributos da subjetividade humana.
A condição humana é produto da cultura e, antes ainda, emerge da exclusiva função do pensamento. Em apenas duas centenas de milhares de anos, a atividade racional nos guindou à posição de espécie dominante no planeta, para o bem e para o mal, mesmo que uma das mais recentes nele surgidas.
A fonte de nosso poder relativo frente aos demais seres é, também, a gênese da fraqueza que é só nossa. Se, por um lado, o homem surge como parte da natureza, por outro, se opõe a ela pela mente. A pequena horta de nossa consciência se alimenta do vasto e fértil terreno inconsciente, a agitar-se entrópico nos subterrâneos de cada um, mas também da espécie como um todo. Ali residem as raízes mais profundas das motivações e dos medos, não facilmente acessáveis pelo entendimento.
Dito de outra forma: o inconsciente é um espaço interior sem fim, incomensuravelmente mais amplo de sombras que de luzes, que nos permanecerá inacessível em sua maior parte, apesar da permanente influência que exerce no que circula na superfície da consciência. Neste campo, se os demais animais superiores desenvolveram a primazia do instinto, recessivo em nós, a evolução dotou-nos de intuição, também uma forma pré-racional de percepção.
Paradoxalmente, a atividade da mente, que nos tornou hegemônicos, determina a estranheza de nós mesmos produzida pelo inconsciente, destituído dos contornos mais nítidos delineados pela consciência.
O valor da liberdade, tão caro a nós, humanos, para ser realizado depende, em muito, do quanto podemos restringir este estranhamento no que se refere ao conjunto de valores e sentidos colocados à disposição pela cultura, num dado tempo e espaço, e os eleitos por nós mesmos como os mais importantes, com relativa autonomia. A apropriação consciente dos juízos que definem o bom, o belo e o justo de cada um, vai definir nossas escolhas enquanto seres singulares e menos dependentes das determinações definidas pelo coletivo dos demais homens. Determinações, estas, mais fortes na sociedade de massas em que vivemos, pautada pelo consumo dirigido de bens, serviços e ideias aleatórios tornados desejáveis, quando não imprescindíveis, vindos da exterioridade de interesses que regulam os mercados e se alojam na interioridade de regiões pré-conscientes da mente do indivíduo.
É pela consciência que nos deparamos com o mundo das contradições antagônicas, dos paradoxos e dos impasses diários.
A totalidade do real se fragmenta em parcialidades virtuais cada vez menores, num movimento incessante rumo ao indivíduo atomizado e, igualmente, fragmentado. Dai resulta que a busca da liberdade, também nos conduz à angústia. Se a natureza é destituída de razões, a vontade e alguma necessidade de lógica, ao contrário, vêm impressas na pequena, mas importante distinção do que se poderia entender por natureza humana. As engrenagens tipicamente humanas que tendem a elevar a autodeterminação de nossa existência, também geram a dor da angústia nos homens, uma vez que, a seu turno, nos conduzem a escolhas.
Ou seja, a consciência gera liberdade na medida em que, primeiramente produz e, depois, impõe a escolha que nos causa a angústia. Sartre foi um dos primeiros a concluir que os homens estão condenados a liberdade e, desta condenação, depende o que hoje entendemos por humanidade.
Eliseo Martinez
24.07.2016
Bela mistura de existencialismo, psicanálise freudiana/junguiana, evolucionismo, cognitivismo, etc. Já parei pra pensar na função do pensamento. Aquilo que nos singulariza em relação aos irmãos animais, é o que nos joga vertiginosamente no abismo da angústia, fruto do imperativo de posicionar-se ante o mundo e as escolhas que este impõe. Escolhas restritas, claro, de acordo com as características de cada sociedade, afinal a escolha se dá em relação a um conjunto de possibilidades que transcende nosso arbítrio, muitas vezes. Mas, para aqueles que afastaram a luz ofuscante das utopias e suas promessas de total liberdade, nosso mundo ainda é um paraíso a ser gozado, em vida. Abaixo vai um poema que escrevi, e que fala um pouco do pensamento e das angústias, inerentes a nossa condição. Forte abraço, Eliseo, meu igual, meu irmão! Sinceramente seu, Everson.
ResponderExcluirOntem, o tato - a cenoura, o barro, o prato
hoje, o fato - cozido, molhado, intacto
Ontem, o gesto
hoje, pensamento
Ontem, a fruição
hoje, nostalgia
E emerge a linguagem
pra descrever a diferença
que surge com o pensamento
No início não havia
a angústia do não-dito,
posto que isso
Não havia o sufoco,
porque oco
No início havia o choro,
não a tristeza
12.08.2015